domingo, 28 de outubro de 2018

A indiferença do Universo



O céu límpido lampeja azuis 

nas folhas dos galhos caídos 

com a tempestade de ontem.



A lagarta voraz destrói a planta 

presenteada na feira de ciências 

das minhas netas.



O cão do vizinho late desesperado 

a ausência dos donos 

que saíram para votar.



Nada distingue o último dia de uma época 

dos demais dias 

do resto de uma vida.




segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Para Hannah Gadsby

Eu, depois de Nannette.


Ver aqui: https://www.youtube.com/watch?v=5aE29fiatQ0 


terça-feira, 7 de agosto de 2018

A mulher é mais importante por quê?

Uma leitora do meu texto a favor da descriminalização do aborto (VER AQUI) diz que ela entende que a vida da mãe pode ser mais importante do que a do embrião nas três situações já previstas na lei: estupro, risco de morte para a mãe e anencefalia. No entanto, ela pergunta: se não houver nenhuma destas condições a vida da mãe continuaria sendo mais importante do que a do embrião?

Obrigado pela pergunta.

Nós humanos somos essencialmente seres sociais, ou seja, não existimos sem a comunidade à qual pertencemos, a qual, por sua vez, se constitui na rede de relações das pessoas que a formam.

Nas comunidades humanas, por exemplo na família, tribo, cidade, estado ou nações, cada pessoa aprende a desempenhar determinados papeis e sua importância para o grupo dependerá do conjunto de habilidades sociais que ela acumula ao longo de sua história.

Estas habilidades vão desde suas ligações afetivas e conhecimentos sobre o mundo até seu poder físico e econômico. As habilidades adquiridas pelas pessoas ao longo de sua educação e de suas oportunidades históricas levam-nas a realizar atividades diferentes entre si, mas todas necessárias para a existência do grupo.

Cada atividade é indispensável numa comunidade humana, por exemplo, tanto a pessoa que recolhe o lixo como aquela que coordena a distribuição dos recursos financeiros para a saúde coletiva fazem parte de uma complexa rede que permite a todos viverem.

Assim, as pessoas são igualmente importantes para a sociedade humana, desde sua fase de formação até sua plenitude como indivíduo social. Por isso, todas merecem desfrutar dos benefícios criados pela comunidade, ou seja, todas devem ter os mesmos direitos humanos, como, por exemplo, o direito à vida.

Neste sentido, a gestante e o embrião devem ter o mesmo direito à vida e devem ser igualmente protegidos.

No entanto, a mulher pode desejar a interrupção da gestação por diversas razões, além da gravidez decorrente de estupro, com risco de vida ou anencefalia.

Quando a mãe possui razões pessoais para não levar adiante a gestação, estamos diante de uma situação em que a vontade da mãe se contrapõe à vontade presumida de sobrevivência do embrião.

Nesta situação, penso que é preciso haver razões adicionais ao desejo individual da mãe para a decisão de interromper a vida de outra pessoa, ainda que seja um embrião. É preciso que ambos, gestante e embrião, sejam colocados no contexto da comunidade, à qual pertencem e sem a qual não existem.

Assim, podemos encontrar outros critérios, além do desejo da gestante, que sejam levados em conta para a decisão. O primeiro deles é considerar o que trará menos dano para a comunidade: a interrupção da vida do embrião ou as consequências da gestação levada adiante?

A interrupção da vida do embrião significa uma vida a menos naquele grupo humano e o impacto desta perda pode variar para cada comunidade. Por exemplo, pode significar o aumento do risco de extinção de uma tribo indígena isolada e reduzida a poucos habitantes, ou a redução da pressão por mais alimentos numa superpopulação que já está vivendo na pobreza.

Parece evidente que, do ponto de vista da comunidade, fica mais difícil aceitar a decisão da gestante de interromper a gravidez numa tribo quase extinta na Amazônia do que numa favela brasileira.

Por outro lado, qual o impacto sobre a comunidade se a criança nascer? Novamente, as consequências podem variar tanto para a 
gestante quanto para a criança

Para a mãe, as razões que tornaram a gravidez indesejada podem ser agravadas, como o número excessivo de filhos para além das condições econômicas, o que prejudicaria o desenvolvimento também das outras crianças, reduzindo para toda a família as chances de sobreviverem ou saírem da pobreza. A comunidade ficaria mais pobre per capita.

Para algumas mães, especialmente as mais jovens, a criança nascida pode significar a expulsão da casa dos pais, com as consequências amplamente conhecidas, podendo resultar em violência social e discriminação contra ela e a criança. A comunidade se tornaria mais fragmentada socialmente.

Para a criança, poderá ocorrer a incapacidade da mãe em oferecer-lhe afeto, alimentação e condições de vida necessárias para seu desenvolvimento cognitivo adequado, tornando-se uma pessoa com limitações crônicas decorrentes de uma infância carente. A comunidade ficaria menos capacitada intelectualmente.

A criança indesejada poderá sofrer a rejeição permanente pelo pai que não a reconhece, trazendo transtornos emocionais por toda a vida da criança. Pode, num extremo, acontecer o abandono completo, inclusive pela mãe, com episódios recorrentes de violência, com o consequente aumento da criminalidade como desfecho de uma infância vivida sob abusos variados.

A sociedade perde mais uma vez.

Em conclusão, a comunidade se beneficia quando a decisão de continuar ou não uma gestação pertence à mulher. Ela é a pessoa mais importante nesta decisão porque ninguém pode avaliar melhor do que ela os benefícios e riscos para ela mesma e sua possível criança.

Para o bem da comunidade, esta decisão não pode ser crime.





domingo, 5 de agosto de 2018

Não sou a favor do aborto: sou contra ele ser um crime.



Ninguém deseja passar pela experiência dolorosa de interromper uma gravidez. Todos sabemos o quanto sofrem as mulheres que precisam tomar esta decisão. Então, não posso ser a favor do aborto, ou seja, não posso desejar passar, ou que alguém passe, pelo difícil processo de não levar adiante uma gestação.

O que não podemos mais aceitar é que tantas mulheres sejam mortas com agulhas de tricô e outros métodos inconcebíveis em clínicas clandestinas, porque a lei diz que o aborto é crime, uma lei aprovada por uma maioria de homens no congresso nacional. Lei que está em discussão no Supremo Tribunal Federal neste momento ( VER AQUI)

Respeito o argumento das pessoas que são honestamente contra o aborto.

O embrião tem vida? Sim.

É um ser humano em formação? Sim.

Precisa ser protegido? Sim.

Então precisamos saber o que é uma vida humana e como ela deve ser protegida.

Já está em vigor a lei que admite o aborto quando a gestação põe em risco a vida da mãe porque a vida da mulher é mais importante do que a do bebê. Não há dúvida de que, por qualquer medida que possamos escolher, uma pessoa adulta com sua história de vida é muito mais importante do que um grupo de células que estão formando um embrião, que ainda não tem identidade, nem afetos, nem história.

O que nos torna realmente humanos é nossa história pessoal e não o momento em que fomos fecundados.

Também já está na lei atual que uma gestação decorrente de um estupro pode ser interrompida. Novamente admitimos a importância da vida da mulher, porque ela seria duplamente vítima de violência se fosse obrigada a cuidar de uma criança que é a lembrança permanente do seu agressor.

Na mesma lei, entendemos que a ausência de cérebro no bebê (anencefalia) permite o aborto porque o feto, apesar de ser uma vida humana do ponto de vista biológico, ele jamais poderá construir uma identidade, desenvolver afetos ou ter uma história de vida, que é, repito, o que nos define como seres humanos.

Pois então, é disso que se trata: continuar a gestação deve ser um direito de escolha da mulher, que é um ser humano pleno, e não uma obrigação legal em defesa de um embrião a caminho de se tornar um ser humano.

Neste momento de discussão, lamento ver que muitos dos políticos que defendem a manutenção da criminalização do aborto (com o argumento de que defendem a vida) apoiam com entusiasmo o congelamento de verbas públicas para os próximos 20 anos para que o governo Temer pague juros aos bancos e seus acionistas. Quantas vidas humanas serão perdidas por causa desta decisão política, que já está provocando menos vacinas, menos saneamento básico, menos hospitais, menos educação e menos segurança?
(VER AQUI)


Se alguma mulher for contra o aborto por motivos religiosos, morais, éticos ou qualquer outra razão, sua vontade também tem que ser respeitada.

O que não podemos é obrigar as outras mulheres, quando têm seus motivos para interromper uma gestação, a pagar pelo aborto em clínicas clandestinas sofisticadas (as ricas) ou a morrer em clínicas clandestinas incompetentes (as pobres), como diz o cartaz abaixo. Porque todas elas sofrem.




segunda-feira, 23 de julho de 2018

Cro-Magnon



Os restos mortais do homem
de vinte e oito mil anos (*) 
reacendem, 
nas cinzas sobre a mesa dos cientistas,
fagulhas possíveis de sua vida.

Apesar das marcas da doença, terá sido feliz?

Corria pela floresta como as outras crianças,
em brincadeiras ágeis pela aldeia nômade,
ou tropeçava nos próprios genes e se ralava até desistir?

Aprendeu facilmente a falar as complexas palavras mágicas,
que traziam a caça e as frutas suculentas,
ou se alimentava dos restos dos meninos mais espertos?

Descobriu seu lugar ao redor da fogueira,
onde os cânticos marcavam os ritmos da vida e da morte,
ou teve que ser introduzido pela sua mãe contra os costumes da tribo?

Encontrou forças para se aproximar daquela moça, 
que sorria para ele como se fosse sempre de manhã,
ou se deixou emudecer pelo coração disparado e tímido?

Foi capaz de construir sua própria cabana,
apesar da força e destreza que lhe faltavam,
ou teve que se contentar com as sombras alheias?

Sofreu com as marcas na sua pele o medo dos outros,
que sempre temem o que não conhecem,
ou disfarçou seu estigma com couros e panos primitivos?

Os ossos são categóricos: tenha sido ágil ou lento, 
forte ou incapaz, 
ele chegou à maturidade,
o que seria impossível sem o abraço acolhedor de seus irmãos, 
que aceitaram suas diferenças.

Mas as marcas em seu crânio são testemunhas indeléveis 
de que se passaram trinta e oito mil anos 
sem cura para a sua doença.
Ainda.

Mas não passarão outros tantos sem ela.
É a esperança de outro Homo sapiens.

Tradução de Vincent M. Riccardi

Cro-Magnon


The remains of the

twenty-eight-thousand-year-old man rekindle,

in the ashes on the table of scientists,

possible sparks of his life.



Beyond the marks of the disease … had he himself been happy?



Did he run through the forest like the other children

in nimble play in the nomadic village,

or did he stumble from his own genes

and make himself weary until he gave up?



Did he easily learn to speak the complex words of magic,

which brought the game and succulent fruits,

or did he feed on the leftovers of the smartest boys?



Did he discover his place around the fire,

where the songs marked the rhythms of life and death,

or was he merely introduced by his mother

against the customs of the tribe?



Did he find strength to approach that girl,

who smiled at him as if it were always morning,

or did he let himself be muted by his fired and timid heart?



Was he able to build his own cabin,

despite his lack of strength and dexterity,

or was he content with the shadows of others?



From the marks on his skin did he suffer from the others,

who always fear what they do not know,

or did he disguise the stigma with primitive leathers and cloths?



The bones are informative: whether agile or slow,

strong or incapable he has reached maturity,

which would be impossible without the warm embrace

of his brothers, who accepted their differences.



But the marks on his skull are indelible witnesses

that thirty-eight thousand years have passed

without a cure for his disease.

Still.


Not many more will pass without it.

It is the hope of another Homo sapiens.


(*) Atualização 30/7/18
A primeira versão deste texto foi publicada com a datação incorreta de 38 mil anos, quando a idade certa do fóssil Cro-Magnon com Neurofibromatose do tipo 1 é de 28 mil anos, conforme gentilmente corrigiu a pesquisadora Andrea Alveshere. Obrigado, Andrea.

The first version of this text was published with a wrong fossil dating of 38 thousand years, but the right dating of the Neurofibromatosis type 1 Cro-Magnon fossil is 28 thousand years, as it have been kindly corrected by the scientist Andrea Alveshere. Thank you, Andrea. 


segunda-feira, 16 de julho de 2018

Por que as crianças na caverna nos mobilizaram tanto?


Milhões de nós acompanhamos cilindro a cilindro o resgate do time de futebol infantil que ficou aprisionado por vários dias numa caverna, os Javalis Selvagens. Parecia ser o tema principal na maioria dos sistemas de comunicação, apesar de que, ao mesmo tempo, estivesse acontecendo a Copa do Mundo na Rússia, as enchentes catastróficas causassem centenas de mortes no Japão e milhares de refugiados da África continuassem tentando desesperada e perigosamente atravessar o Mediterrâneo para fugir da fome e das guerras.

Além disso, ali pertinho da caverna dos meninos, do outro lado daquela montanha, no outro lado da fronteira da Tailândia com Myanmar, centenas de milhares de pessoas da etnia Rohingya (VER AQUI ) estavam sendo massacradas pelos soldados budistas e obrigadas a fugir para Bangladesh.

E, sim, junto com a desclassificação do Brasil na copa, completamos quatro meses sem sabermos quem matou e mandou matar Marielle Franco.

Mobilizamos nossos corações pelos pequenos javalis, porque são crianças, dizem-me. É verdade, mas também há crianças entre os náufragos mediterrâneos, ou afogadas nas enxurradas japonesas e muitas, muitíssimas entre os rohingyas fugitivos.

Talvez as crianças na caverna tenham recebido a solidariedade mundial porque reúnem alguns símbolos contemporâneos.

Primeiro, eles eram TURISTAS perdidos numa caverna por um acidente climático, um acontecimento que pode fazer parte dos pacotes de viagens de qualquer um de nós, cujo sonho de consumo se tornou conhecer lugares. Quem não se imaginou preso numa caverna escura sem alimento durante dias e dias no lugar dos meninos? Aliás, canais de TV tentaram reconstituir o “clima” de desespero que nós, turistas compulsivos ou virtuais, podíamos compartilhar com o pequeno time de futebol.

Além disso, salvar aquelas crianças constituía um DESAFIO TECNOLÓGICO, mais uma conquista nesta espécie de guerra contra a natureza que travamos desde que formamos civilizações, fascinados que ficamos pelos superpoderes das máquinas e equipamentos que inventamos. Não foi por acaso que se ofereceu para ajudar na empreitada na Tailândia o tal Elon Musk, o mega ultra plus alfa bilionário que lançou ao espaço o seu carro Tesla e vende lança-chamas de brinquedo pela internet.

E, por fim, mas não menos importante, salvar os meninos na caverna era uma questão APOLÍTICA, ou seja, não estava sujeita a controvérsias, opiniões diferentes, perspectiva história ou conflitos de interesses. Podemos todos concordar em paz que eles deviam ser salvos e ponto final.

Esta unanimidade é justamente o contrário do esforço mental e afetivo que temos que fazer para nos posicionarmos diante de questões mais complexas e POLÍTICAS, como, por exemplo, se os refugiados devem ser recebidos, acolhidos e protegidos pelos países aos quais solicitam asilo, ou se os soldados budistas podem expulsar os rohingyas, ou se a polícia civil é suspeita para investigar a morte da Marielle Franco.

O episódio dos jogadores de futebol na caverna na Tailândia relembra outra caverna, a de Platão, na qual preferimos nos manter à sombra do imaginário aparentemente apolítico e unívoco patrocinado pela Coca-Cola do que encararmos a realidade inevitavelmente política e complexa da nossa vida.

E por falar em times simbólicos de futebol, quase que a supremacia branca e competitiva da Croácia venceu a diversidade genética e cooperativa da seleção francesa.

MacDonald Trump torceu muito, mas não deu.