quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Quando foi a última vez que pensei sobre o futuro?



Percebi o desconforto da jovem médica quando perguntei o que ela esperava do futuro. Não penso muito no futuro, respondeu, vou seguindo meu caminho de acordo com as oportunidades que surgem, com prioridade na minha família, no que pode ser feito de imediato.

Lembrei-me de alguns estudos de neurocientistas que descobriram que o tempo que imaginamos que ainda viveremos seria um fator importante para o nosso comportamento em geral. Jovens tendem a esperar mais tempo de vida do que os idosos, então os jovens se arriscam mais, dão prioridade para novas amizades, para viajar, conhecer novos países, tentar novas atividades profissionais e mudar o mundo. Enquanto os idosos tendem a se concentrar na família, escolher caminhos conhecidos, optam por conviver com parentes e amigos antigos e se arriscam menos, preferindo conservar o mundo.

A jovem médica estaria se comportando como uma idosa?

Talvez ela tenha razão em não querer pensar sobre o futuro. Imaginar o que estaremos vivendo daqui a alguns anos requer considerar os indícios no presente que apontam para aonde estamos caminhando.

A começar pela possibilidade do aquecimento global e suas consequências em nossas vidas. Não é fácil pensar sobre este problema de dimensão planetária, cuja solução transcende a cada um de nós, que sufoca em ansiedade àqueles que imaginam que viveremos tempos difíceis, enquanto provoca a ira negacionista daqueles que ainda não se convenceram da responsabilidade humana na crise climática.

Pensar sobre o futuro também implica em refletir sobre a crescente instabilidade das instituições sociais, que bem ou mal vinham garantindo a nossa existência em diversos níveis. Assistimos atualmente ao desmonte sistemático da estrutura pública, desde os serviços de saúde que nos protegem de doenças, epidemias e endemias, passando pela prevenção de enchentes e secas, pelo abastecimento de água, luz e alimentos, até o sistema de justiça social que deveria garantir nossa convivência pacífica.

Pensar no futuro é ter que encarar a progressiva precariedade do emprego, das condições de trabalho e da aposentadoria, de tal forma que a estabilidade de qualquer trabalhador em todos os níveis se tornou uma impossibilidade forjada pelos economistas encarregados de manter funcionando a exploração humana e a concentração de renda. Planejar uma vida futura sem saber se continuaremos empregados amanhã parece, portanto, uma perda de tempo.

Pensar no futuro requer imaginar se as regras democráticas continuarão a existir à medida que governos autoritários e populistas vêm desmontando os mecanismos que permitem a alternância de poder e o respeito às regras, as quais permitem a estabilidade de uma sociedade no longo prazo. É a constância das regras do jogo democrático que permite os grandes investimentos sociais no longo prazo. No entanto, eleições de populistas autoritários, como Trump e Bolsonaro, e a manutenção de ditaduras, como num país do tamanho da China, tornam o futuro tão imprevisível que voltamos a temer a possibilidade de grandes guerras mundiais, inclusive nucleares.

Pensar sobre o futuro significa reconhecer que estaremos cada vez mais submetidos aos novos modelos de manipulação social por meio de algoritmos eletrônicos e inteligência artificial nas redes sociais. Cada vez mais, poderosas estruturas de comunicação parecem determinar nossa vida e nossos hábitos, o modo de pensar o que devemos consumir em nossa alimentação, vestuário, cultura e lazer. Até mesmo as nossas ideias políticas e morais vêm sendo moldadas por robôs especializados em nos fazer acreditar que acreditamos em algo que mal compreendemos na superfície.

Pensar no futuro nos leva a indagar se a crescente desigualdade econômica entre pessoas, países e corporações continuará sem limites, fazendo com que a sociedade futura seja uma distopia perversa, na qual a maioria de nós será reduzida a uma massa desprezada de trabalhadores, consumidores ou desempregados, enquanto uma ínfima minoria concentrará quase toda a riqueza do planeta em suas mãos. Não é tranquilizador imaginar que viveremos numa sociedade de castas econômicas, na qual renunciaremos ao que ainda nos resta da ilusão de que a meritocracia poderia romper alguma das barreiras entre os bilionários e os pobres.

Sim, talvez nossa jovem médica tenha razão, é difícil pensar sobre o futuro. Até porquê, em última análise, significa considerar a inevitabilidade da nossa própria morte, o que acrescenta mais medo, insegurança e desejo de fechar os olhos, negar tudo o que nos ameaça.

Acuados pela perda de controle sobre nosso destino, perdemos a esperança de que podemos mudar o futuro e nada fazemos para evitarmos a destruição das florestas, a crise ambiental, a instabilidade no emprego, a competição econômica desenfreada, a destruição das instituições democráticas e a desigualdade crescente.

Então fechamos os olhos para o futuro, o que nos imobiliza no presente.

E o futuro a ele pertence. Ele, o presente. 






quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Perdendo a memória



Meu amigo perguntou se certos esquecimentos que ele vem sentindo seriam sinais de demência senil ou Alzheimer.

Pedi que me desse mais detalhes.

Venho me esquecendo de como eram os encontros na minha família, disse ele, cabisbaixo. Tenho uma vaga lembrança de que era um tempo em que não havia tantos rancores do fulano, ou não falo mais com o beltrano, ou não se toca nesse ou naquele assunto com o ciclano.

Não me lembro mais como era discordar das pessoas sem achar que suas ideias eram fruto do ódio ou da desinformação.

Esqueci-me do jeito que a gente falava sobre o futuro, pois parecia mesmo haver um futuro, meio incerto, mas tínhamos planos para ele e sentíamos que, mesmo com idas e vindas, a maioria das pessoas desejava tempos melhores e caminhávamos adiante.

Não me lembro da última vez que tive orgulho de ser brasileiro ao saber de alguma realização extraordinária de um companheiro de cidadania, alguma obra de gente dedicada ao seu povo.

Estou me esquecendo de como era a alegria de ver uma multidão nas ruas e pensar que eu compartilhava com aquelas pessoas um destino, uma terra e um sonho.

Está apagando da minha memória o sentimento de proximidade com qualquer estranho, o qual me fazia sentir parte da humanidade.

Não consigo recuperar a lembrança de como era andar por aí sem tentar adivinhar pela postura, gestos, roupas ou palavras, quais são as pessoas com as quais nada mais tenho em comum.

Já não me lembro de quando era capaz de olhar para alguém sem ficar com raiva da sua opção política ou do nível de barbaridade social que aquela pessoa aceita cinicamente.

Enfim, estou esquecendo a pessoa que eu era.

Ouvi meu amigo e o abracei.

Sim, você está doente, disse a ele.

Talvez seja algum tipo de demência contagiosa. Outro vírus novo, vai saber, que se espalhou pelos computadores e celulares, que contamina nosso coração, que dissemina desinteligência artificial e causa perda de memória. O pior é que parece ainda não haver cura para essa epidemia.

Se servir de consolo, meu amigo, também estou contaminado. Então, podemos nos aproximar e conversar.

Um abraço de corpo presente e a amizade talvez sejam antídotos para nossa moléstia atual, quem sabe?

LOR, fevereiro 2020

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Aves raras

Ontem, Miguel Paiva apresentou seu livro Memória do Traço no programa Sempre um Papo com o incansável Afonso Borges.

Miguel é um dos principais cartunistas brasileiros, com uma obra artística extensa (mais de dez mil desenhos), abrangendo desde o cartum e charges, sua vocação primeira, até ilustrações, quadrinhos, pintura, televisão, cinema e teatro.

Miguel pertence à geração intermediária de cartunistas (como Nilson e eu, que estávamos no encontro ontem) que se situam entre a turma do Millôr Fernandes, Ziraldo e Jaguar, e os atuais cartunistas, como o grupo entusiasmado do WhatsApp que está criando a revista de humor Pirralha (com lançamento para breve), entre eles Duke e Guto Respi, que também participaram das conversas.

Miguel relembrou sua participação intensa no Pasquim, o semanário que revolucionou a imprensa brasileira e era um alívio intelectual e emocional para todas as pessoas que se opunham à ditadura militar.

Ao rememorar seu trajeto profissional (ver aqui http://sempreumpapo.com.br/sempre-um-papo-recebe-o-cartunista-miguel-paiva/), Miguel apresentou um painel da evolução da importância do cartunista na cultura brasileira. Com a participação da plateia, falamos das mudanças causadas pela internet, pela diluição do poder antes concentrado nas mãos de poucos veículos de informação e das mudanças culturais e ideológicas da sociedade contemporânea.

Miguel lembrou sua amizade profunda com Ziraldo e trouxe notícias de sua saúde, animando-nos com um relato de um diálogo recente com ele, no qual a vitalidade intelectual do seu pai artístico (e de muitos de nós) permanece viva, apesar das limitações próprias da idade e da sua doença.

Miguel expressou sua tristeza ao ser despedido do jornal O Globo e como situações semelhantes de desemprego têm sido enfrentadas por grandes cartunistas, como o nosso querido Aroeira.

Ao final, falou de seu trabalho no canal Brasil 247 (ver aqui https://www.brasil247.com/), onde está enfrentando o desafio de criar humor para centenas de milhares de pessoas diariamente.

Depois, na velha Cantina do Lucas, acompanhados do médico, escritor e compositor Francisco Bastos, rememoramos casos e amigos presentes e passados. Acalentamos o sentimento do quanto é bom estarmos fisicamente juntos, pois nós cartunistas somos uma espécie rara ameaçada de extinção.

Prometemos manter mais contatos pessoais nestes tempos de hegemonia da amizade virtual, porque precisamos da arte para viver, como disse a Thalma.

Temos que cumprir esta promessa, pois percebemos ontem o risco que corremos de sermos sequestrados por discos voadores ou banidos para sempre da terra plana.




De pé, Nilson, Guto Respi, LOR, Duke. Afonso agachado e Miguel Paiva sentado (foto da Thalma).







terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

File fire ou Fire file?



Ernest Hemingway foi desafiado pelos amigos a escrever um conto com apenas seis palavras.

Ele escreveu:

“Vende-se sapatos de bebê. Nunca usados.”



Inspirado por ele, resolvi tentar fazer o mesmo.



“Milicianos são mito. E vice versa.”


“Ex-capitão morre com tiros a queima-boca.”


“Testemunha permanece em silêncio. Para sempre.”


“Ninguém sentirá sua falta. Nem ele.”


Quando acabei de escrever estes contos de seis palavras numa mesa de bar, disse:

“Garçom, vê a saideira! Baker, senhor?”











sábado, 8 de fevereiro de 2020

Munição de ninguém



Compartilho o texto da INTERCEPT BRASIL sobre o projeto de lei de Jair Bolsonaro para acabar com a marcação obrigatória das munições ( VER AQUI )




A quem interessa acabar com a numeração de munições no Brasil? Ao crime, com certeza, sim. Pois é exatamente isso que o deputado Alexandre Leite, do DEM paulista, está tentando fazer: ele defende um projeto de lei que prevê eliminar a regra que obriga polícias e Forças Armadas a comprarem munições com marcação de lote. A marcação é isso aqui:


O cartucho acima, por exemplo, nós recolhemos quando rodamos as ruas do Rio depois de tiroteios. Ele é do mesmo lote que matou Marielle. Como sabemos? Ora: porque a marcação existe.

Qual o impacto real da extinção dessas numerações?

Imagine que poderíamos simplesmente deixar de saber, por exemplo, que as balas que mataram Marielle Franco e Anderson Gomes vieram de um lote vendido para a Polícia Federal em 2006. E que as balas desse mesmo lote também foram usadas na maior chacina de São Paulo, numa disputa entre traficantes – ambas em 2015 – e num assalto no interior da Paraíba.

Como é que essa munição, que é de responsabilidade da Polícia Federal, foi parar nesses lugares?

Este tipo de informação pode sumir. E a quem interessa que não saibamos de onde vêm estas balas, para quem foram vendidas, onde deveriam estar?

O PL 3.723/2019, que incluiu o fim das marcações, foi enviado ao Congresso por Jair Bolsonaro após a derrubada de quatro dos oito decretos sobre armas que chegaram a vigorar em 2019 – o que o Ministério Público Federal chamou de "caos normativo".

A medida que anula a obrigação da munição marcada, no entanto, passou de maneira discreta pela Câmara dos Deputados em novembro passado, tramitando com urgência. Três normas foram incluídas na calada do dia anterior à votação: o que significa que os deputados não tiveram tempo hábil para destrinchar seus efeitos práticos.

O intuito era aumentar o volume de munições que poderia estar em um mesmo lote – o que já seria horrível –, mas o deputado Leite substituiu um trecho que invalida o artigo 23 do Estatuto do Desarmamento – e, com isso, tirou a obrigatoriedade da marcação das munições. Se foi astúcia ou uma cabeçada, não saberemos. Hoje em dia, pode tranquilamente ser qualquer uma das duas coisas.

O projeto enviado por Jair deveria determinar as regras para o porte de armas dos colecionadores, atiradores desportivos e caçadores, os chamados CACs. Mas o deputado paulista deu essa ajudinha – a quem?

Na nossa reportagem do ano passado, quando explicamos que recolhemos 137 cápsulas em 27 bairros do Rio para entender de onde vêm as balas, mostramos que a maioria delas (94) foi fabricada aqui no Brasil.

Identificamos, por exemplo, a origem de um cartucho disparado no dia 3 de julho de 2018 em um tiroteio entre policiais da UPP de Manguinhos, na zona norte do Rio, e traficantes do Comando Vermelho. O projétil faz parte do lote BNS23, comprado pela Marinha em 2007. Mas não havia operação da Marinha ali, e eles disseram que não houve extravio desse lote. Então, como isso foi parar lá?

A gente precisa dessa informação para saber quem matou quem, e com uma munição que deveria estar... onde? Foi roubada? Vendida? Extraviada? Desviada? Contrabandeada?

No fim do ano passado, eu entrevistei o Levi Inimá, tenente-coronel reformado do Exército e autor do livro “Balística forense: do criminalista ao legista”. Ele me disse: “Quando a polícia mata, ela desfaz o local do confronto e finge prestar socorro”. Levi fez incontáveis perícias. O deputado paulista Leite quer facilitar o trabalho sujo deste tipo de policial denunciado por ele?

Nós não podemos abrir mão desse tipo de informação em um país onde cerca de 43 mil pessoas são mortas por armas de fogo anualmente e onde o índice de elucidação de homicídios é baixíssimo.

De novo: a quem interessa não saber de onde vêm e para onde vão – ou deveriam ir – essas munições? Vocês podem perguntar ao deputado Alexandre Leite.

Aqui está seu e-mail: dep.alexandreleite@camara.leg.br

Aqui está o telefone de seu gabinete: (61) 3215-5841