Constelações na lama
Para Titina Encaixo a folha seca nos ferros da minha bicicleta, a branca, do Natal de 1959, quando meu avô se dizia juscelinista e meu pai lacerdista, e pedalo zunindo como uma cigarra para o Parque Novo. Atravesso a ponte sobre o ribeirão Mumbuca, que desce mansinho das matas ciliares, inocente de lixos, plásticos, nylons, enchentes e tragédias. As marcas dos pneus na terra úmida formam arcos, espirais e elipses zodiacais, constelando o chão em galáxias verossímeis num universo que sinto infinito e em expansão. Pedais, músculos e cérebro me obedecem sem dor, e confio nas manobras que faço com meu corpo, derrapando nas bordas de um buraco negro, que ameaça me devorar nas entranhas de um colégio interno. As sombras multifolhas das árvores ao redor, sem as pragas daninhas dos aquecimentos globais, acrescentam nebulosas ao berçário de estrelas que o barro esmagado transforma em nuvens de carbono e fumaça...