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O dia em que lutei contra Napoleão

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Eu não sabia que ainda viveria mais 70 anos, mas minha vida parecia plena naqueles últimos acordes da Abertura 1812 de Tchaikovsky, que meu pai me fizera ouvir enquanto descrevia vividamente as cenas que ele imaginava estarem sendo representadas nos diversos momentos daquela música. Com uma das mãos empunhando uma batuta imaginária, ele regia a orquestra que inundava de sons majestosos a biblioteca de nossa casa, emanados do disco de vinil vendido pela revista norte-americana Reader’s Digest. Papai alternava sua narrativa com breves assobios acompanhando a melodia. Veja, meu filho, no começo, o coral de vozes dos padres ortodoxos com suas longas barbas... eles cantam pedindo a deus que salve sua querida Rússia do avanço implacável do imperador francês, o Napoleão, aquele que traiu a Revolução Francesa... agora, ouça, surgem ao longe as cornetas do poderoso exército francês se aproximando, com alguns toques do hino da França, a Marselhesa. A melodia agora se apressa agitada como a not...

Dar o primeiro tiro – legítima defesa antecipada ou excludente de ilicitude?

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  Algumas pessoas de esquerda admitem que o regime socialista na Rússia foi substituído pelo capitalismo (ia dizendo capitalismo corrupto, mas me perguntei se há algum capitalismo que não seja corruptor de tudo, da política aos recifes de coral), mas, apesar disso, elas acolhem as justificativas de Putin para iniciar a invasão da Ucrânia. Ao contrário, outras pessoas de esquerda temos considerado a invasão russa um crime internacional , pois ela não é moralmente defensável, ou seja, não é algo que visa o bem (ou pelo menos um mal menor) para a humanidade. Uma população que luta em defesa de seu território invadido está exercendo o direito moralmente justificado da legítima defesa. Ao contrário, iniciar uma guerra, seria moralmente correto? Se não o for, os argumentos econômicos, geopolíticos ou históricos para dar o primeiro tiro não transformam a invasão em algo justo. Entre os motivos que me parecem moralmente defensáveis para se iniciar uma guerra (ou revolução) estão as condiçõ...

A outra margem do conflito

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  É mesmo difícil escolher um dos lados na guerra iniciada pelos russos contra os ucranianos, se ficarmos pensando na ambiguidade dos personagens envolvidos, como sugere o texto bem humorado do jornalista Moisés Mendes. Mas o conflito se torna mais compreensível, quando percebemos aquilo que muitos dos protagonistas têm em comum: a desconstrução da democracia. Além do apoio aos russos, há mais pontos de união entre bolsonaristas, que se dizem de direita, e certos grupos, que se dizem de esquerda, do que a gente imagina. Vou personalizar estes dois supostos polos com os nomes de Hitler e Stalin. Hitler desconfia da democracia pois a considera corrompida por leis que ameaçam os princípios da tradição, família e propriedade. Stalin, por outro lado, acha a democracia dominada pela grana da burguesia, muito lenta e incapaz de acabar com as desigualdades econômicas e sociais. Hitler defende governos fortes, ditaduras militares e autocracias exercidas pela elite econômica em benefício da...

O mendigo e a Ucrânia

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  O ex-jardineiro tocou o interfone pela manhã, alguns minutos depois que eu soube da invasão da Ucrânia pela Rússia. Com a voz embargada pelo álcool, pediu-me dez reais para comprar um botijão de gás, solicitação cada vez mais frequente nos últimos meses em que a crise econômica brasileira foi agravada pela pandemia de COVID. José é um homem negro de meia idade, que aumentou a bebida na mesma medida em que viu diminuir sua oportunidade de trabalho, e que aparece no meu portão dia sim, dia não, com a mesma frase: - Oh, meu amigo... Atender a porta e encontrar o José é sempre um momento de conflito interior e tristeza para mim, pois não consigo evitar de me colocar na posição dele, encostado nas grades à espera da resposta, - chego a me ver pelos olhos dele - e fico imaginando como deve ser a vida de alguém na sua idade, que precisa andar pelas ruas de porta em porta pedindo esmolas. Repenso que, certamente, ele não escolheu sua situação social precária, tanto quanto eu não escolhi ...