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Mostrando postagens com o rótulo memórias e outras invenções

Debate de ideias

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  Quem acha que está muito difícil conversar com parentes sobre temas polêmicos, precisava conhecer minha avó Helena, conservadora e católica fervorosa, que vivia tentando me reconverter ao cristianismo. Eu gostava muito dela e adorava provocar sua ira santa. Um dia, depois de mais uma vez ela tentar me convencer sobre as maravilhas da ressurreição para encontrarmos Jesus no Juízo Final, quando, segundo ela, voltaríamos a ter o esplendor da beleza de nosso corpos, perguntei-lhe com qual idade a gente ressuscitaria: se jovem, como eu (era), ou como um idoso (que ela já era). - Como assim, Vavado? (o apelido que recebi em pequeno, da minha irmã Titina) - Pensa só... A senhora ficou viúva aos 40 anos e vovô Euclides somente a conheceu até aquela idade, bonitona, charmosa e sexy  (sua religião não era capaz de inibir sua vaidade e sua imaginação erótica)... - Sim...? - suspirou alguma memória prazerosa e ajeitou delicadamente o vestido - sempre cinza, desde a viuvez. - Vamos diz...

Por que escrever? Vaidade.

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Escrevo na esperança de encontrar algum valor para minha vida. Esta intenção parece imediatamente ridícula e destinada ao fracasso quando me situo entre os sete bilhões de indivíduos que vão morrer nos próximos cem anos. No entanto, uma obsessão cotidiana me impele a publicar ideias, memórias e ficções sobre o mundo, acreditando que este esforço deve ser útil de alguma forma. Utilidade é meu primeiro álibi. Cresci ouvindo meu pai dizer “quem não vive para servir, não serve para viver”. Para ele, médico do interior imbuído do sentimento de que seu trabalho era altruísta e necessário, a máxima continha um ideal nobre o bastante para justificar sua vida inteira dedicada à medicina, o que incluiu milhares de madrugadas fazendo partos. No entanto, do ponto de vista de um senhor feudal, o mesmo pensamento certamente teria um significado distinto e sinistro, mas nunca questionei esta ideia com meu pai enquanto esteve vivo. Para mim, a necessidade de ser útil para merecer viver tornou-se um ...

Alguém conhece o SIMPLEXO?

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Há algumas semanas uma pessoa enviou-me um e-mail dizendo que realizara uma encadernação de meu livro “ Retrato Falado ” publicado em 1978 (capa ao lado), que ele encontrara na internet, e que gostaria de me presentear com um exemplar.  Concordei, manifestei-lhe meu agradecimento e aguardei. Nesta semana, recebi de minha secretária no consultório o tal exemplar, uma linda encadernação com toques de capricho e adicionais à velha edição em papel jornal e capa mole. Imediatamente pensei em agradecer a gentileza, mas não encontrei qualquer bilhete, telefone ou endereço de onde fora encadernado e não mais consegui localizar o e-mail recebido. Há apenas um logotipo e a palavra SIMPLEXO nas primeiras páginas (abaixo), o que me pareceu uma pista para procurar na internet por alguma encadernadora, editora ou algo  equivalente. Não descobri meu gentil encadernador, mas aprendi coisas interessantes, por exemplo, a definição do termo SIMPLEXO oferecida pela banda de rock do me...

O pão de queijo que o diabo amassou

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Damasceno e seus dois irmãos mais novos herdaram um pequeno sítio nas franjas da Serra da Campanha e criavam algumas poucas vacas, porcos, galinhas, patos, uma égua branca e um grupo de quatis que desciam da mata próxima para fuçar os restos da ração dos animais domésticos e acabaram por se tornar habitantes permanentes da propriedade, além de passarinhos e aves maiores, como pombas, gaviões e saracuras. Havia também um pouco de arroz, de feijão, milho, cana, uns pés de café, umas fileiras de verduras e folhas na horta.  A habilidosa mulher de Damasceno transformava em sobremesas e potes de conservas a fartura de um pomar com laranja, manga, abacate, mexerica, jabuticaba, pitanga, goiaba, mamão e limão. De vez em quando, uma tilápia fisgada no pequeno açude, que se formara pelo represamento de uma nascente da água translúcida que descia da serra, completava o sustento e a vida pacata de Damasceno, sua mulher, duas filhas e seus dois irmãos. Damasceno e sua família trabalhava...

Aforismos

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Numa antiga fazenda nas proximidades dum lugar chamado Criminosos, entre Jesuânia e Carmo de Minas, havia um grupo de pessoas que falavam quase um dialeto, aparentados todos eles entre si, talvez portadores de alguma alteração auditiva que permitia que eles escutassem as palavras, mas as compreendessem de forma distorcida.  Conheci aquela boa gente quando era menino e acompanhava meu pai em seus atendimentos médicos, e eu passava horas em rodas de conversa em torno de um fogão de lenha e um bule de café, à espera de um parto mais demorado no quarto ao lado iluminado por lamparinas a querosene. Eu não entendia tudo o que eles conversavam, mas registrei num bloco de receitas de meu pai algumas frases que fizeram sentido para mim no contexto da conversa, para as quais eu reconhecia os provérbios originais, assim como outras que ao longo dos anos tenho procurado decifrar sua transformação de sons e sentidos. “Nem rico, nem rouco”, disse uma vez um deles, dando a entender que não ...

Perdidos e achados

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Achado numa pasta na qual eu procurava outra coisa.

Versos e reversos

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Diante do velho prédio da Escola de Engenharia, agora fechado e ocupado por famílias sem teto acampadas sob a marquise de sua escadaria, o rádio do carro toca “para não dizer que não falei de flores”, a canção de Vandré, enquanto continua o engarrafamento por causa do motoqueiro derrubado no asfalto. Nas escolas, nas ruas, campos, construções Caminhando e cantando e seguindo a canção Subi por aqueles degraus, há quase meio século, sem saber que as pessoas na reunião para a qual havia sido chamado pretendiam que eu saísse dali como o candidato de consenso das organizações de esquerda para a presidência do Diretório Central dos Estudantes de Minas Gerais. Há 50 anos, passei pelo porteiro, figura quase decorativa que recebia correspondências e dava informações, e segui para o terceiro andar sem dificuldades, pois não havia cancelas, câmeras ou vigilantes nas unidades da universidade naquela época. Depois de seguir os procedimentos para confirmar que não estava sendo seguido, entrei nu...