O outro lado
Bruno CL Cota [i] Segunda-feira, 5:39. Alguns raios de sol atravessaram delicadamente umas poucas frestas da janela, e se insinuaram sobre os meus olhos, que atenderam ao afago luminoso e se abriram vagarosamente. O ambiente onírico que acabara de iniciar, e que poderia até terminar em uma nova soneca, foi abruptamente dilacerado pelo alarme do celular, que entrecortou meus ouvidos e feriu toda minha alma, meu núcleo acumbens [ii] e a minha poesia, enquanto me empenhava em coordenar os dedos para desligá-lo. Já eram 5:40, momento em que a cerimônia de despedidas cotidianas se inicia: cama, esposa, filhos, cachorro, calopsitas. Nessa ordem. Banho, barba, roupa, pão, café e checklist na agenda. Tudo conforme o roteiro cotidiano. Na rua, o engarrafamento de sempre. Gente impaciente, gente com pressa. Eu impaciente com a impaciência dos outros, também com pressa. Comemorei a pequena sorte de encontrar uma vaga de estacionamento a pouco mais de 100 metros do hospital...