Postagens

Mostrando postagens de 2024

À espera de nada

Imagem
  Nos infinitos dias até ontem,  um poderoso futuro trazia-me vigor e coragem  para a guerra santa que desde jovem me arrebatara. Bastou-me um ferimento banal,  mas incurável - no tempo de vida que me resta,  para tornar-me incapaz de continuar nas trincheiras onde não conhecia o vazio e nem o tédio. Jogado numa enfermaria,  entre feridos e moribundos,  espero a padiola que me levará para longe das batalhas pela vida, para deixar-me nos campos melancólicos e irreversíveis da velhice e do esquecimento. À espera da morte, descubro a ilusão:  o suposto inimigo durante anos  nada passa de partículas subatômicas,  indiferentes ao que chamamos de destino,  sentido ou razão. Senador Ferrante Anno Domini X

Manifesto filosófico de Galileu

Imagem
  Alerta! Estamos num universo formado por energia em expansão aleatória, não sabemos sua origem antes do Big Bang e nem o que há para além dos seus limites, que são inatingíveis pela ciência contemporânea. A formação dos primeiros átomos se deu ao acaso, por condensação gravitacional da energia, gerando em seguida estrelas e galáxias. Portanto, o acaso é um dos princípios fundamentais do universo, da origem da vida em nosso planeta e da sua evolução. A espécie humana surgiu numa longa sequência de casualidades, entre elas as características neurais que permitem a linguagem, e com isso se tornou capaz de representar a vida no presente, no passado e no futuro, ou seja, construir narrativas, histórias. As diversas civilizações humanas negam o acaso e atribuem sua história a decisões divinas ou voluntárias, tomadas a partir de valores religiosos e morais. Elas precisam negar o acaso porque ele contraria o senso comum de que possuímos livre arbítrio, ou seja, o acaso atrapa...

Um outro mundo é possível?

Imagem
 

Em busca do senso perdido

Imagem
  Para Flora Augusta   Tenho sido um leitor voraz na esperança de que, em algum momento, alguém venha revelar o sentido da vida para mim. Os anos se passaram e cheguei à “A Velhice” de Simone de Beauvoir, um ensaio profundo que ela escreveu aos 62 anos em busca da compreensão dos significados social, psicológico, político, econômico e filosófico da fase da vida quando nos tornamos velhos. Apesar de eu estar atrasado em mais de meio século, - embora, talvez, na idade suficiente para o ler - tenho descoberto no texto de Simone que a maioria dos escritores e artistas – em cujas obras busquei respostas para minha angústia existencial – lutava ansiosamente com a mesma perplexidade diante do próprio envelhecimento, o qual, de formas variadas, lhes revelou a falta de sentido nos modos de vida que construímos nas diversas sociedades humanas. Ao que parece, segundo Simone, passamos a maior parte de nossas vidas obrigados a nos ocupar com outras coisas e não nos sobra tempo para...

Lembrando do último natal com vovó Maria

Imagem
 

Constelações na lama

Imagem
Para Titina    Encaixo a folha seca nos ferros da minha bicicleta, a branca, do Natal de 1959, quando meu avô se dizia juscelinista e meu pai lacerdista, e pedalo zunindo como uma cigarra para o Parque Novo.   Atravesso a ponte sobre o ribeirão Mumbuca, que desce mansinho das matas ciliares, inocente de lixos, plásticos, nylons, enchentes e tragédias.   As marcas dos pneus na terra úmida formam arcos, espirais e elipses zodiacais, constelando o chão em galáxias verossímeis num universo que sinto infinito e em expansão.   Pedais, músculos e cérebro me obedecem sem dor, e confio nas manobras que faço com meu corpo, derrapando nas bordas de um buraco negro, que ameaça me devorar nas entranhas de um colégio interno.   As sombras multifolhas das árvores ao redor, sem as pragas daninhas dos aquecimentos globais, acrescentam nebulosas ao berçário de estrelas que o barro esmagado transforma em nuvens de carbono e fumaça...

Impressões

Imagem
 

Registro pra história

Imagem
 

Temos escolha?

Imagem
  Meu último post gerou dezenas de comentários com ideias semelhantes, o que aliviou minha solidão nestes tempos tensos em que sobrevivemos. Em especial, agradeço o texto do amigo e colega Carlos Starling.  Do outro lado do silêncio reflexivo de outras pessoas, duas dúvidas principais surgiram: qual meu conceito de democracia e qual o grau de escolha do terrorista bolsonarista que se matou no atentado em Brasília. Democracia, para mim, é a igualdade de direitos e deveres. Democracia como uma finalidade em si, e não apenas um meio de se chegar ao poder. Utopia, sim, mas é por elas que nos movemos.  A partir desta definição, básica, fundamental, ponto de partida, podemos conversar sobre quais são os direitos e os deveres e como podemos chegar lá. E haverá diversos caminhos, todos legítimos, embora alguns possam se revelar mais corretos, mais justos ou apenas mais possíveis. Antes de falar sobre o grau de responsabilidade do terrorista, reafirmo que espero que todas as...

Porque apaguei a charge de ontem

Imagem
Amedrontado pelo atentado a bomba cometido por um bolsonarista em Brasília, - sendo o medo e a bomba dois resquícios da ditadura militar - criei e postei neste blog uma charge criticando o terrorista e não suas ideias.  Por mais que eu condene a ideologia que conduziu essa pessoa transtornada ao seu ato extremo, tentei compreender as possíveis causas para seu gesto insano. Qual o grau de sanidade mental que ele possuía? Quantas fake news foram suficientes para ativar sua paranoia alimentada na baixa instrução e na pobreza econômica, social e cultural? Qual algoritmo das redes sociais capturou sua atenção obsessiva transportando-o para dentro de uma das bolhas dos radicais como ele, estacionados na frente dos quartéis e invadindo a Praça dos Poderes em janeiro de 2023? Quantos discursos populistas ele precisou ouvir para minar totalmente sua confiança na justiça e na democracia? Quanto ódio foi instilado nele por falsos salvadores da pátria para que seu autocontrole te...

Dois irmãos sob OSOL

Imagem
  É um duplo prazer estrear minhas artes no OSOL no mesmo dia em que o primeiro volume publicado da trilogia do meu irmão, o jornalista Ernesto Rodrigues, sobre a Globo, é matéria de capa ( ver aqui edição completa e a análise do Alberto Villas). Acompanhei nos últimos cinco anos o trabalho cuidadoso, minucioso e obcecado pelos fatos que o Ernesto realizou para desvelar uma parte da história do Brasil ao nos contar a trajetória, nos últimos 60 anos, da maior empresa de comunicação brasileira desde a invasão portuguesa nas caravelas de Cabral. Não bastasse a imensidade (ia dizendo insanidade) de dados que Ernesto reuniu em planilhas gigantescas, seu estilo literário nos intriga e mantém agarrados à leitura, totalmente hipnotizados pelo entrelaçar das histórias pessoais dos entrevistados nas tramas do jornalismo, das telenovelas, dos assuntos comerciais e da macropolítica nacional.  Como disse o Villas, é uma obra definitiva para a compreensão da história do Brasil.   ...

Os finados e os esquecidos

Imagem
  Inspirado no texto emocionante “ Do pânico ao esquecimento: três anos da CPI da Pandemia” da Deisy Ventura, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP (ver aqui: https://jornal.usp.br/articulistas/deisy-ventura/do-panico-ao-esquecimento-tres-anos-da-cpi-da-pandemia/ )

Chicotes

Imagem
  MANIFESTO CONTRA O PACOTE ANTIP OPULAR Nós, acadêmicos e especialistas em direitos sociais, economistas, pesquisadores, comunicadores populares, sindicalistas, ativistas do movimento estudantil, do movimento popular e parlamentares, nos unimos para condenar de forma veemente o conjunto de medidas de cortes sociais anunciado pelos ministros Fernando Haddad e Simone Tebet para o final deste ano.  As áreas alvo desses ataques já estão definidas: saúde, educação, Benefício de Prestação Continuada (BPC), seguro-desemprego e outros direitos essenciais. Embora os detalhes finais ainda não tenham sido divulgados, já está evidente que essas medidas fazem parte de uma estratégia de austeridade que aprofunda o Novo Arcabouço Fiscal e ataca diretamente conquistas sociais históricas Desde o início, o Novo Arcabouço Fiscal foi concebido para impor limites rígidos aos gastos sociais e aos investimentos públicos, enquanto protege as despesas financeiras, especialmente o pagamento de juros ...