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O algoz ritmo do envelhecer

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  Falar sobre o próprio envelhecimento não é de bom tom na nossa sociedade, pois espera-se que mantenhamos o “espírito jovem”, e qualquer reclamação referente aos problemas da idade pode ser desqualificada como depressão, pessimismo ou mimimi, como se faz com as mulheres que protestam contra o patriarcado ou com as pessoas negras que denunciam o racismo estrutural. Talvez essa atitude negacionista seja decorrente do medo que todos temos de envelhecer, porque, de fato, isso significa sofrimento para a maioria das pessoas, como demonstra Simone de Beauvoir em seu livro “A Velhice”, que comentei aqui , um ensaio profundo baseado em ampla documentação histórica, literária e filosófica, indispensável para quem chegou aos sessenta-setenta e para quem pretende não optar pela alternativa. Não é possível resumir as centenas de páginas de mais uma grande obra de Beauvoir, mas destaco alguns pontos:  Envelhecer biologicamente torna a vida mais difícil do ponto de vista bio...

O pretérito quase perfeito

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Paródia inspirada em "Dom Quixote de La Mancha"  de Miguel de Cervantes e "A Velhice" de Simone de Beauvoir Cena I - Belvedere Seis meses depois de ficar viúvo, o doutor Afonso B. ouviu rumores por trás da porta do escritório da ampla casa que ele construíra num bairro elegante de Belo Horizonte e percebeu que seu filho, sua filha e a médica conversavam sobre a conveniência de o internarem numa clínica geriátrica. Afonso retornou ao seu quarto, apanhou o dinheiro que mantinha num bolso de paletó, vestiu um velho casaco de couro, desceu para a garagem, acordou Sandro, o motorista, - que cochilava sempre que podia para aguentar seus dois empregos, - e indicou o aeroporto de Confins como destino. Sandro indagou se era para buscar alguma mala e Afonso respondeu que não havia mais malas para carregar.  Cena II - Afonso Penna Percorreram algumas ruas em silêncio até o Centro de Memória dos Mortos e Desaparecidos na Ditadura Militar, onde Afonso pediu ao motorista para est...

Em busca do senso perdido

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  Para Flora Augusta   Tenho sido um leitor voraz na esperança de que, em algum momento, alguém venha revelar o sentido da vida para mim. Os anos se passaram e cheguei à “A Velhice” de Simone de Beauvoir, um ensaio profundo que ela escreveu aos 62 anos em busca da compreensão dos significados social, psicológico, político, econômico e filosófico da fase da vida quando nos tornamos velhos. Apesar de eu estar atrasado em mais de meio século, - embora, talvez, na idade suficiente para o ler - tenho descoberto no texto de Simone que a maioria dos escritores e artistas – em cujas obras busquei respostas para minha angústia existencial – lutava ansiosamente com a mesma perplexidade diante do próprio envelhecimento, o qual, de formas variadas, lhes revelou a falta de sentido nos modos de vida que construímos nas diversas sociedades humanas. Ao que parece, segundo Simone, passamos a maior parte de nossas vidas obrigados a nos ocupar com outras coisas e não nos sobra tempo para...