Afronta
Para Luíza e Marco da Lígia Da janela vejo o sol se ocultar por trás da favela, onde traficantes exibem as mãos visíveis do mercado. Seguindo na mesma direção oeste, não terminou o dia em Brasília, mas os seus habitantes já encerraram o expediente e as possibilidades futuras pelos próximos vinte anos. Nuvens douradas à esquerda deslizam sobre a praça, na qual refugiados venezuelanos disputam migalhas com pombos sujos pela fuligem que emana do tráfego intenso dos automóveis. À direita, crianças obesas descem pesadamente de uma van escolar e entram entristecidas no prédio pelo playground sempre vazio. Sobre os tetos dos apartamentos, andorinhas voejam inquietas por não encontrarem as árvores do ano passado. Na casa ao lado, o casal idoso discute porque ele não quer tomar o remédio que prolonga sua doença e reduz sua aposentadoria. Na outra esquina, o catador de papel descansa um pouco diante do carrinho de tralhas, que inclui uma bandeira nacional. Tenho ímpeto d...