O vírus da violência masculina


 


Algumas pessoas perguntaram se acho ou não que Carlos Bronca Neto e seus amigos merecem a condenação e a prisão pelos crimes que cometeram: planejar assassinato de adversários, tentativa de fraudar eleições e outros (ver aqui o conto que publiquei ontem).

Na ficção que escrevi, ao questionar a decisão do juiz eu disse que “devia ser condenado o patriarcado”, dando a entender que esta estrutura social pré-histórica (e pré-capitalista, senhor Engels) seria a causa da formação do caráter violento dos personagens e da opressão das mulheres (que são obrigadas a reproduzirem o patriarcado).

Propositalmente, com a intenção de chamar a atenção sobre o papel do patriarcado na formação de homens e mulheres, deixei em aberto se Carlos e seus cúmplices “também” deviam ser condenados ou não.

Comparo com a situação de um cão com hidrofobia (ia escrevendo homofobia), doença que sabemos ser causada por um vírus letal. É claro que precisamos prender o animal doente para proteger a sociedade, mas a solução da raiva no longo prazo será a vacina, fechando a metáfora, ou seja, o fim do patriarcado.

No entanto, mesmo que a solução necessária e pragmática no momento seja prender quem comete crimes, a estrutura do conto mostra que Carlos Bronca Neto não nasceu bandido (por isso usei a ilustração do carrinho de bebês). Assim, ao longo de sua formação social ele vai assumindo o comportamento violento patriarcal até ser preso. Então, em que momento o bebê, depois o menino e assim por diante, passa a ser culpado pelos crimes que comete?

Para maior entendimento desta questão, sugiro as análises de Robert Sapolsky (ver aqui) e Ramon Cosenza (ver aqui) sobre a suposta racionalidade dos atos humanos e os documentários abaixo "A máscara em que vivemos" (americano) e "O silêncio dos homens" (brasileiro e cheio de esperança!).

Volto a lembrar: não estou dizendo para deixarmos os cachorros loucos soltos por aí. Quero, na verdade, enfatizar a necessidade da vacina, repito, o fim do patriarcado.

Recordo minha própria educação patriarcal no texto “Adeus às armas” e percebo a trajetória em comum que compartilhei com os Bronca. Quais seriam as casualidades da vida que me levaram a não estar, hoje, na cadeia com eles? Essa é outra questão que me foi apresentada: uma vez que toda a sociedade é patriarcal e somos constituídos dentro da estrutura do patriarcado, Carlos Bronca Neto teria escolha, poderia ser diferente?

Esta pergunta nos remete à questão recorrente do livre arbítrio. Se não tivermos livre escolha, como aplicar as noções de responsabilidade e de culpa? Como funcionaria a Justiça? Acho que o livre arbítrio é uma ilusão que sustenta diversas culturas, mas isso não impede que eu considere o cão raivoso como responsável pela mordida, mas não o culpado pela sua doença. O responsável deve ser preso para proteger de imediato a sociedade, mas a causa, o vírus, deve ser enfrentada de outra forma.  

A outra forma é o desmonte progressivo e cotidiano do patriarcado, essa estrutura originada na nossa vida como caçadores coletores que hoje se tornou anacrônica (ver aqui), a qual torna os homens violentos e massacra as mulheres.

O patriarcado é uma estrutura poderosa que é reproduzida desde o nascimento de cada pessoa por homens E mulheres, como aprendi com bell hooks, e por isso precisamos nos amar, mulheres e homens, para juntes mudarmos a sociedade e acabarmos com o patriarcado, a causa da epidemia de violência masculina e de outros males.

 

Lor

 







 

Comentários

  1. Sempre boa a leitura de tuas palavras escritas. Seguimos 2026 no bom combate, com Amor.

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  2. Texto muito necessário pro nosso entendimento sobre a sociedade.

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