Quem garantiu a vitória de Lula em 2022?

Segundo o economista e cientista de dados Seth Stephens-Davitowitz em seu livro Todo Mundo Mente, as preferências políticas nos Estados Unidos são influenciadas (em cerca de 5 a 7 pontos) pela popularidade do presidente em exercício durante o período em que o eleitor tem entre 14 e 24 anos (ou seja, em torno de 20 anos de idade).

Tentei aplicar esta lógica ao período dos governos petistas (2002 a 2016), escolhendo o meio deste período, em torno de 2010, como o auge da popularidade de Lula, e comparei com os resultados da eleição de 2022.

Utilizando as intenções de voto nas eleições (DataFolha) e a distribuição dos eleitores por faixa etária (TSE), construí a Tabela e o Gráfico abaixo.

A faixa etária de 16-24 na eleição de 2010 (destaque em amarelo na Tabela) declarou 54% dos votos para Dilma e doze anos depois 60% dos votos para Lula em 2022 quando ela já estava na faixa etária de 25-34 anos.

Ou seja, aquela geração deu 6 pontos percentuais a mais para Lula, portanto, concordando com a teoria do cientista de dados Seth. As demais faixas etárias diminuíram ou permaneceram com a mesma intenção de voto na esquerda 12 anos depois.

Tabela – Percentual de intenção de voto na esquerda por faixa etária nas últimas seis eleições no Brasil (Fonte DataFolha)


16 a 24

25 a 34

35 a 44

45 a 59

60 ou +

2002 Lula

63

62

39

50

27

2006 Lula

60

63

61

61

61

2010 Dilma

54

57

59

58

53

2014 Dilma

54

50

51

49

45

2018 Haddad

50

44

44

46

44

2022 Lula

67

60

57

52

51



É interessante notar que a distribuição do eleitorado brasileiro por faixa etária mudou de forma relevante nas últimas duas décadas, refletindo o envelhecimento da população e a redução proporcional dos jovens (TSE). Por exemplo, o número de eleitores na faixa de 20 anos diminuiu de 20% em 2002 para 13% em 2022. Por isso, nesta faixa etária, apesar da intenção de voto em Lula ter sido a maior (67%) em 2022 (em destaque vermelho na Tabela 1), o número total de eleitores no conjunto dos votos foi o menor (faixa azul escuro no Gráfico abaixo).  

Portanto, juntando número de eleitores e intenção de voto, quem garantiu a vitória de Lula em 2022 foram duas faixas etárias: quem tinha em torno de 30 anos (faixa laranja) e quem tinha cerca de 50 anos (faixa azul claro no Gráfico abaixo).


Algumas reflexões

Os dados acima sugerem a importância da popularidade de Lula 12 anos antes para a geração da faixa laranja, mas o que teria influenciado a geração da faixa azul claro votar em Lula?

Algumas pistas podem ser encontradas aqui, uma excelente análise sobre as reivindicações e preocupações da juventude e o comportamento dos eleitores mais velhos no Brasil.

Em 2006 - Lula foi majoritário em todas as idades, com força especialmente entre jovens e idosos. (Wikipédia)

Em 2020 – O apoio a Dilma foi relativamente homogêneo, mas com menor vantagem entre idosos. (Wikipedia)

Em 2022 – Lula teve apoio entre os mais jovens (51%), mas perdeu na faixa acima de 60 anos (39%).

Nos anos 2000 o apoio era transversal, ou seja, Lula tinha apoio em praticamente todas as idades, refletindo o crescimento econômico, a expansão do emprego e os programas sociais.

Nos anos 2010, Dilma manteve apoio amplo, mas vantagem caiu entre idosos e polarização começou a crescer em todo o mundo (redes sociais?).

Nos anos 2020, ocorre uma clivagem etária clara, pois o eleitorado passa a se dividir: jovens se tornam mais pró-Lula e os mais velhos ficam mais conservadores, pró-direita, um padrão que aparece em várias democracias hoje.

Saber que mais da metade dos jovens (16-24 anos) apoiaram Lula em 2022 é animador, mas ainda não sabemos o que acontecerá com a juventude nascida na internet, aquela que desde pequena vem sendo dominada pela estrutura fascista das redes sociais.  

Em 2026, as pessoas nascidas em 2010, assim como as redes sociais, colocarão seu voto na urna pela primeira vez.

Como será a selfie daquele momento? 


Lor




 

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