Mercadores do inferno

 


Outro dia comentei a importância do livro de Naomi Oreskes e Erik Conway “Mercadores da Dúvida” para o enfrentamento do aquecimento global que é causado pelo modo de produção capitalista e vem sendo agravado pelo fanatismo dos fundamentalistas do livre mercado que estão tomando de assalto governos e instituições democráticas para evitarem qualquer tipo de regulamentação de suas atividades econômicas predatórias.

Além de mostrar cientificamente as causas do aquecimento global e as organizações de direita e extrema direita de negacionistas ativas, outra coisa que me encantou no livro foi a defesa que fazem e a compreensão profunda que a autora e o autor têm da ciência.

Por isso, convido você a assistir o TED abaixo com a Naomi Oreskes (obrigado, Carol Vimieiro!), no qual ela soluciona maravilhosamente um paradoxo da ciência que vem me intrigando há anos, como tentei discutir numa carta para um aluno de mestrado com o título “Entre Deus e o Orientador Ateu”.

 

E qual é o tal paradoxo da ciência?

Na ciência não podemos usar o argumento da autoridade, ou seja, não posso afirmar que algo é verdadeiro porque alguém disse que sim, por mais experiente e renomada que seja essa pessoa. Podemos apenas confiar nos fatos, nas medidas, nas evidências objetivas obtidas pelo método científico.

No entanto, o conhecimento científico atual é extremamente vasto e é impossível para um cientista de uma área compreender as evidências obtidas em outra área. Por exemplo, eu estudo e trabalho com uma doença genética chamada neurofibromatose, mas não tenho conhecimento da ciência da climatologia. Então, como posso saber se é verdadeiro o argumento da imensa maioria dos climatologistas que afirmam qestá havendo um aquecimento global causado pelo modo de produção capitalista?

Aceitar suas conclusões não seria recorrer ao argumento da autoridade? Não seria uma espécie de fé (crença) na palavra de outra pessoa?

Naomi mostra que não, pois não se trata da autoridade de uma pessoa, mas sim do consenso construído coletivamente pelo processo de revisão por pares. Ou seja, cada afirmativa científica considerada verdadeira é resultado do longo processo de coletar dados, analisar, submeter às revistas especializadas e à revisão crítica pelos pares e depois de publicada fazer parte das discussões entre os especialistas até que surja um consenso em torno daquele assunto.

Então, confiamos no consenso coletivo e não na autoridade de um cientista, por exemplo, o consenso atual dos cientistas climáticos é de que o aquecimento global existe, é causado pela produção industrial capitalista predatória e está provocando mudanças climáticas graves. Qualquer opinião contrária, neste momento, é negacionismo.

O negacionismo dos fundamentalistas do livre mercado que está nos levando a queimar no inferno da catástrofe climática.

Lor


PS1: Convido também você para ver os incríveis gráficos dinâmicos realizados pela The Guardian aqui, sobre quais países estão conseguindo crescer ao mesmo tempo que diminuem as emissões de gases estufa.

O texto do The Guardian inclusive me inspirou uma ilustração (abaixo) sobre a relação entre crescimento econômico e aquecimento global.

PS2 - Dra. Luíza Rodrigues chama a atenção para o que vem ocorrendo na Medicina Baseada em Evidências, onde a indústria farmacêutica inunda as publicações científicas com artigos financiados por ela o que acaba gerando um falso consenso sobre determinados medicamentos. Voltarei a esse tema em breve. 




Comentários

  1. Minha velha mãe, Luisa também, como a Rodrigues, dizia há 60 anos que o mundo acabaria um dia e não ia demorar. Segundo ela, a hecatombe não ocorreria a mando de deus ou do diabo, seria a mando do homem mesmo. E hoje fico pensando que não se trata apenas do aniquilamento de nossas riquezas naturais em função do capital, não e só o meio ambiente, a biodiversidade e a vida na terra que está se extinguindo. Até nossa pode ser substituída pela IA. Imaginem a velha italiana aqui!!!

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