Postagens

Mostrando postagens com o rótulo esperança

Escrever e rever

Imagem
Para Luíza e Thalma   A memória vai se alterando com a idade, sabemos. A minha foi sempre meio incompreensível: algumas vezes mantendo nítidos detalhes de alguma coisa insignificante, noutras apagando embaraçosa e completamente certos momentos importantes. Se não fosse por Thalma, meu passado seria um queijo suíço e dependo dela para me lembrar de muitas coisas como os computadores dependem dos discos rígidos, embora estes últimos também devam desaparecer em breve nas nuvens digitais. Claro que, aos 77 anos, meu cérebro vem piorando essa distribuição aleatória das memórias que devem ser mantidas vivas e, sem saber exatamente do que me lembrarei daqui a uns dias, já posso sentir nostalgia antecipada pelo presente porque ele poderá desaparecer logo adiante sem deixar vestígios. Na tentativa de evitar que a lembrança do que vivo neste momento escorra pelos meus dedos como grãos indefinidos na imensa areia do amanhã, reforço hábitos antigos de sublinhar o que leio, anotar nomes...

Smartphoema

Imagem
Minha bateria está no fim Alguns aplicativos parecem mais lentos Nenhuma mensagem recente Muitos contatos desapareceram A memória está lotada com fotos das viagens e lembranças A conta bancária mostra apenas o saldo da aposentadoria Insta, Face e X foram desativados O Waze não indica novos caminhos O Clima mostra noite fria com tempo nublado em pleno dia A câmera está opaca, como se fosse catarata O monitor de saúde mostra o coração com problemas O calendário parou no ano passado O ícone da inteligência artificial está em chinês O Spotfy repete um bolero cubano da década de 50 O app de notícias só fala na catástrofe climática que já começou E as configurações mostram o tempo de uso: 76 anos. O incrível é que ainda funcione: consegui mandar um Feliz 2026 para muita gente! Lor  

Andropausa - atualizada em 2025

Imagem
Charge dedicada à minha médica  Dra. Luíza de Oliveira Rodrigues Depois de ultrapassar os 90 anos, minha avó Maria morava num quarto na casa de meus pais e sempre que alguém se aproximava ela se queixava de dores nas mãos, nas pernas e nas costas, surdez, vista ruim, esquecimento e solidão - porque todas as pessoas que conhecera já haviam morrido.  Ao final de alguns minutos de lamúrias, geralmente ela estava aos prantos, numa tristeza profunda, da qual parecia impossível ser resgatada. Assim, o impulso natural da maioria das pessoas da família era permanecer pouco tempo ao seu lado ou tentar convencer vovó do contrário, de que ela iria melhorar, de que estava tudo bem... inutilmente, é claro. Um dia, depois de ouvir com atenção os seus lamentos por algum tempo, disse-lhe com toda a sinceridade: - Assim, é melhor morrer, não é vovó? Ela olhou-me, parecendo considerar seriamente aquela alternativa e disse: - Mas... eu como bem, durmo bem, o intestino funciona bem... Alguns minu...

Esperança natalina

Imagem
 

Thalma em construção

Imagem
  Compartilhando o estúdio com Thalma, acompanho seu belo trabalho artístico, atualmente feito de pinturas, retratos e aquarelas. Geralmente gosto muito do resultado criativo de suas obras, mas sou especialmente fascinado pelos momentos iniciais de cada trabalho, quando Thalma coloca as primeiras cores e traços e a tinta ainda não cobriu totalmente a textura da tela sobre a qual ela trabalha. Há uma promessa de futuro na obra inacabada, que sempre me encanta. Por exemplo, no detalhe acima, de um retrato de uma menina que Thalma começou recentemente, o fragmento ampliado nos permite ver as dezenas de cores formando a expressão belíssima do olhar, um poema inacabado na tela, como a vida dessa criança. Ao entrar em nosso estúdio, neste sábado de um setembro angustiado em nosso país, seco pela prolongada estiagem e esfumaçado pela fuligem das queimadas, a força e a beleza de seu trabalho, Thalma, despertaram a esperança de que continuaremos construindo um futuro melhor para a don...

Na brecha da esperança

Imagem
Há 20 anos era possível alguém prever o que estamos vivendo hoje? Provavelmente não, e é justamente nesta imprevisibilidade do futuro que reside a esperança. Há algumas semanas fiz o desenho acima, tomado pela tristeza diante do crescimento de casos da variante ômicron na pandemia de COVID, assolado que estava pelo sentimento depressivo de que, como idoso, continuaria indefinidamente no distanciamento social, apesar das subsequentes doses de vacinas representadas nas marcas desesperançadas na parede da minha cela doméstica. Dias depois, Jorge Sette e eu conversávamos sobre o futuro do atendimento em saúde no Brasil. Ele é médico e especialista em gerenciamento de saúde e fundamentou com números impressionantes a sua opinião de que temos um futuro preocupante pela frente, no qual as instituições financeiras multinacionais continuarão a absorver os planos de saúde, agravando a verticalização no atendimento médico, aumentando a exploração dos médicos e pacientes, até se tornarem empresas ...

Quem virá para o Natal?

Imagem
 

Devidas dúvidas

Imagem
  Todas as manhãs busco respostas  do porquê continuar vivo. No jardim, a jovem pitangueira,  que anda hiperativa em flores,  haverá de amadurecer em frutos?  Aquela plantinha delicada,  trazida no voo de um passarinho,  resiliente como uma feminista,  vencerá a barreira de cascalhos brancos?  A erva daninha, vicejando à sombra da palmeirinha,  sobreviverá a outro eventual jardineiro  que estaria interessado  apenas na eugenia das espécies importadas?  Os gerânios florindo despudoradamente,  como se não estivéssemos numa pandemia,  continuarão viçosos no inverno?  As lagartas em amarelo e preto,  esculpindo o manacá a pequenas mastigadas,  irão se encasular à espera da metamorfose  para eclodirem suas asas translúcidas em liberdade?  A diversidade de musgos, hepáticas, azaleias e orquídeas inodoras  permanecerá compartilhando democraticamente  o zum-zum da conversa das abelhas...

Diário de isolamento 7 - O ouriço do mar

Imagem
Está difícil ficar longe da minha família, dos amigos, dos colegas de trabalho e das pessoas que atendo no hospital e no consultório, especialmente com a consciência de que não sabemos por quanto tempo ainda permaneceremos assim, em isolamento social para diminuirmos a velocidade da pandemia de coronavirus. Os vídeos compensam apenas em parte nossa necessidade de contato humano, do olhar do outro, pois na telinha estamos sempre mirando a imagem do interlocutor e não a câmera, o que impossibilita o fundamental olho no olho. Nossa espécie precisa sentir a presença física, real cheirosa e calorosa dos nossos semelhantes, senão enlouquecemos. Não somos ouriços do mar, aquele pequeno animal marinho que passa a maior parte de sua vida numa loca, sem se comunicar com seus vizinhos, e periodicamente lança seus óvulos e espermatozoides nas águas em função da luminosidade do ambiente. Há poucas semanas, Thalma e eu fomos à casa de praia de Romeu e Nina em Peracanga, próxima a Guarapari, com n...

Movido a esperança

Imagem

E se...

Imagem

O coletivo

Imagem

Nasce um novo país?

Imagem

Para Luíza e Jorge

Imagem

A esperança está sempre na linha do horizonte

Imagem