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Ano passado eu não morri...

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  Presentemente, posso me considerar um sujeito de sorte, porque apesar de não ser muito moço, ainda me sinto meio salvo e quase forte. Mas, definitivamente, Deus não é brasileiro, nem anda ao meu lado. Deus pai, residente ou naturalizado, teria deixado as escavadeiras prepararem as covas para o terrível plantio das milhares de mortes antecipadas pelo vírus, aquele mesmo que Ele, brasileiro fosse, poderia ter evitado chegar às nossas praias? Filho destas terras, teria permitido que seus irmãos ignorantes se contaminassem (pai, perdoai os que não sabem o que fazem, lembra?) nas raves promovidas por ídolos e populistas que tratam as recomendações científicas de distanciamento social com a mesma chuteira que usam em campo ou nas mulheres? Nascido, quem sabe no Espírito Santo, não teria iluminado a ignorância sombria do sociopata que nos desgoverna com espuma gosmenta de prazer no canto da boca, salivando seu cinismo doentio e estúpido, enquanto mente sobre vacinas e facilita negócios...

Belchior

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Certa manhã acordei velho.      Minha pele era feita de cicatrizes e arranhões.      O sol não iluminava, apenas se consumia.      E meu pequeno jardim fora tomado por insetos pardacentos.      A água era insípida, inodora e incolor, porque não havia sede.      Os passageiros que subiam pela frente do ônibus eram os mesmos que desembarcavam pela porta dos fundos.      O simples movimento de folhear um livro fazia ranger minhas articulações.      Minha única esperança era a de não sentir dor para morrer.      Eu tinha vinte anos e era latino-americano, mas o psiquiatra deu-me amitriptilina: um remédio para afastar os soldados de minha porta.