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Escrever e rever

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Para Luíza e Thalma   A memória vai se alterando com a idade, sabemos. A minha foi sempre meio incompreensível: algumas vezes mantendo nítidos detalhes de alguma coisa insignificante, noutras apagando embaraçosa e completamente certos momentos importantes. Se não fosse por Thalma, meu passado seria um queijo suíço e dependo dela para me lembrar de muitas coisas como os computadores dependem dos discos rígidos, embora estes últimos também devam desaparecer em breve nas nuvens digitais. Claro que, aos 77 anos, meu cérebro vem piorando essa distribuição aleatória das memórias que devem ser mantidas vivas e, sem saber exatamente do que me lembrarei daqui a uns dias, já posso sentir nostalgia antecipada pelo presente porque ele poderá desaparecer logo adiante sem deixar vestígios. Na tentativa de evitar que a lembrança do que vivo neste momento escorra pelos meus dedos como grãos indefinidos na imensa areia do amanhã, reforço hábitos antigos de sublinhar o que leio, anotar nomes...

Toda alegria

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Para Luíza   Disse a menina, saboreando seu primeiro sorvete, depois da cirurgia que lhe abriu o peito para corrigir um pequeno defeito no coração, não na sua essência, que toda alegria é, afinal, uma forma de resistência.   talvez por ela ter assim me alertado,  eu, que sempre desprezei o Carnaval, fui ver a batucada na rua ao lado no mesmo bairro onde, dias antes  Cristóvão foi assassinado.  Cristóvão, pacífico morador de rua,  desses que estorvam nossas ilusões de classe média. era um pequeno bloco improvisado, cheio de alegria, apesar da lama que ainda transborda da barragem da Lagoa do Nado, das mineradoras em Brumadinho ou das telas no vale do silício reconheci o sorriso largo da porta-bandeira, que trabalha como empacotadeira  no supermercado Brasil apesar da dor continuada e reincidente de mil Marielles, Malês e Marias da Penha vi a felicidade do rapaz tocando o surdo com vigor, como se aquele c...