Escrever e rever


Para Luíza e Thalma

 

A memória vai se alterando com a idade, sabemos. A minha foi sempre meio incompreensível: algumas vezes mantendo nítidos detalhes de alguma coisa insignificante, noutras apagando embaraçosa e completamente certos momentos importantes. Se não fosse por Thalma, meu passado seria um queijo suíço e dependo dela para me lembrar de muitas coisas como os computadores dependem dos discos rígidos, embora estes últimos também devam desaparecer em breve nas nuvens digitais.

Claro que, aos 77 anos, meu cérebro vem piorando essa distribuição aleatória das memórias de devem ser mantidas vivas e, sem saber exatamente do que me lembrarei daqui a uns dias, já posso sentir nostalgia antecipada pelo presente porque ele poderá desaparecer logo adiante sem deixar vestígios.

Na tentativa de evitar que a lembrança do que vivo neste momento escorra pelos meus dedos como grãos indefinidos na imensa areia do amanhã, reforço hábitos antigos de sublinhar o que leio, anotar nomes e pensamentos, desenhar cartuns e escrever textos como este.

Depois de escritos, alguns textos são postados; aqueles que imagino possam ser interessantes para certas pessoas queridas, para as quais os envio como se fossem flores colhidas no meu jardim, aliás, se não fosse a Thalma novamente, que cuida e remove os galhos caducos do jardim e dos meus textos, o tal jardim seria um mero canteiro retomado pela natureza ofendida com nossas humanas podas e geometrias e meus escritos uma mistura de joio e trigo.

Acontece que, depois de postados, os textos se tornam públicos no mundo, vasto mundo da internet. Diariamente, mais ou menos 150 pessoas visitam meu blog em diferentes temas entre os mais de mil assuntos já postados desde 2015, mas não tenho ideia de quem os lê e por quê.

Posso apenas inferir, em parte, o gosto das minhas leitoras (mulheres leem mais do que os homens) porque os posts mais visitados aparecem num relatório automático do blog e alguns estão sempre na lista, como a minha resposta ao Millôr sobre a inviabilidade do ser humano, dois outros sobre a filosofia do palavrão e o “Adeus às armas”.

Outros assuntos surgem e permanecem na lista por uns dias e depois desaparecem, como se uma pessoa os descobrisse por acaso, lesse e enviasse para outra e outra e, por fim, somem da lista.

Frequentemente, surge naquele relatório um post antigo do qual não me recordo, então abro o arquivo e o releio. Estes momentos têm sido de grata surpresa, porque acaba sendo um texto quase inédito, já que reconheço vagamente minhas palavras, e geralmente fico satisfeito com o conteúdo ou constato o quanto mudei de pensamento desde que escrevi aquele texto ou desenhei aquele cartum. Além disso, conforta-me o fato de que ainda não tive que me arrepender amargamente por ter escrito algo. 

Percebo também a linha do tempo político e a mudança cultural nestes últimos dez anos. Revejo minha perplexidade e desespero diante do avanço da extrema direita em todo o mundo; o sofrimento, as mortes e a solidão angustiante de tantas pessoas durante a pandemia de COVID; o agravamento evidente da catástrofe climática; e o resgate de um fio de esperança na retomada da democracia no governo Lula e na prisão dos golpistas brasileiros.

Percebo, especialmente nestes últimos doze meses, como fez diferença no meu humor uma frase dita pela Dra. Luíza de Oliveira Rodrigues, filha e médica querida, diante do meu desânimo com as dores do envelhecimento, durante a consulta anual às vésperas do Carnaval do ano passado, quando ela me estimulou a retomar prazeres e cuidados diários, dizendo: toda alegria é uma forma de resistência, papai.

Desde então, com mais exercícios e menos ansiedade pelo mundo que não posso controlar, recuperei nestes meses a energia que vinha se esvaindo em analgésicos e outras farmácias.

Reler, portanto, tem sido reencontrar a mim mesmo para uma boa e animadora conversa.

Então, aqui vai mais este texto e espero que ele apareça numa lista dos mais lidos daqui a alguns anos e que eu possa constatar na sua releitura que a vida prosseguiu por mais um tempo e, apesar de toda a entropia que nos cerca, alguma forma de alegria prevaleceu.

Lor 

PS: toquei a campainha com meus textos e a Ana, blogueira experiente e também filha querida, abriu a porta da internet para mim há 10 anos. Obrigado mais uma vez!
 

Comentários

  1. Seus textos são uma forma de alegria!
    Mantenha o hábito!
    É bom para você e melhor para nós, seus leitores.

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  2. Pois é! Escrever é sinal de saúde, lucidez no momento em que se escreve. Eu adotei o critério de não fazer mais rascunhos. KKKKK
    Em caso de dor, rir é o melhor remédio.

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  3. Lor, a memória se esvai devagar, mas pra isso temos textos como os seus para não deixar a gente se esquecer de momentos históricos deste nosso Brasil "varonil".

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