Zé da Lalia e o Partido dos Trabalhadores

 

Eu tinha uns 11 anos quando almocei na casa do Zé da Lalia, um garoto da minha idade, negro, analfabeto, filho de trabalhadores - chamados de colonos - na fazenda do meu tio. Zé da Lalia era temporariamente desviado de suas tarefas na roça para ficar à nossa disposição, as crianças da casa grande, durante nossas férias escolares. Tínhamos ido os dois buscar um cavalo no pasto, deu a hora do almoço, estávamos perto da sua casa, então “me convidei” para almoçar lá. Acostumado que eu estava à abundância de alimentos dos mais variados tipos em todas as refeições, fiquei chocado ao descobrir que havia apenas macarrão barato cozido no sal e óleo.

Um tempo depois, Zé da Lalia morreria de pneumonia, ainda adolescente, sem assistência médica. Estes fatos foram os primeiros dentes quebrados nas engrenagens do mundo perfeito em que eu vivia e algumas dúvidas começaram a brotar nas frestas da ideologia burguesa em que eu era criado. Mais tarde, ouvi Milton Nascimento cantar Morro Velho e descobri que era quase a mesma história, embora a de Zé da Lalia seja um pouco mais triste.

Aquele prato de macarrão foi no início dos anos sessenta.

Não havia o Sistema Único de Saúde e os pobres eram considerados indigentes, que recebiam tratamentos baseados na caridade. O SUS surgiu na Constituição de 1988, na qual o Partido dos Trabalhadores, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, teve atuação intensa e coesa na defesa de direitos sociais e trabalhistas, apresentando diversas propostas e emendas de iniciativa popular, incluindo o movimento da Reforma Sanitária, que garantiu a saúde como um direito universal de todos os cidadãos e dever do Estado.

Não havia direitos trabalhistas para os trabalhadores rurais. Novamente, a Constituição de 1988 foi o divisor de águas, novamente com grande participação do PT, estabelecendo a igualdade de direitos entre trabalhadores urbanos e rurais. Isso significou que, juridicamente, as garantias básicas do trabalhador urbano (como o FGTS e jornada de trabalho controlada) passaram a ser aplicadas plenamente ao campo.

Não havia escola pública obrigatória. A obrigatoriedade do ensino a partir dos 4 anos de idade foi estabelecida pela Lei nº 12.796, sancionada em 4 de abril de 2013 pela Presidente Dilma, do Partido dos Trabalhadores, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Não havia cotas para estudantes negros e pobres. A Lei nº 12.711/2012, também sancionada pela Presidente Dilma, do PT, insisto, tornou obrigatória a reserva de 50% das vagas em universidades e institutos federais para estudantes oriundos de escolas públicas, com subcotas baseadas em renda, raça, cor e, posteriormente, inclusão de pessoas com deficiência.

Não havia democracia – havia a ditadura civil e militar, e havia a fome, de cujo mapa o Brasil foi retirado pela segunda vez pelo Partido dos Trabalhadores.

Hoje, Zé da Lalia provavelmente estaria vivo, não seria analfabeto e, quem sabe, teria se tornado um professor universitário.

Lor


Comentários

Mais visitadas

Filosofia do palavrão

O Rio que sangra e amanhece

Gaza, o escândalo da dor e os labirintos da identidade - compaixão versus acusação