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Maravilhas da natureza

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O Sol é uma estrela de tamanho médio,  onde caberia um milhão de Terras. Sua temperatura é de 11.000 graus na superfície  e 325 milhões de graus  no seu interior. O Sol converte  quatro milhões de toneladas  de matéria  em energia,  por segundo. Intuindo que, assim, o Sol vai acabar,  a cigarra canta aflita, em busca de uma parceira  para aproveitarem  urgentemente a vida. (*) O cartum é de 1981 - obsessão pessoal.  

Podemos falar sobre outra coisa?

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  Sim. Sobre as crianças aprendendo a se aproximar de colegas nas aulas à distância? Sobre os amores jovens que se espreitam como felinos aprisionados nas janelas do isolamento? Ou sobre o rapaz da moto, com o estudo inacabado, que entrega a comida pronta? Ou a faxineira que levou a limpeza da casa do patrão para dentro do ônibus lotado. Talvez a funcionária terceirizada na empresa farmacêutica que não pode faltar por uma simples gripezinha. Ou sobre o desempregado pedinte ao portão que usa a máscara para esconder sua vergonha? Sim, podemos falar sobre outra coisa. Sobre os poemas que poderiam ser feitos com as palavras perdidas à espera da vacinação? Sobre a escolha do absurdo máximo para ocultar a lógica insustentável do inimigo mínimo? Ou sobre a aglomeração de culpados em conexões complexas praticando o assassinato dos inocentes? Ou as mentiras transmitidas de forma virulenta que acabam com reputações e vagas nos hospitais. Talvez possamos falar sobre a falta de epitáfios para...

Cinco Hay kays para um amigo que se perdeu

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  Quem nos separa Não é o presidente, Mas gentética. O que aprendi Foi sentir alergia  À injustiça. Mesmo príncipe, Já não acreditava Em sangue azul. Mas tu querias As meritocracias, Mudar de raça. No meu futuro Encontro no presente  Você passado.

Devidas dúvidas

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  Todas as manhãs busco respostas  do porquê continuar vivo. No jardim, a jovem pitangueira,  que anda hiperativa em flores,  haverá de amadurecer em frutos?  Aquela plantinha delicada,  trazida no voo de um passarinho,  resiliente como uma feminista,  vencerá a barreira de cascalhos brancos?  A erva daninha, vicejando à sombra da palmeirinha,  sobreviverá a outro eventual jardineiro  que estaria interessado  apenas na eugenia das espécies importadas?  Os gerânios florindo despudoradamente,  como se não estivéssemos numa pandemia,  continuarão viçosos no inverno?  As lagartas em amarelo e preto,  esculpindo o manacá a pequenas mastigadas,  irão se encasular à espera da metamorfose  para eclodirem suas asas translúcidas em liberdade?  A diversidade de musgos, hepáticas, azaleias e orquídeas inodoras  permanecerá compartilhando democraticamente  o zum-zum da conversa das abelhas...

isolamento - dia 5

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qual será o gosto do teu beijo, depois de tanto tempo separados? como estará a tua mão, depois de lavada milhares de vezes? como será nosso abraço, depois deste longo medo de nos tocarmos? tomaremos juntos uma cerveja com a língua amarga de estatísticas? comemoraremos a primavera, se o inverno se antecipou e inverteu o calendário? sairemos às ruas, se elas se tornaram desertos atravessados por caravanas de desempregados? como lamentaremos nossos mortos se muitos deles é que sabiam os velhos cânticos e orações? de que maneira chamaremos um ao outro, de meu bem, meu irmão ou de sobreviventes? como enfrentaremos os dias seguintes, a natureza ferida, a sociedade perversa dos homens e o terror indelével da epidemia de casualidades? nada sei sobre tudo isso, mas podemos descobrir juntos, se o amor nos reencontrar.

demasiado tempo

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dois anos são muitos dias, muitos dias contendo tantas horas e cada minuto dessas horas está vazio dos batimentos do coração de Marielle. dois anos são milhares de instantes em que tentamos saber quem mandou e porque tiraram a vida de Marielle. dois anos são duas voltas ao redor do sol, onde vagamos no espaço em busca da luz que nos roubaram de Marielle.

minha mãe

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quando você se foi, esqueceu a porta aberta e por ela penetraram sombras. agora, nada me separa dos ruídos da rua, dos gritos aflitos das pessoas contaminadas por vírus aleatórios, das ruínas do mundo desabando sob o peso da entropia, do resfriamento progressivo dos planetas e dos corpos envenenados pelo tempo. nada mais me protege do caos iminente, do terror noturno e do absurdo dos meus sonhos. você deixou a morte entrar na minha vida.