Postagens

Mostrando postagens com o rótulo falsos poemas

Smartphoema

Imagem
Minha bateria está no fim Alguns aplicativos parecem mais lentos Nenhuma mensagem recente Muitos contatos desapareceram A memória está lotada com fotos das viagens e lembranças A conta bancária mostra apenas o saldo da aposentadoria Insta, Face e X foram desativados O Waze não indica novos caminhos O Clima mostra noite fria com tempo nublado em pleno dia A câmera está opaca, como se fosse catarata O monitor de saúde mostra o coração com problemas O calendário parou no ano passado O ícone da inteligência artificial está em chinês O Spotfy repete um bolero cubano da década de 50 O app de notícias só fala na catástrofe climática que já começou E as configurações mostram o tempo de uso: 76 anos. O incrível é que ainda funcione: consegui mandar um Feliz 2026 para muita gente! Lor  

Maioria silenciada

Imagem
  Se o que a gente pensa Não vende, não dá lucro, não dá voto, Não dá like, não viraliza, A gente descompensa.   Para entender melhor: https://sumauma.com/um-viva-para-a-maioria-silenciosa-do-clima/

Quarteto de hotel

Imagem
  No amor, quero Ser como você me vê Mesmo sem o ser Na paixão, quero O ser que criei em mim Ficção - não você No ódio quero Destruir o ser que fui Dentro de você No fim, não mais, oh! Amor, paixão nem ódio...  Só ser o ser só Sem você.

Constelações na lama

Imagem
Para Titina    Encaixo a folha seca nos ferros da minha bicicleta, a branca, do Natal de 1959, quando meu avô se dizia juscelinista e meu pai lacerdista, e pedalo zunindo como uma cigarra para o Parque Novo.   Atravesso a ponte sobre o ribeirão Mumbuca, que desce mansinho das matas ciliares, inocente de lixos, plásticos, nylons, enchentes e tragédias.   As marcas dos pneus na terra úmida formam arcos, espirais e elipses zodiacais, constelando o chão em galáxias verossímeis num universo que sinto infinito e em expansão.   Pedais, músculos e cérebro me obedecem sem dor, e confio nas manobras que faço com meu corpo, derrapando nas bordas de um buraco negro, que ameaça me devorar nas entranhas de um colégio interno.   As sombras multifolhas das árvores ao redor, sem as pragas daninhas dos aquecimentos globais, acrescentam nebulosas ao berçário de estrelas que o barro esmagado transforma em nuvens de carbono e fumaça...

PJ, o duro

Imagem
  Agora, Welinton Pereira Junior, o PJ, a juventude acabou, uns amigos no trampo, outros sumidos, a escola pública não existe mais, você descolou a grana pra financiar a moto e você trabalha muito, PJ, porque tem uma família sagrada pra sustentar, você é o chefe, PJ, o boss.   Agora, PJ, o sindicato acabou, o político prometeu e não cumpriu, a carteira assinada já era, o SUS foi desativado e você sufoca na fumaça dos carros, das queimadas e do calor do cacete, para entregar sua vida por 7,50 em cada última corrida possível.   Às vezes, você pensa em desistir. mas você é duro, você pega com Deus, PJ, você é fiel.   Agora, PJ, sua Jéssica perdeu o emprego, as crianças precisam dela: o menor, - não ia tirar, Deus me livre! tem problemas, sozinho dentro de si, autismos, os remédios, só na vaquinha, sua mãe, PJ, está com idade e nervos, Jéssica cuida também, seu pai, morreu sem pensão na imperícia, mas você é d...

Lor & Lor

Imagem
  L uíza de O liveira R odrigues (a verdadeira LOR) mostrou-me o desenho acima, que rabiscou com caneta esferográfica num papel durante uma reunião. Disse-lhe que também tenho este hábito e, ao contrário de estar distraído - como podem suspeitar -, ele me ajuda a prestar atenção nas outras pessoas e conter minha ansiedade para falar.  Perguntei à minha filha se poderia postar o seu intrigante cartum no meu blog. Ela desafiou: - Só se for com um texto seu, juntes. Prometi-lhe que tentaria um Hay Kay (5-7-5). Saiu este:   falar transforma a menina tristonha entravestida   Diversão & Arte, diversão é arte.   LO Carneiro R

Baby bombers

Imagem
(falso Hay Kay no estilo clássico japonês de 5-7-5 sílabas, que talvez interesse a amigues que nasceram logo depois da Segunda Guerra)   O fim do mundo começa em mim e na minha geração   Comemos terras devoramos florestas cuspimos lixos   Em três décadas abrimos quase todas portas infernais   Nossa herança será calor e fome guerras e secas   Não há desculpas para crianças mortas na queda do céu   Por isso sinto vergonha e o luto por ter falhado   Nada redime a idade e culpa por superviver.   Então vejo o araticum vivo que a neta plantou   Mísero broto que contradiz meus versos e nega o fim.  

Pesadelo

Imagem
  Homens estúpidos trespassaram suas armas no portão da frente, Agitando bandeiras nacionais e ódios seculares. Seus urros e atos covardes espalharam medo pelas paredes, Que pareciam frágeis demais para abafar as batidas do meu coração. Para não morrer novamente, Marielle estava na sala e implorava por ajuda com uma criança no colo, tentamos fugir pela janela lateral, mas não conseguimos destravar a ferrugem da escravidão. Também não podíamos ir pelos fundos, pois o fogo iniciado pelos homens se espalhara, consumindo a mata cerrada que resistira atlântica no quintal de minha infância, deixando vultos carbonizados de pessoas, aldeias e câmeras fotográficas. Procuramos ajuda pela internet, o celular estava descarregado. Gritamos por socorro, mas nossa voz não era ouvida pelos moradores de rua que formavam uma fila para votar num caixa eletrônico. Descobri que minha vida se esgotara, minhas mãos se tornaram idosas, meus joelhos fracos. Eu não poderia ajudar Marielle com a criança, e n...

Afinidades

Imagem
Você se lembra da primeira dúvida que nos afastou da religião? Perdemos com ela um bocado de amizades. Depois, não conseguíamos mais torcer por um time de futebol, e lá se foram as tardes de domingo cheias de copos vazios. Começamos a acreditar que um outro mundo é possível, mas a maioria da turma achou que estávamos falando de extraterrestres. Aí, nos metemos na política, juntamos meia dúzia de gente corajosa e pisamos nos calos daqueles que nos prenderam. Sobreviventes, aprendemos a ser cientistas e ficou mais difícil conviver com a astrologia, dietas naturais e medicina alternativa. Começamos a desconstruir nosso machismo e racismo, o que afastou o pessoal da pornografia, da meritocracia e de um certo tipo de humor. À medida que fomos esgotando as primaveras, o azeite, aquele chapéu e a música da Laurie Anderson nos distanciaram das novas gerações. Então, veio a guerra, a pandemia e a crise climática, que azedaram o vinho que ainda bebíamos com as penúltimas amizades. Hoje, finalmen...

Samba caução

Imagem
  Você me trocou por ele, não me conformo, e busco uma razão. Seria pela simples novidade? por falta de juízo, no seu estúpido coração? Seria por causa da viagem a Miami, que prometi, nunca cumpri e deixei você na mão? Talvez aquela conta conjunta, que esqueci de abrir, e você fazia tanta questão? Ou a certidão de casamento, que deixei de assinar, na mesa do escrivão? É verdade que prometi vida melhor, democracia em casa... mas nem tudo foi em vão! Nosso amor merece uma chance: ano que vem, volte, eu garanto, vai acabar sua decepção. Só ainda não entendo, com tantos por aí, você foi escolher justo o pior, o bandidão? Ah! Ele, não!

Crítica e construtiva

Imagem
  Maria Helena Carneiro Catunda disse-me que os versos de “ Um dia antes ”, que postei aqui há algumas semanas, não têm rima nem melodia. Pedi-lhe explicações sobre como poderia ter sido feito e ela se dispôs a tentar consertar o que eu escrevera. Caso ela conseguisse, combinamos que eu postaria sua versão. Depois de alguns dias, emocionado, recebi pelo correio uma carta escrita à mão, com sua versão para o poema. Transcrevo abaixo. “Querido Luiz Oswaldo, Aí vai o seu Poema. Fiz o que pude. Procurei manter o assunto que você expressou no título. Procurei também dar coerência entre as estrofes. Para estabelecer a harmonia (que é imprescindível na poesia e para a qual as rimas ajudaram), tive que mudar mais palavras do que desejava. No mais, penso que ficou bom. Sempre às ordens.” Antes um dia Que teria feito eu se soubesse antes um dia; e mais ninguém percebeu, que você nos deixaria? Deixado a torneira aberta, desligado o celular, faria todo o possível para seu plano falhar. ...

Um dia antes

Imagem
  O que teria eu feito se soubesse um dia antes que você nos deixaria? Largado a torneira vazando, desligado o celular, e escutado sua voz com atenção? Gritado em desespero, implorado, ou aprendido a rezar? Teria a pantera parido sua cria um dia antes do barulho da motosserra e da fumaça? Teria o operário parado as máquinas um dia antes do estrondo na barragem de minério? O que teriam feito as mães japonesas, um dia antes da morte ser lançada por aviões americanos? O que poderia ter feito a menina da periferia, um dia antes da polícia atirar nas suas tranças africanas? O que faremos um dia antes do cabo e o soldado fecharem a suprema corte? Um dia antes, ainda não sabemos que quase nada podemos fazer um dia antes. Lor 18 7 21

segredos

Imagem
  quase toda a família sorri, mas minhas avós e meu avô  olham para a câmera  de modo triste e desesperançado.  o que já sabiam,  sobre a vida,  que não tiveram coragem  para nos contar?  seria o mesmo que hoje sei,  e finjo não saber,  para não desanimar meus netos  de provarem que estou errado?  lor  novembro 2020

Cinco Hay kays para um amigo que se perdeu

Imagem
  Quem nos separa Não é o presidente, Mas gentética. O que aprendi Foi sentir alergia  À injustiça. Mesmo príncipe, Já não acreditava Em sangue azul. Mas tu querias As meritocracias, Mudar de raça. No meu futuro Encontro no presente  Você passado.

Devidas dúvidas

Imagem
  Todas as manhãs busco respostas  do porquê continuar vivo. No jardim, a jovem pitangueira,  que anda hiperativa em flores,  haverá de amadurecer em frutos?  Aquela plantinha delicada,  trazida no voo de um passarinho,  resiliente como uma feminista,  vencerá a barreira de cascalhos brancos?  A erva daninha, vicejando à sombra da palmeirinha,  sobreviverá a outro eventual jardineiro  que estaria interessado  apenas na eugenia das espécies importadas?  Os gerânios florindo despudoradamente,  como se não estivéssemos numa pandemia,  continuarão viçosos no inverno?  As lagartas em amarelo e preto,  esculpindo o manacá a pequenas mastigadas,  irão se encasular à espera da metamorfose  para eclodirem suas asas translúcidas em liberdade?  A diversidade de musgos, hepáticas, azaleias e orquídeas inodoras  permanecerá compartilhando democraticamente  o zum-zum da conversa das abelhas...

Assalto às mãos desarmadas

Imagem
  Suas mãos hábeis e delicadas trazem à vida a inerte e inválida bruta pedra, extraindo dela ocultos desejos futuros, esculpindo escadas, espadas de aço e silício, interfaces eletrônicas, esculturas monumentais e o cimento dos edifícios que repartem os céus em geometrias.   Suas mãos, outrora livres, foram capturadas e postas sob a força, numa história engendrada pelo acaso, feita de guerras sórdidas e ímpetos passados, que reservou para alguns a Terra e para outros o suor e o nada.   Suas mãos escravizadas moeram pedras à força da chibata, sob o terror dos capitães do mato, para receberem em troca o miserável mingau por elas mesmas preparado, ao fim de cada dia de infindável trabalho, para restarem calejadas e adormecidas num cansaço de dor e quase morte.   Suas mãos, depois de abolidos os grilhões, pareciam livres, mas perderam o direito às enxadas, facões, arados e alicates, e à matéria prima de todo seu en...

Meu messias

Imagem
Vinha eu carregando minha cruz, Cheio de culpas pelas coisas erradas que fiz  E por outras boas que deixei de fazer. Lastimava-me por haver sido machista e elitista,  por ter lutado pouco pela distribuição de renda, por não ter defendido o meio ambiente como deveria, por não ter percebido meu racismo estrutural  e por me comportar de forma colonizada pela cultura americana. Sentia-me mau, culpado e sem valor. Foi então que o Messias chegou e disse: “Eu vos mostrarei a verdade e a verdade vos libertará!” E a verdade revelada foi  que ele é a pior pessoa que alguém poderia imaginar. Ele simplesmente ressetou a escala de gente ruim. E assim, Jair me salvou, ele é o meu Messias! Nunca me senti tão bom! 

isolamento - dia 5

Imagem
qual será o gosto do teu beijo, depois de tanto tempo separados? como estará a tua mão, depois de lavada milhares de vezes? como será nosso abraço, depois deste longo medo de nos tocarmos? tomaremos juntos uma cerveja com a língua amarga de estatísticas? comemoraremos a primavera, se o inverno se antecipou e inverteu o calendário? sairemos às ruas, se elas se tornaram desertos atravessados por caravanas de desempregados? como lamentaremos nossos mortos se muitos deles é que sabiam os velhos cânticos e orações? de que maneira chamaremos um ao outro, de meu bem, meu irmão ou de sobreviventes? como enfrentaremos os dias seguintes, a natureza ferida, a sociedade perversa dos homens e o terror indelével da epidemia de casualidades? nada sei sobre tudo isso, mas podemos descobrir juntos, se o amor nos reencontrar.

O último outono

Imagem

Energia escura

Imagem
Preciso voltar a acreditar Que é possível resistir à insignificância, Que os dias não mais irão se escoar pelos ralos cotidianos, Que a vida vai além de momentos, Que o futuro não se extinguirá junto com o sistema solar. Preciso encontrar algo de bom para dizer Para a criança que me olha como se eu fosse o responsável Pela tempestade, pelos gritos e pelo cheiro de gordura. Tenho vergonha de confessar a ela que também estou perdido, Que aprendi caminhos fictícios e luminosos, Mas eram apenas fótons. Como transformar esta energia que escurece tudo? Como restaurar a deformação do espaço causada pelo tempo? Nada me resta, senão pedir a ela um abraço. Vem, dá cá, me salva.