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Mostrando postagens com o rótulo Ucrânia

Dar o primeiro tiro – legítima defesa antecipada ou excludente de ilicitude?

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  Algumas pessoas de esquerda admitem que o regime socialista na Rússia foi substituído pelo capitalismo (ia dizendo capitalismo corrupto, mas me perguntei se há algum capitalismo que não seja corruptor de tudo, da política aos recifes de coral), mas, apesar disso, elas acolhem as justificativas de Putin para iniciar a invasão da Ucrânia. Ao contrário, outras pessoas de esquerda temos considerado a invasão russa um crime internacional , pois ela não é moralmente defensável, ou seja, não é algo que visa o bem (ou pelo menos um mal menor) para a humanidade. Uma população que luta em defesa de seu território invadido está exercendo o direito moralmente justificado da legítima defesa. Ao contrário, iniciar uma guerra, seria moralmente correto? Se não o for, os argumentos econômicos, geopolíticos ou históricos para dar o primeiro tiro não transformam a invasão em algo justo. Entre os motivos que me parecem moralmente defensáveis para se iniciar uma guerra (ou revolução) estão as condiçõ...

Um mundo sem guerra é sonho ou projeto político?

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Sim, Francisco, você tem razão: ler Domenico Losurdo mexe profundamente com nossa cabeça. Andei lendo três dos vários livros deste filósofo e historiador italiano, que morreu em 2018, aos 76 anos, depois de se tornar um dos maiores estudiosos do pensamento do comunista Antônio Gramsci . No primeiro livro, “ Marxismo ocidental ”, aprendi com Losurdo que nós, marxistas ocidentais, temos adotado uma expectativa messiânica sobre a construção internacional do socialismo e desprezado as conquistas obtidas nas lutas anticoloniais, como as revoluções na Rússia, China, Vietnã, Cuba e outras no continente africano, que precisaram adaptar as teorias marxistas às condições históricas objetivas que encontraram para conseguirem sobreviver ao ataque destruidor das forças capitalistas e imperialistas. No livro “ Stalin ”, também surpreendente, o filósofo italiano realiza a proeza de reconstituir historicamente a figura do principal dirigente da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, contextuali...

Fake views

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A outra margem do conflito

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  É mesmo difícil escolher um dos lados na guerra iniciada pelos russos contra os ucranianos, se ficarmos pensando na ambiguidade dos personagens envolvidos, como sugere o texto bem humorado do jornalista Moisés Mendes. Mas o conflito se torna mais compreensível, quando percebemos aquilo que muitos dos protagonistas têm em comum: a desconstrução da democracia. Além do apoio aos russos, há mais pontos de união entre bolsonaristas, que se dizem de direita, e certos grupos, que se dizem de esquerda, do que a gente imagina. Vou personalizar estes dois supostos polos com os nomes de Hitler e Stalin. Hitler desconfia da democracia pois a considera corrompida por leis que ameaçam os princípios da tradição, família e propriedade. Stalin, por outro lado, acha a democracia dominada pela grana da burguesia, muito lenta e incapaz de acabar com as desigualdades econômicas e sociais. Hitler defende governos fortes, ditaduras militares e autocracias exercidas pela elite econômica em benefício da...

Pedir paz não é ingenuidade

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  Enquanto pessoas amigas se debatem entre apoiar ou condenar a invasão russa na Ucrânia, encontro consolo na opinião de pensadores que admiro, como Apolo Lisboa ,  Yuval Noah Harari , que dizem que a opção correta é a defesa da paz e a condenação incondicional da guerra, seja ela iniciada por russos ou norte-americanos. Apolo hoje defende o pacifismo, ainda que tenha pertencido à guerrilha urbana e lutado contra a ditadura militar. Concordamos que as armas podem até ganhar uma revolução, mas não são capazes de implantar o socialismo sem a mudança ideológica da maioria da sociedade. As pessoas precisam estar convencidas da necessidade de uma nova ordem social e econômica que substitua o capitalismo, para que ela seja permanente e sobreviva sem a necessidade de ditaduras populares. Por isso somos socialistas democráticos e pacifistas. Harari defende, em seu mais recente artigo , que a defesa da paz não é uma perspectiva ingênua, mas a única alternativa capaz de salvar a socieda...

A arte e a guerra

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  Nestes últimos dias, enquanto o governo nacional-capitalista russo massacra a Ucrânia e o mundo dá um passo atrás na sua delicada construção da paz verdadeira, aquela que só é possível sem desigualdades, torna-se ainda mais difícil respirar porque não conseguimos esquecer as tragédias das chuvas nem os mortos pela pandemia, apesar de estarmos supostamente em pleno Carnaval. Neste sentimento de retrocesso, restou-me algum consolo na grande arte, aquela que revela nossas humanidades. Pois foram Almodóvar, Gonzaguinha e Genin que vieram em meu socorro, nesta trincheira emocional em que enfrento Putin e seus asseclas de gravatas enfeitadas com ouro e rifles espalhados pelo mundo. O filme “ Mães paralelas ” parece-me feito por um homem que procura ver pelos olhos das mulheres as suas questões mais delicadas e profundas. Almodóvar faz um relato impecável e emocionante sobre duas mães no mundo contemporâneo e suas ligações com a história das mulheres na Espanha massacrada pelos fascist...

O mendigo e a Ucrânia

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  O ex-jardineiro tocou o interfone pela manhã, alguns minutos depois que eu soube da invasão da Ucrânia pela Rússia. Com a voz embargada pelo álcool, pediu-me dez reais para comprar um botijão de gás, solicitação cada vez mais frequente nos últimos meses em que a crise econômica brasileira foi agravada pela pandemia de COVID. José é um homem negro de meia idade, que aumentou a bebida na mesma medida em que viu diminuir sua oportunidade de trabalho, e que aparece no meu portão dia sim, dia não, com a mesma frase: - Oh, meu amigo... Atender a porta e encontrar o José é sempre um momento de conflito interior e tristeza para mim, pois não consigo evitar de me colocar na posição dele, encostado nas grades à espera da resposta, - chego a me ver pelos olhos dele - e fico imaginando como deve ser a vida de alguém na sua idade, que precisa andar pelas ruas de porta em porta pedindo esmolas. Repenso que, certamente, ele não escolheu sua situação social precária, tanto quanto eu não escolhi ...