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Carlos Bronca, o neto

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  Inspirado em bell hooks   Quando a parteira avisou que era um menino, a sala enfumaçada pelos cigarros comemorou com gritos de “é saco roxo!” e os amigos deram palmadas nas costas do pai, que distribuiu mais uma rodada de cachaça e uma caixa de foguetes. O tio Nico brindou, ainda bem que é macho, achei que meu irmão ia dar outra fraquejada! Na ressaca do dia seguinte, o pai viu o filho na penumbra do quarto, acordou o menino com um beliscão na bochecha e foi ao cartório registrar, escreve aí, Carlos Bronca, como o pai, e acrescenta Neto! Na semana seguinte, Carlos Bronca, o pai, implicou com a manta rosa que cobria o menino, herança da irmã mais velha, isso é cor de mulherzinha, tira isso, mulher! A mãe resmungou que estava muito frio, mas o pai arrancou a manta dizendo que sentir frio é bom, vai treinando para ser homem sem frescura. Na igreja, o padre derramou a água benta na cabeça da criança dizendo eu te batizo em nome de Deus Pai todo poderoso, a quem suplico e...

O pequeno príncipe e a menina Jandira

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  J andira caminhou da escola até sua pequena casa na periferia de Belo Horizonte e chegou exausta, mas precisava lavar a louça, varrer a cozinha e fazer o para casa, que seria uma arte, um desenho ou pintura, sobre o livro O Pequeno Príncipe, do autor francês Antoine de Saint Exupéry.  Passava das oito horas quando ela finalmente pode pegar o resumo da história que fora xerocado e grampeado em folhas desgastadas pelas muitas mãos escolares que passaram por elas porque havia apenas dois exemplares do livro na biblioteca.  Jandira leu que um piloto teve que pousar no deserto do Saara por problemas no motor do avião e lá encontrou um menino de cabelos dourados e lenço amarelo no pescoço. O menino era um príncipe de outro planeta, um asteroide na verdade, onde vivia sozinho, mas fugiu de lá porque brigou com uma rosa que era muito exigente ou - Jandira não entendeu bem – se era porque ele precisava encontrar um carneiro para que o animal comesse as raízes das árvores africa...

O outro lado

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   Bruno CL Cota [i]   Segunda-feira, 5:39. Alguns raios de sol atravessaram delicadamente umas poucas frestas da janela, e se insinuaram sobre os meus olhos, que atenderam ao afago luminoso e se abriram vagarosamente. O ambiente onírico que acabara de iniciar, e que poderia até terminar em uma nova soneca, foi abruptamente dilacerado pelo alarme do celular, que entrecortou meus ouvidos e feriu toda minha alma, meu núcleo acumbens [ii] e a minha poesia, enquanto me empenhava em coordenar os dedos para desligá-lo. Já eram 5:40, momento em que a cerimônia de despedidas cotidianas se inicia: cama, esposa, filhos, cachorro, calopsitas. Nessa ordem. Banho, barba, roupa, pão, café e checklist na agenda. Tudo conforme o roteiro cotidiano. Na rua, o engarrafamento de sempre. Gente impaciente, gente com pressa. Eu impaciente com a impaciência dos outros, também com pressa. Comemorei a pequena sorte de encontrar uma vaga de estacionamento a pouco mais de 100 metros do hospital...