O dia em que lutei contra Napoleão
Eu não sabia que ainda viveria mais 70 anos, mas minha vida parecia
plena naqueles últimos acordes da Abertura 1812 de Tchaikovsky, que meu pai me
fizera ouvir enquanto descrevia vividamente as cenas que ele imaginava estarem sendo
representadas nos diversos momentos daquela música.
Com uma das mãos empunhando uma batuta imaginária, ele regia
a orquestra que inundava de sons majestosos a biblioteca de nossa casa, emanados
do disco de vinil vendido pela revista norte-americana Reader’s Digest. Papai
alternava sua narrativa com breves assobios acompanhando a melodia. Veja, meu
filho, no começo, o coral de vozes dos padres ortodoxos com suas longas barbas...
eles cantam pedindo a deus que salve sua querida Rússia do avanço implacável do
imperador francês, o Napoleão, aquele que traiu a Revolução Francesa... agora, ouça,
surgem ao longe as cornetas do poderoso exército francês se aproximando, com alguns
toques do hino da França, a Marselhesa. A melodia agora se apressa agitada
como a notícia que se espalha pelas planícies russas: o exército francês está
às portas de Moscou!
Eu nada sabia de Napoleão, de revoluções ou de Moscou, mas
fui montando cenários de fantasia feitos de colagens das imagens de livros de
história, de momentos reais dos padres de minha cidade, o ar soturno e os
cânticos das procissões na Semana Santa, as missas solenes em latim, alguns
filmes de guerra no Cine Biaso e muitas revistas em quadrinhos.
Agora... continuou papai, há um intervalo alegre, onde tudo parece
distante da ameaça da guerra, um lugar qualquer no interior da Rússia,
camponeses dançando, uma festa comemorando a colheita, o nascimento de uma
criança, sons de um casamento popular. No entanto, ao longe, as cornetas de
Napoleão soam novamente em tons graves, prenuncio da guerra, mas a festa
continua... Súbito! Sons de tambores! Os soldados do Czar invadem o vilarejo recrutando
homens para enfrentarem os franceses... A festa é substituída por sons
militares, estalidos metálicos, espadas e cavalos assustados, o exército russo
se movendo...
Eu ainda não sabia que muitos daqueles camponeses, assim
como milhões de russas e russos morreriam nas frentes de batalha naquela guerra
contra Napoleão e nas muitas outras guerras desde então, contra a Turquia,
contra os Húngaros, contra a Criméia, contra o Japão, na Primeira Guerra
Mundial, na Revolução Russa, na ascensão de Stalin e seus expurgos, no Holodomor,
na Segunda Guerra Mundial, na Coreia, no Vietnam e no Afeganistão. Meus olhos
de menino ainda não tinham visto as pilhas de corpos humanos que se formariam
com o poder cada vez mais letal das armas nas guerras imperialistas.
Naquele momento, papai traduzia a música para mim como um
hino à bravura, à coragem e à dignidade de se lutar para defender a pátria.
Superando os sons da cavalaria russa, ressurge o hino
francês em cornetas estridentes e agressivas e papai balbucia Allons enfants
de la patrie com tanto entusiasmo que fico na dúvida se ele está do lado de
Napoleão ou dos russos. Mas a Marselhesa é interrompida por uma passagem bucólica,
remetendo temporariamente aos camponeses e suas festas e logo é substituída por
acordes cheios de pompa e circunstância, em estilo europeu, como se fosse o
salão de baile da corte do Czar. São os oficiais, os nobres, explica papai,
também se preparando para a guerra, despedindo de suas noivas...
Cornetas dão toque de avançar, nova batalha se inicia, há
tiros de canhão ao longe, confusão, correria, uma espiral sonora desce
infinitamente para tons cada vez mais baixos e é interrompida por instrumentos
de percussão que lembram cascos de cavalo, fragmentos do hino da Rússia entremeados
pela Marselhesa, ambos em crescendo. Nova espiral de desespero, fuga, recolhem-se
os feridos... O lado médico de papai descreve cenas dramáticas na enfermaria de
campanha... Mas alguns acordes serenos interrompem a tensão insuportável. Papai
respira. Veja este momento de tranquilidade... Como é possível em meio a uma
guerra alguém se sentir em paz?
Mas o interregno de paz não dura muito, a cavalaria e a
infantaria francesas ressurgem, as tropas se enfrentam mais uma vez, muitos tiros
de canhão, uma sequência interminável de sons que nos levam às profundezas do
caos, à correria, novas explosões, o conflito crescendo, os combates! Veja, os
sinos, meu filho, os sinos! Eles sinalizam a vitória impossível! O exército russo
venceu, impedindo que mais de cem mil soldados franceses entrassem em Moscou!
Napoleão recua, mas sua derrota ainda não está completa,
porque seu derradeiro carrasco chama-se o Marechal Inverno. Apenas um em cada
dez soldados voltaram vivos para a França. É o fim de uma época, meu filho.
Quando a música terminou, eu estava abraçado com papai. Meu
coração acelerado, tremia de emoção, havíamos lutado juntos naquela guerra,
papai era uma pessoa maravilhosa e eu o amava. Minha alma estava repleta de
entusiasmo pela coragem dos soldados e pela glória da guerra na defesa da
pátria.
Porém, desde então, fui aprendendo o lado B daquela
sinfonia: a festa dos camponeses brutalmente interrompida, a dor dos ferimentos,
o medo dos soldados estupradores, o sofrimento das mulheres e crianças, a fome,
o luto, a destruição, a morte, a morte e a morte, o massacre de todas as formas
de vida que são as guerras. Pátria deu lugar em meu coração a frátria, a mátria.
Meu pai não está mais aqui para a gente rever a 1812, com outros
ouvidos talvez, mas bastaria ele me abraçar e a vida pareceria plena outra
vez.
Lor

Bravíssimo, Lor.
ResponderExcluirBeleza de ritmo e musicalidade.
Até ouvi os sinos, os canhões e os acordes serenos indicando que A Marselhesa batera em retirada.
No fim, a evocação de Caetano (e Fernando Pessoa) na canção Língua é um achado oportuno, cai muito bem no texto.