Postagens

Mostrando postagens de fevereiro, 2026

O dia em que lutei contra Napoleão

Imagem
Eu não sabia que ainda viveria mais 70 anos, mas minha vida parecia plena naqueles últimos acordes da Abertura 1812 de Tchaikovsky, que meu pai me fizera ouvir enquanto descrevia vividamente as cenas que ele imaginava estarem sendo representadas nos diversos momentos daquela música. Com uma das mãos empunhando uma batuta imaginária, ele regia a orquestra que inundava de sons majestosos a biblioteca de nossa casa, emanados do disco de vinil vendido pela revista norte-americana Reader’s Digest. Papai alternava sua narrativa com breves assobios acompanhando a melodia. Veja, meu filho, no começo, o coral de vozes dos padres ortodoxos com suas longas barbas... eles cantam pedindo a deus que salve sua querida Rússia do avanço implacável do imperador francês, o Napoleão, aquele que traiu a Revolução Francesa... agora, ouça, surgem ao longe as cornetas do poderoso exército francês se aproximando, com alguns toques do hino da França, a Marselhesa. A melodia agora se apressa agitada como a not...

Mercadores do inferno

Imagem
  Outro dia comentei a importância do livro de Naomi Oreskes e Erik Conway “Mercadores da Dúvida” para o enfrentamento do aquecimento global que é causado pelo modo de produção capitalista e vem sendo agravado pelo fanatismo dos fundamentalistas do livre mercado que estão tomando de assalto governos e instituições democráticas para evitarem qualquer tipo de regulamentação de suas atividades econômicas predatórias. Além de mostrar cientificamente as causas do aquecimento global e as organizações de direita e extrema direita de negacionistas ativas, outra coisa que me encantou no livro foi a defesa que fazem e a compreensão profunda que a autora e o autor têm da ciência. Por isso, convido você a assistir o TED abaixo com a Naomi Oreskes (obrigado, Carol Vimieiro!), no qual ela soluciona maravilhosamente um paradoxo da ciência que vem me intrigando há anos, como tentei discutir numa carta para um aluno de mestrado com o título “ Entre Deus e o Orientador Ateu ”.   E qual é...

Quem garantiu a vitória de Lula em 2022?

Imagem
Segundo o economista e cientista de dados Seth Stephens-Davitowitz em seu livro Todo Mundo Mente , as preferências políticas nos Estados Unidos são influenciadas (em cerca de 5 a 7 pontos) pela popularidade do presidente em exercício durante o período em que o eleitor tem entre 14 e 24 anos (ou seja, em torno de 20 anos de idade). Tentei aplicar esta lógica ao período dos governos petistas (2002 a 2016), escolhendo o meio deste período, em torno de 2010, como o auge da popularidade de Lula, e comparei com os resultados da eleição de 2022. Utilizando as intenções de voto nas eleições (DataFolha) e a distribuição dos eleitores por faixa etária (TSE), construí a Tabela e o Gráfico abaixo. A faixa etária de 16-24 na eleição de 2010 (destaque em amarelo na Tabela) declarou 54% dos votos para Dilma e doze anos depois 60% dos votos para Lula em 2022 quando ela já estava na faixa etária de 25-34 anos. Ou seja, aquela geração deu 6 pontos percentuais a mais para Lula, portanto, concorda...

Escrever e rever

Imagem
Para Luíza e Thalma   A memória vai se alterando com a idade, sabemos. A minha foi sempre meio incompreensível: algumas vezes mantendo nítidos detalhes de alguma coisa insignificante, noutras apagando embaraçosa e completamente certos momentos importantes. Se não fosse por Thalma, meu passado seria um queijo suíço e dependo dela para me lembrar de muitas coisas como os computadores dependem dos discos rígidos, embora estes últimos também devam desaparecer em breve nas nuvens digitais. Claro que, aos 77 anos, meu cérebro vem piorando essa distribuição aleatória das memórias de devem ser mantidas vivas e, sem saber exatamente do que me lembrarei daqui a uns dias, já posso sentir nostalgia antecipada pelo presente porque ele poderá desaparecer logo adiante sem deixar vestígios. Na tentativa de evitar que a lembrança do que vivo neste momento escorra pelos meus dedos como grãos indefinidos na imensa areia do amanhã, reforço hábitos antigos de sublinhar o que leio, anotar nomes ...