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Mostrando postagens com o rótulo memórias

O dia em que lutei contra Napoleão

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Eu não sabia que ainda viveria mais 70 anos, mas minha vida parecia plena naqueles últimos acordes da Abertura 1812 de Tchaikovsky, que meu pai me fizera ouvir enquanto descrevia vividamente as cenas que ele imaginava estarem sendo representadas nos diversos momentos daquela música. Com uma das mãos empunhando uma batuta imaginária, ele regia a orquestra que inundava de sons majestosos a biblioteca de nossa casa, emanados do disco de vinil vendido pela revista norte-americana Reader’s Digest. Papai alternava sua narrativa com breves assobios acompanhando a melodia. Veja, meu filho, no começo, o coral de vozes dos padres ortodoxos com suas longas barbas... eles cantam pedindo a deus que salve sua querida Rússia do avanço implacável do imperador francês, o Napoleão, aquele que traiu a Revolução Francesa... agora, ouça, surgem ao longe as cornetas do poderoso exército francês se aproximando, com alguns toques do hino da França, a Marselhesa. A melodia agora se apressa agitada como a not...

Escrever e rever

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Para Luíza e Thalma   A memória vai se alterando com a idade, sabemos. A minha foi sempre meio incompreensível: algumas vezes mantendo nítidos detalhes de alguma coisa insignificante, noutras apagando embaraçosa e completamente certos momentos importantes. Se não fosse por Thalma, meu passado seria um queijo suíço e dependo dela para me lembrar de muitas coisas como os computadores dependem dos discos rígidos, embora estes últimos também devam desaparecer em breve nas nuvens digitais. Claro que, aos 77 anos, meu cérebro vem piorando essa distribuição aleatória das memórias que devem ser mantidas vivas e, sem saber exatamente do que me lembrarei daqui a uns dias, já posso sentir nostalgia antecipada pelo presente porque ele poderá desaparecer logo adiante sem deixar vestígios. Na tentativa de evitar que a lembrança do que vivo neste momento escorra pelos meus dedos como grãos indefinidos na imensa areia do amanhã, reforço hábitos antigos de sublinhar o que leio, anotar nomes...

Constelações na lama

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Para Titina    Encaixo a folha seca nos ferros da minha bicicleta, a branca, do Natal de 1959, quando meu avô se dizia juscelinista e meu pai lacerdista, e pedalo zunindo como uma cigarra para o Parque Novo.   Atravesso a ponte sobre o ribeirão Mumbuca, que desce mansinho das matas ciliares, inocente de lixos, plásticos, nylons, enchentes e tragédias.   As marcas dos pneus na terra úmida formam arcos, espirais e elipses zodiacais, constelando o chão em galáxias verossímeis num universo que sinto infinito e em expansão.   Pedais, músculos e cérebro me obedecem sem dor, e confio nas manobras que faço com meu corpo, derrapando nas bordas de um buraco negro, que ameaça me devorar nas entranhas de um colégio interno.   As sombras multifolhas das árvores ao redor, sem as pragas daninhas dos aquecimentos globais, acrescentam nebulosas ao berçário de estrelas que o barro esmagado transforma em nuvens de carbono e fumaça...

O filho de Deus

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Quando ainda era um menino feliz, fiquei muito confuso ao descobrir naquela missa de domingo, não me lembro por que meios, que o homem pregado na cruz era o filho de Deus. Era um Jesus em tamanho natural, que me horrorizava com os olhos ainda abertos em agonia e desespero, seu sangue escorrendo dos ferimentos causados pela coroa de espinhos, suas mãos e os pés atravessados por cravos grosseiros de ferro e, mais profundamente me comoviam, seus joelhos ralados pelas quedas sucessivas a caminho do calvário, um machucado que minha experiência da infância permitia dimensionar quanta dor ele havia de ter sofrido. Já ouvira repetidas vezes em minha família que Deus era o criador de tudo e que também existia Jesus Cristo, mas estas ideias ainda não haviam se juntado. Naquela manhã divisória do tempo sem dúvidas, de repente faltava sentido que Deus pai todo poderoso fosse incapaz de salvar seu próprio filho da morte. A não ser, fui forçado a imaginar, que Deus tenha tentado salvar Jesus, mas nã...

Ao mestre, com gratidão

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  Acabo de ler A Caravela, do meu professor de quadrinhos e de história do Brasil, compadre, amigo e irmão de nanquim, o Nilson Azevedo, que carinhosamente me enviou um exemplar (no sentido mais profundo do termo) do seu livro. Esta edição d’ A Caravela (2022) é uma pequena amostra do humor e da alma deste cartunista pleno, o primeiro que conseguiu sobreviver do trabalho de cartunista nas terras de Minas sem se mudar para o Rio ou São Paulo, quando a cultura brasileira era (e continua sendo) colonizada pelos norte-americanos , mas também subcolonizada pelos cariocas e depois pelos paulistas. Basta lembrarmo-nos de alguns dos artistas mineiros que precisaram migrar para o Rio, como Drummond, Guimarães Rosa, Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, Borjalo, Ziraldo, Henfil e Nani e por lá ficaram. Depois da ousadia do Nilson, permanecemos, seus discípulos, reunidos em Minas em torno de projetos regionais de resistência contra a ditadura, como o Humordaz, o Grupo Mineiro de Desenho, os Ca...

Meu primeiro 7 de setembro

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  É possível que este próximo sete de setembro se torne uma data marcante, seja porque teremos sofrido mais um golpe militar, seja porque todas as ameaças fascistas não terão passado de mais um blefe para continuar o processo de corrosão da frágil democracia brasileira. De qualquer forma, esta data já me é inesquecível desde o tapa que levei de minha mãe por me recusar a vestir o uniforme da escola, com o qual deveria desfilar pelas ruas de Lambari nas comemorações do 7 de setembro de 1958. Ter que vestir aquela roupa e marchar batendo os pés ao compasso de uma banda militarizada pareceram-me coisas ridículas de se fazer, ainda que eu não soubesse justificar à época o porquê da rebeldia. Talvez fosse o embrião da visão internacionalista que amadureceria em mim com os anos, opondo-me aos diversos patriotismos que infestam nossa humanidade. Minha mãe, aprisionada pela crença na pedagogia violenta da época, lascou-me um tapa na perna direita com tanta força que aos prantos me su...

Sobre nosso querido Henfil

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  Meu amigo Bira Dantas, cartunista de muitas penas, entrevistou-me para a Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo sobre um livro que está sendo lançado sobre o Henfil. Clique aqui para ver nossa conversa. Faltou-me dizer que os cartunistas filhotes no ninho no mandacaru seriam Nilson, Laerte, Angeli, Glauco e Nani. Por falar nisso, quatro dos filhotes estão ausentes nessa foto, durante o Salão de Humor Laura Alvim de 1993, já com saudades do Henfil, homenageado, na foto ao fundo.

Apagando memórias

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  O poste de ontem (ver aqui: https://lorcartunista.blogspot.com/2021/07/borba-x-galo.html ) provocou comentários de amigas e amigos que discordam da demolição de estátuas de torturadores, genocidas e escravagistas. Uma destas opiniões foi do Jean Abreu, historiador, que disse: “Que os monumentos sejam retirados das praças, desde que preservados em museus ou locais de memória para que o passado não seja apagado e possa ser narrado, incluindo a crítica aos opressores.” Uma amiga, que não quis se identificar, mandou-me o artigo abaixo dizendo que é um bom ponto de vista: https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2020/06/statues-and-limitations/613444/ Concordo com ambos : devemos preservar a memória coletiva, mesmo dos piores momentos da nossa história, incluindo nela a compreensão atual de que aqueles atos “normalizados”, hoje, são considerados crimes contra a humanidade.

minha mãe

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quando você se foi, esqueceu a porta aberta e por ela penetraram sombras. agora, nada me separa dos ruídos da rua, dos gritos aflitos das pessoas contaminadas por vírus aleatórios, das ruínas do mundo desabando sob o peso da entropia, do resfriamento progressivo dos planetas e dos corpos envenenados pelo tempo. nada mais me protege do caos iminente, do terror noturno e do absurdo dos meus sonhos. você deixou a morte entrar na minha vida.

Memórias futuras

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A necessidade especial de ler Nirlando Beirão

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Com o álibi de revelar uma intrigante história familiar, o amor entre seus avós, proibido pelos costumes religiosos do começo do século passado, Nirlando Beirão em seu livro “Meus começos e meu fim” [1] permite acompanharmos o seu enfrentamento da doença degenerativa que o vem incapacitando progressivamente. Em meio à sua procura por respostas no passado familiar, encontramos fragmentos da memória de sua infância em Belo Horizonte e uma antropologia bem-humorada da comunidade formada pelos emigrantes portugueses, da qual sua família faz parte, além de aguçada descrição da geografia e dos hábitos familiares mineiros. Apesar de prometer a si mesmo evitar escrever sobre política neste livro, Nirlando revela seu senso crítico experiente e cosmopolita diante do desarranjo mundial contemporâneo dos sonhos democráticos e iluministas. O irmão de Nirlando é o Paulo Beirão, meu amigo e colega de turma, e tenho um irmão jornalista, Ernesto Rodrigues, que também saiu de Minas para trabalhar e a...

Henfil, o palestino

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Há 30 anos morria Henfil, talvez o cartunista que mais tenha influenciado a opinião pública brasileira, especialmente nas décadas de 70 e 80. Ele esteve presente de corpo e arte e foi um dos mentores dos grandes movimentos nacionais pela Anistia, pelas “Diretas Já”, pela Constituinte e pela fundação do Partido dos Trabalhadores. Henfil não sobreviveu à AIDS, contraída em transfusões de sangue para tratamento de sua hemofilia, e não pode ver alguns resultados de suas lutas políticas. A Anistia ficou pela metade, sem punição dos torturadores, os quais voltaram a receber apoio de Bossalnaros e de parte de uma geração desinformada sobre o que é uma ditadura militar. As “Diretas Já” resultaram na eleição indireta do Tancredo Neves, que morreu na praia e deixou em seu lugar o latifundiário José Sarney e uma sequela chamada Aécio Neves, seu neto. A Constituinte foi capaz de, surpreendentemente, construir uma Constituição que procurava garantir direitos sociais e nos transformar numa nação m...