Meu interrogatório no exército foi interrompido por alguns instantes para que dois capitães combinassem na minha frente algo pessoal entre eles, um aniversário de crianças, se não me falha a memória, para em seguida um deles retomar as perguntas aos berros. Fiquei perplexo por instantes ao constatar que aqueles dois indivíduos eram pessoas comuns, tinham família, filhos e uma vida social além das paredes sinistras daquele setor de inteligência militar nas dependências do 12º Regimento de Infantaria em Belo Horizonte. Exatamente meio século depois, compreendo melhor que vivíamos naquele cubículo os efeitos da radicalização política extrema, que transforma os adversários em inimigos, desumanizando-os até que se tornem “eles”, os vermes, os traidores, os que não merecem viver. Humilhá-los, torturá-los e eliminá-los é como lidar com animais de alguma espécie peçonhenta. O destino mais terrível para “eles” não causa pena, culpa ou arrependimentos em “nós”. Pelo contrário, apresenta-se par...