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Constelações na lama

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Para Titina    Encaixo a folha seca nos ferros da minha bicicleta, a branca, do Natal de 1959, quando meu avô se dizia juscelinista e meu pai lacerdista, e pedalo zunindo como uma cigarra para o Parque Novo.   Atravesso a ponte sobre o ribeirão Mumbuca, que desce mansinho das matas ciliares, inocente de lixos, plásticos, nylons, enchentes e tragédias.   As marcas dos pneus na terra úmida formam arcos, espirais e elipses zodiacais, constelando o chão em galáxias verossímeis num universo que sinto infinito e em expansão.   Pedais, músculos e cérebro me obedecem sem dor, e confio nas manobras que faço com meu corpo, derrapando nas bordas de um buraco negro, que ameaça me devorar nas entranhas de um colégio interno.   As sombras multifolhas das árvores ao redor, sem as pragas daninhas dos aquecimentos globais, acrescentam nebulosas ao berçário de estrelas que o barro esmagado transforma em nuvens de carbono e fumaça...

O filho de Deus

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Quando ainda era um menino feliz, fiquei muito confuso ao descobrir naquela missa de domingo, não me lembro por que meios, que o homem pregado na cruz era o filho de Deus. Era um Jesus em tamanho natural, que me horrorizava com os olhos ainda abertos em agonia e desespero, seu sangue escorrendo dos ferimentos causados pela coroa de espinhos, suas mãos e os pés atravessados por cravos grosseiros de ferro e, mais profundamente me comoviam, seus joelhos ralados pelas quedas sucessivas a caminho do calvário, um machucado que minha experiência da infância permitia dimensionar quanta dor ele havia de ter sofrido. Já ouvira repetidas vezes em minha família que Deus era o criador de tudo e que também existia Jesus Cristo, mas estas ideias ainda não haviam se juntado. Naquela manhã divisória do tempo sem dúvidas, de repente faltava sentido que Deus pai todo poderoso fosse incapaz de salvar seu próprio filho da morte. A não ser, fui forçado a imaginar, que Deus tenha tentado salvar Jesus, mas nã...
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