Cotas, a dúvida da meritocracia
Um jovem amigo querido, branco e rico, me disse que o
vestibular hoje é mais difícil para ele porque as cotas para os pobres e negros
diminuíram as vagas na universidade para os outros estudantes.
Será que isso é verdade?
Essa é uma dúvida que costuma confundir muita gente.
A primeira informação a ser conferida é a Lei de
Cotas (Lei nº 12.711 de 2012) na qual o governo da presidenta Dilma
Roussef determinou que 50% de todas as vagas de cada
curso nas universidades e institutos federais seriam reservadas para estudantes
que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas.
Além disso, 50% das vagas devem ser subdivididas por
critérios de renda e critérios raciais (pretos, pardos, indígenas e
quilombolas).
Os outros 50% ficaram para a chamada Ampla
Concorrência.
Assim, de fato, as vagas para cotistas foram retiradas da
chamada Ampla Concorrência (onde concorrem os brancos e ricos), mas, ao mesmo
tempo houve aumento no total de vagas no sistema universitário federal, o que
resultou em número de vagas praticamente constante para os não cotistas.
Portanto, em um curso que já existia e oferecia, por
exemplo, 100 vagas:
- Antes
da lei: Candidatos de escolas particulares, historicamente mais
ricos e em sua maioria brancos, ocupavam a esmagadora maioria das 100
vagas devido à disparidade na qualidade do ensino básico.
- Depois
da lei: O curso continuou tendo as mesmas 100 vagas, mas 50 delas
foram obrigatoriamente destinadas ao grupo de cotistas. Logo, o espaço
para quem concorria sem nenhuma cota (ampla concorrência) caiu pela metade
no papel.
No entanto, o "bolo" do total de vagas na
universidade cresceu ao mesmo tempo, porque embora a lei tenha
dividido o total de vagas existentes em 50/50, o impacto de "perda"
de vagas para a ampla concorrência foi fortemente amortecido porque a lei foi
implementada no meio do programa REUNI (Programa de Apoio a
Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais).
Entre meados dos anos 2000 e a década de 2010, o governo
federal criou dezenas de novas universidades, novos campi e abriu milhares
de novas vagas no país inteiro.
O efeito prático: Se um curso de Medicina que
tinha 40 vagas passou a ter 80 vagas devido à expansão da universidade, as 40
vagas da ampla concorrência continuaram existindo numericamente, mas as 40
novas vagas criadas foram preenchidas pelos cotistas.
No entanto, em cursos que não expandiram de tamanho, por
exemplo, a Faculdade de Medicina da UFMG onde me formei, as vagas permaneceram
as mesmas e assim houve uma redução real das vagas disponíveis para os
candidatos ricos e de escolas particulares. Isto significou superar 50% a mais
de concorrentes para um não-cotista ser aprovado ou ele ter que acertar cerca
de 5 a 6 questões a mais.
Mas no panorama geral da educação federal, aumentou o
número absoluto de estudantes de todas as classes sociais dentro das
universidades.
Atualmente, a lei foi atualizada: antes, o cotista concorria
apenas com outros cotistas. Agora, todos os candidatos concorrem
primeiramente na Ampla Concorrência. Se a nota do candidato negro ou da
escola pública for alta o suficiente para passar direto na ampla concorrência,
ele entra por lá, "liberando" a vaga da cota para outro cotista que
tenha uma nota menor.
Em conclusão, as cotas tentam reparar a injustiça
econômica e histórica contra negros, quilombolas, indígenas e mais pobres e não
reduziram a chance dos não-cotistas entrarem na maioria das universidades.
Então, meu jovem amigo branco e rico, se você escolher uma universidade
onde não houve aumento de vagas junto com as cotas, espero que o ambiente de
maior justiça social que irá encontrar compense seu esforço para ser aprovado
e que você seja bem-vindo nessa universidade que deu este passo para um futuro mais justo, quando as
cotas não serão mais necessárias.
Lor

Parabéns! Eu sempre tive esta percepção e também reitero que nos últimos tres anos antes de me aposentar na UFMG, os melhores alunos que tive eram alunos de cotas! O meu irmão, Ricardo contou-me que um seu aluno de cotas, era um indígena Pataxó, otimo aluno e que retornou à sua aldeia para exercer a profissão. Essa é a grandeza da UFMG
ResponderExcluirTambém recentemente estive no norte de Minas, Januária, e fizemos uma viagem a São João das Missões , para conhecer a cidade de predominância dos Xacriabás. Fomos recebidos, eu e a Leticia, pela secretária de Cultura da cidade: É uma indígena Xacriabá e que havia se formado na UFMG em Letras ,em seu programa de cotas especificas.
Fiquei muito feliz e orgulhoso pelo belissimo programa de inclusão de nossa universidade.
Professor Paulo Pimenta
E também ao amigo branco e rico eu diria o seguinte: você está tendo um pouco mais de dificuldade pra entrar nas vagas reservadas para o seu segmento, mas isso é muito menos esforço do que fizeram aqueles que a vida inteira lutaram e nadaram contra a corrente para conseguir chegar até a condição de disputar as vagas das cotas. Professora Ana Lúcia Gazzolla, ex-reitora da UFMG.
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