Parking
Saí de casa e fechei o portão pretendendo deixar do lado de dentro a presença sólida de paredes e objetos marcados por sentidos anteriores para vida, que a cada manhã e sempre um pouco mais me parecem desbotados e frágeis, como a ilusão herdada sobre o homem capaz de plantar uma árvore, construir uma cadeira ou escrever um livro melhor do que seu vizinho que poderá morar numa casa no meio da floresta que o mundo abrirá caminho em direção à sua porta, seria este mundo que hoje pulveriza cada um de nós em pó digital e dilui nossa identidade em senhas e logins múltiplos numa nuvem impermanente?, caminhei em direção contrária conferindo nos bolsos que deixara de propósito o celular em cima da escrivaninha do começo do século vinte onde meu avô contabilizava suas vendas no comércio de produtos que já atravessavam o mundo globalizado dos anos 30, como a casimira inglesa fabricada na mesma Liverpool que ouviria John Lennon dizer Imagine, e os três rapazes negros desceram do aglomerado de ca...