O dia em que lutei contra Napoleão
Eu não sabia que ainda viveria mais 70 anos, mas minha vida parecia plena naqueles últimos acordes da Abertura 1812 de Tchaikovsky, que meu pai me fizera ouvir enquanto descrevia vividamente as cenas que ele imaginava estarem sendo representadas nos diversos momentos daquela música. Com uma das mãos empunhando uma batuta imaginária, ele regia a orquestra que inundava de sons majestosos a biblioteca de nossa casa, emanados do disco de vinil vendido pela revista norte-americana Reader’s Digest. Papai alternava sua narrativa com breves assobios acompanhando a melodia. Veja, meu filho, no começo, o coral de vozes dos padres ortodoxos com suas longas barbas... eles cantam pedindo a deus que salve sua querida Rússia do avanço implacável do imperador francês, o Napoleão, aquele que traiu a Revolução Francesa... agora, ouça, surgem ao longe as cornetas do poderoso exército francês se aproximando, com alguns toques do hino da França, a Marselhesa. A melodia agora se apressa agitada como a not...