Boa notícia: o SUS se prepara para enfrentar a catástrofe climática




Apresentação


Trabalhei durante vários anos na Universidade Federal de Minas Gerais com a adaptação humana ao calor, então pretendo contribuir com este texto para o esforço do Sistema Único de Saúde (SUS), no presente Governo Lula, para o enfrentamento dos impactos das ondas de calor sobre a saúde pública brasileira.

O aquecimento global - causado pelo modo de produção baseado no uso de petróleo e carvão - está levando a desastres climáticos cada vez mais frequentes e intensos, afetando a saúde de milhões de pessoas, desmentindo a propaganda capitalista e seus mercadores da dúvida

A temperatura média do Brasil está mais alta do que nos anos passados. Os dias com ondas de calor já se tornaram mais frequentes e aumentaram de sete (entre 1960 e 1990) para 52 (entre 2001 e 2020) por ano, segundo o relatório Mudança do Clima no Brasil. Desde 2019, vários estudos realizados no Brasil por Ismael Silveira e colaboradores tem encontrado aumento da mortalidade por doenças cardiovasculares relacionadas ao calor em várias cidades brasileiras.

Em 2024, o Brasil registrou dez eventos climáticos extremos, sendo que três deles atingiram recordes históricos: as enchentes no Rio Grande do Sul, as queimadas e secas na Amazônia e as altas temperaturas na região central. Esses eventos ampliaram a exposição da população a riscos sanitários, agravados por desigualdades sociais e econômicas persistentes, como falta de saneamento, moradia precária e insegurança alimentar. 

Em 1998, na análise de um excesso de mortes ocorridas em hospitais do Rio de Janeiro, durante uma onda de calor, observamos que a rede de saúde brasileira estava completamente despreparada para atender vítimas de ondas de calor. Por exemplo, boa parte dos profissionais de saúde ainda confundem o aquecimento corporal causado pelo calor com febre causada por infecções e inflamações. Desde então, tenho tentado alertar a sociedade para esta questão e, apesar da provável subnotificação, temos observado o aumento da mortalidade pelo calor em diversas regiões do Brasil que entre 2000 e 2018 foi de 48 mil mortes

Além das tragédias e mortes, as ondas de calor e a irregularidade das chuvas favorecem a expansão do Aedes aegypti, transmissor de Dengue, Chikungunya e Zika. Em 2024, o Brasil bateu recordes de casos de dengue, com avanço para áreas antes pouco afetadas, como as regiões mais frias, no Sul. O mesmo acontece com a Zika e Febre Oropouche, que surgiram em municípios sem histórico dessas doenças. 

Estes acontecimentos mostram que as mudanças climáticas são também uma questão de saúde pública, por isso o SUS adotou medidas importantes para reduzir os danos à população brasileira. Neste sentido, o Governo Lula apresentou o Plano de Ação em Saúde de Belém, documento internacional liderado pelo Brasil, que propõe 60 ações para fortalecer sistemas de vigilância, políticas baseadas em evidências e inovação em saúde para proteger populações diante dos riscos climáticos. O plano pretende ser útil a cerca de 3,3 bilhões de pessoas em todo o mundo já afetadas pelos impactos da crise climática.

Apresento o texto a seguir com algumas informações necessárias para compreendermos os efeitos do calor sobre nossa saúde (Parte 1) e apoiarmos as medidas do SUS para o enfrentamento das mudanças climáticas (Parte 2). Esta espécie de cartilha se destina a profissionais da saúde, mas minha intenção é que ela seja compreensível para o maior número possível de brasileiras e brasileiros.

Quem desejar conhecer mais sobre a regulação da temperatura corporal humana, sugiro a leitura de um livro excelente, do qual tenho a honra de participar, publicado por cientistas brasileiros que estudam esta questão e que foi editado por Cândido Celso Coimbra, Samuel Penna Wanner, Christiano Antônio Machado-Moreira e Thales Nicolau Prímola-Gomes (ver aqui). 

Este texto está aberto para contribuições, críticas e sugestões, as quais peço que sejam enviadas para rodrigues.loc@gmail.com  e as agradeço antecipadamente.


Luiz Oswaldo Carneiro Rodrigues

Médico, Professor Aposentado da UFMG, 

Pesquisador do CNPq de 1984-2004 na área de 

Fisiologia do Exercício e Termorregulação Humana, 

Membro do Centro de Referência em Neurofibromatoses do HC-UFMG

Diretor da Associação Mineira de Apoio aos Portadores de Neurofibromatoses AMANF 

Membro da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia ABMMD

Contato para correspondência: rodrigues.loc@gmail.com 


Agradeço à Dra. Juliana Ferreira de Souza,

ao Dr. Apolo Heringer Lisboa, ao Professor Kelerson Mauro de Castro Pinto

pelas leituras atentas e excelentes sugestões.



Parte 1


Como cuidar da saúde durante as ondas de calor?

Para prevenir os riscos para a saúde causados por uma onda de calor e tratar suas ocorrências precisamos compreender que cada pessoa possui um perfil próprio que a torna mais ou menos vulnerável ao calor, o qual depende dos seguintes fatores:



Níveis de temperatura e umidade do ar durante a onda de calor

Temperatura interna do corpo

Aclimatação ao calor 

Hidratação

Condicionamento físico

Idade, peso e gênero 

Estado de saúde e medicamentos

Atividades físicas no calor 

Roupas e equipamentos 

Determinantes sociais de saúde

Desigualdades econômicas




Figura 1 - Mapa do Brasil mostrando temperaturas durante uma onda de calor (que aumentaram em até 7 graus centígrados a mais do que o esperado para a época do ano), em 2025 (Fonte: Climatempo)

O que é uma onda de calor?

Uma onda de calor significa aumentos na temperatura ar e na umidade relativa do ar durante pelo menos dois ou três dias, dependendo também da presença de ventos e da intensidade da radiação solar. Os serviços de climatologia avaliam estes indicadores e nos alertam quando há ondas de calor.

Em termos simples, podemos dizer que estamos numa onda de calor quando, durante 2 ou mais dias consecutivos, as temperaturas diárias (máxima, mínima ou média) são maiores do que as temperaturas históricas para uma determinada região e para aquela época do ano.

Embora os serviços de climatologia nos informem sobre as ondas de calor, há diversos indicadores de risco destas ondas para a saúde das pessoas, pois as populações diferem amplamente em suas condições geográficas, de aclimatação e socioeconômicas. 

O indicador mais confiável cientificamente para determinar o risco de um ambiente quente seria o Índice de Bulbo Úmido e Temperatura de Globo (IBUTG), mas ele é de difícil acesso para quem não trabalha com o assunto. Outros mais simples podem ser usados, como o chamado Índice de Calor, que usa as medidas da temperatura e da umidade relativa aplicadas numa tabela tridimensional. O que também não é algo simples para a maioria das pessoas.

Então, como alguém sem experiência em assuntos de climatologia poderia calcular de forma prática o potencial de risco de um determinado ambiente? 

Baseando-me num estudo que calculou as faixas de temperatura e umidade do ar que apresentam risco para a saúde humana, costumo usar uma regra simples a partir do aplicativo climático do celular. A regra é somar os valores numéricos da temperatura ambiente e da umidade relativa do ar. Se esta soma for maior que 100, há risco para a saúde. No exemplo abaixo, temos 26 + 68 = 94, portanto um ambiente de baixo risco.

Interface gráfica do usuário

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Por que a temperatura do ambiente é importante?

Se o ambiente estiver mais frio do que a temperatura da pele (que geralmente é de 32 graus centígrados), a pele transfere calor para o ambiente e o corpo vai esfriando. 

Num ambiente entre 20 e 30 graus centígrados, a pele consegue transferir o calor do metabolismo produzido no corpo para o ambiente e a temperatura interna do corpo fica estável, pois ela deve ser mantida entre 36 e 38 graus centígrados para o bom funcionamento dos órgãos, especialmente o cérebro. 

Se a temperatura do ambiente for maior do que a da pele, o ambiente transfere calor para a pele e aumenta a temperatura interna do corpo.

Então, qualquer ambiente com temperatura acima de 30 graus é potencialmente causador de aumento na temperatura corporal interna (Veja a Figura 2).


Diagrama

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Figura 2 – Troca de calor (setas vermelhas) entre a pele e o ambiente. No ambiente frio a pele perde calor para o ambiente, a circulação diminui para conservar o calor dentro do corpo e não há suor; no ambiente neutro a pele troca calor com o ambiente por radiação e por um pouco de evaporação do suor; no ambiente quente a pele ganha calor do ambiente e somente consegue perder calor por meio da evaporação do suor. 


E qual a importância da umidade? 

A espécie humana evoluiu em ambientes quentes e secos, como o cerrado e as savanas, onde há mais dificuldade em dissipar o calor do corpo por radiação, porque o ar geralmente está mais quente do que a pele durante o dia. Então, evoluímos com grande capacidade de produzir suor, que se evapora com facilidade em ambientes secos e, ao evaporar, retira calor da pele, o que resfria o sangue e mantém o interior do corpo na temperatura ideal. 

Quanto maior a temperatura do ambiente, maior nossa dependência da evaporação do suor para resfriarmos nosso corpo. O suor evapora facilmente se há baixa umidade no ar, mas à medida que aumenta a umidade no ambiente fica mais difícil evaporar o suor, que então escorre pela pele sem resfriar eficientemente o corpo. Então, quanto mais úmido o ambiente, mais difícil será manter a temperatura ideal para o funcionamento do nosso organismo (Ver Figura 3).


Diagrama

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Figura 3 – Troca de calor por evaporação do suor. No ambiente seco o suor se evapora facilmente e retira calor da pele; no ambiente neutro o suor se evapora menos, mas ainda retira calor; no ambiente úmido o suor não consegue se evaporar, escorre pela pele e não retira calor.

Quando um ambiente combina a temperatura maior que 30 graus com umidade maior que 70%, começa a haver risco de acúmulo de calor corporal. Retomando o índice prático sugerido acima, vejamos dois exemplos: um ambiente com temperatura de 34 (graus) com umidade de 80 (%) fornece a soma de 34 + 80 = 114, ou seja, um valor acima de 100, que indica um ambiente potencialmente de risco para a saúde; ao contrário, outro ambiente com a mesma temperatura de 34 graus, mas umidade de 30% daria uma soma de 34 + 30 = 64, ou seja, um valor abaixo de 100, portanto com baixo potencial de danos à saúde. 

Esta estimativa prática pode ser útil entre 30 e 45 graus centígrados de temperatura ambiente, porque acima de 45 graus a evaporação não mais consegue evitar o ganho de calor corporal, mesmo com umidade relativa muito baixa, como nos desertos. Estes ambientes extremos são de grande risco para a saúde humana, pois a temperatura interna pode ultrapassar os limites seguros.


O que acontece quando a temperatura do corpo aumenta?

Quando a temperatura interna passa de 38 graus centígrados, seja por ganho de calor do ambiente ou por retenção do calor produzido pelo próprio corpo, chamamos esta condição de hipertermia

A hipertermia é diferente da febre, pois na febre o corpo é que decide aumentar a sua temperatura interna em resposta a uma infecção ou inflamação. As causas e os tratamentos das duas condições são muito diferentes e os profissionais da saúde não devem confundir a hipertermia causada pelo calor do ambiente com a febre (ver Anexo 1 no final).

O aumento da temperatura interna também é comum em atletas durante o exercício e geralmente não produz sintomas e não deve ser confundida com a hipertermia causada por uma onda de calor, mesmo que atletas que realizam atividades intensas durante ondas de calor também possam sofrer hipertermia. 

Uma pessoa com hipertermia apresenta sinais e sintomas decorrentes da disfunção de diversos órgãos causada pelo aumento da temperatura, especialmente do cérebro. Os sintomas vão aumentando em gravidade desde:

Hipertermia moderada: temperatura interna menor que 40 graus centígrados, ansiedade, desconforto, cãibras (geralmente em vários músculos ao mesmo tempo), sede intensa, fraqueza, dor de cabeça, tontura, enjoo, desmaio com perda temporária da consciência.


Hipertermia grave: temperatura interna maior do que 40 graus centígrados, estado de choque, com pressão arterial baixa, grave disfunção cerebral, estado mental alterado, convulsões, perda da consciência e coma. 

A hipertermia moderada geralmente responde bem ao tratamento básico (remoção da pessoa do ambiente quente, resfriamento corporal eficiente, repouso e hidratação), mas a hipertermia grave precisa de atendimento de emergência e pode causar a morte em 1 em cada 3 pessoas que atingem o estado de choque, ou deixar sequelas graves nas sobreviventes. 

Quanto mais tempo a pessoa permanecer em hipertermia grave, maior a chance de morte ou sequelas e quem sobrevive torna-se mais vulnerável a novo episódio de hipertermia grave durante muitos meses depois. Portanto, as hipertermias moderada e grave são um problema de saúde pública pois ocorrerão cada vez mais à medida que aumentarem as ondas de calor.


E como tratar uma pessoa em estado de hipertermia? 


Os procedimentos básicos imediatos para tratamento de uma pessoa com suspeita de hipertermia moderada (temperatura interna menor que 40 graus centígrados) recomendadas pela medicina especializada em ambientes naturais, são: 

Remoção da pessoa do ambiente quente

Resfriamento natural e rápido com imersão na água fria ou molhando as roupas e promovendo ventilação

Medir a temperatura interna porque ela define se deve ou não ir para o hospital (ver abaixo comentário)

Hidratação oral 

Repouso

Provavelmente estas medidas são suficientes para tratamento da hipertermia moderada, mas se houver mais recursos disponíveis, além das medidas acima, recomenda-se: 

Remover a pessoa para ambiente com ar-condicionado (menor que 20 graus centígrados)


Resfriar o corpo o mais rápido que puder:

Imersão em água o mais fria possível (quanto mais rápido o resfriamento corporal, menor mortalidade e sequelas)

Se não puder ser feita a imersão, cobrir todo o corpo com compressas de gelo. Se não houver como fazer imersão ou colocar compressas de gelo, usar ventiladores sobre as roupas molhadas (menos eficiente)


Hidratar com líquidos isotônicos ou hipertônicos (para manter o volume sanguíneo e controlar as cãibras) e, se necessário, por via venosa (não há evidência de benefício em se usar infusão gelada)


Elevar as pernas e, se possível, colocar meias de compressão nas pernas para aumentar o retorno do sangue para o coração


Não usar aspirina, nem anti-inflamatórios ou outros antitérmicos!


Nota importante: como medir a temperatura interna? 

A medida mais prática da temperatura interna é a medida da temperatura retal. Alternativamente, pode-se usar a temperatura timpânica ou esofagiana. Em último caso, a temperatura axilar pode ser usada, mas sabendo-se que ela pode não refletir exatamente a temperatura interna. 

A medida da temperatura interna é um desafio que as equipes de saúde precisam enfrentar daqui em diante, pois há alguns anos, num estudo que fizemos em dois grandes Hospitais de Pronto Socorro em Belo Horizonte, nem mesmo a temperatura axilar era medida rotineiramente no atendimento inicial. O SUS precisa incluir esta norma em suas orientações para enfrentar as ondas de calor.


Na suspeita de hipertermia grave (temperatura interna maior que 40 graus centígrados e/ou outros sintomas graves), usar todos os recursos anteriores enquanto se transfere a pessoa para um hospital de emergências e além das medidas acima, acrescentar:

Suporte ventilatório (com oxigênio) 

Suporte cardíaco (com monitorização eletrocardiográfica para detectar arritmias e da pressão arterial)

Medida da temperatura retal (ou timpânica) (maior que 40 graus confirma a gravidade)

Monitorar o volume e a cor da urina para avaliar o estado de hidratação

No hospital deve receber cuidados intensivos porque podem desenvolver as seguintes complicações: 

Estado de choque com falência múltipla de órgãos

Encefalopatia (tremores, confusão mental e agressividade durante resfriamento rápido)

Insuficiência respiratória

Lesão hepática e renal agudas

Rabdomiólise (lesão muscular grave)

Coagulação intravascular disseminada

Isquemia intestinal com septicemia

Os detalhes do tratamento intensivo fogem ao objetivo deste texto, mas todas as medidas terapêuticas devem ser tomadas enquanto se continua o resfriamento do paciente. Até a temperatura interna (retal) atingir 38,3 a 38,8 graus centígrados, o resfriamento ativo deve ser mantido (ver detalhes aqui).

As equipes de emergência precisam criar condições técnicas (salas especiais e ambientes adaptados) que permitam o resfriamento por imersão em água gelada enquanto outros procedimentos são realizados. 

A equipe médica deve também fazer o diagnóstico diferencial com: hipoglicemia, epilepsia, doença do sistema nervoso central, hiponatremia, hipernatremia, edema cerebral de alta altitude, infecção grave, alteração endócrina grave e ingestão de drogas.


Como prevenir a hipertermia? 

Quem está mais vulnerável a sofrer hipertermia durante uma onda de calor?

Vejamos a seguir os fatores mais importantes que aumentam o risco de hipertermia. 

Falta de aclimatação

A aclimatação ao calor depende do tempo de exposição a ambientes quentes. 

Populações que migraram há milhares de anos para regiões mais quentes são formadas por pessoas que foram selecionadas geneticamente para suportarem mais o calor, apesar de haver poucos estudos científicos sobre esta questão. Pessoas que nasceram e viveram em ambientes quentes são mais adaptadas ao calor do que aquelas que moram em regiões mais frias ou temperadas. Pessoas que migram de regiões mais frias e temperadas para regiões mais quentes vão adquirindo mais tolerância ao calor com o passar do tempo. Finalmente, quem vive num ambiente frio ou temperado e vai para um ambiente mais quente adquire alguma tolerância temporária ao calor depois de duas a três semanas

Quanto mais aclimatada ao calor, menor o risco de uma pessoa sofrer hipertermia durante uma onda de calor. Estar aclimatada ao calor significa ser capaz de aumentar eficientemente a temperatura da pele (para transferir calor para o ambiente), produzir mais suor (para ser evaporado), tornar o suor mais diluído (para poupar o íon sódio), aumentar a capacidade cardiovascular (para poder oferecer mais volume de sangue à pele e ao restante do corpo ao mesmo tempo) e produzir algumas proteínas especiais que protegem os tecidos do corpo contra a desnaturação pelo calor.

Assim, cada pessoa possui um grau de aclimatação ao calor de acordo com sua genética e sua exposição habitual a ambientes quentes ao longo da vida. A aclimatação prévia é um dos fatores mais importantes para reduzir o risco de problemas de saúde durante uma onda de calor. Uma aclimatação parcial pode ser conseguida em poucas semanas com exercícios moderados e regulares em ambientes quentes ou com o uso de roupas quentes durante o exercício em ambientes frios ou temperados.

Para o planejamento do SUS é importante lembrar que quanto menos aclimatada ao calor for a população de uma determinada região do Brasil, maior será o risco para sua saúde durante uma onda de calor. Usando o exemplo do índice prático acima, a mesma temperatura de 34 graus com umidade de 80% (soma de 114) significará mais pessoas doentes no Rio Grande do Sul do que no Rio Grande do Norte.



Falta de condicionamento físico

Toda atividade física produz calor como resultado do consumo de energia pelos músculos e este calor precisa ser dissipado para o ambiente para que a temperatura interna do corpo permaneça estável entre 36 e 38 graus centígrados. 

Mesmo que o ambiente seja neutro ou frio, as atividades físicas intensas precisam acionar os mecanismos automáticos de resfriamento corporal: aumentar a circulação de sangue na pele e a produção de suor, assim como ativar o sistema cardiovascular. 

Portanto, o condicionamento físico apresenta um efeito fisiológico semelhante a uma aclimatação parcial ao calor, o que faz com que as pessoas bem condicionadas fisicamente também sejam mais aclimatadas ao calor. Neste sentido, manter um condicionamento físico adequado para a idade pode ser uma medida preventiva útil para evitar a hipertermia durante uma onda de calor.

No entanto, apenas a minoria mais rica da população brasileira pode dispor de tempo e recursos financeiros para realizar atividades físicas regulares capazes de produzir condicionamento físico suficiente para melhorar sua aclimatação ao calor. A grande maioria mais pobre é sedentária ou realiza atividades físicas apenas durante o trabalho, as quais geralmente são insuficientes para atingir o condicionamento físico necessário para a aclimatação ao calor.

É preciso lembrar que há programas governamentais de apoio à população em relação a isso, como as academias da saúde e da cidade. São programas que atendem gratuitamente muitas pessoas, uma resposta do SUS ao sedentarismo, pois as academias da cidade estão vinculadas aos centros de saúde. 

Desidratação 

Quanto maior o estado de desidratação de uma pessoa durante uma onda de calor, maior o risco de hipertermia porque a perda de água corporal reduz a circulação do sangue na pele e a produção de suor que são necessárias para dissipar o calor. A desidratação pode ocorrer por ingestão insuficiente de água, ou muito suor, ou diarreia e vômitos ou uso de alguns medicamentos (ver abaixo) ou diversas destas condições combinadas. 

Para se manter a população hidratada nas ondas de calor deve haver acesso livre e suficiente à água potável. As pessoas sadias devem respeitar a própria sede para a ingestão de água, mas pessoas sem autonomia para identificar a própria sede ou obter a água necessária (crianças, idosos, doentes) precisam do suporte externo de cuidadores para se manterem hidratadas. 

Novamente, as desigualdades socioeconômicas afetam a disponibilidade de água potável para a maioria da população e este fator precisa ser levado em conta pelo SUS na prevenção da hipertermia durante as ondas de calor.


Atividades físicas no calor 

Quanto mais intensa e prolongada uma atividade física, mais energia ela consome e mais calor metabólico ela produz e este calor precisa ser dissipado para o ambiente. Durante uma onda de calor, as atividades físicas no trabalho ou lazer exigem mais esforço do organismo para manter a temperatura interna ideal, o que representa um risco adicional para a saúde. 

As pessoas que precisam realizar atividades físicas ocupacionais (trabalhadoras e trabalhadores, atletas e militares) durante uma onda de calor precisam respeitar as tabelas de risco que indicam os limites permitidos para o tipo, a intensidade e a duração do esforço em cada temperatura e umidade do ambiente. Há legislação brasileira específica para isso, a qual definiu limites de segurança baseados no Índice de Bulbo Úmido Temperatura de Globo (IBUTG mencionado acima) para cada uma das atividades físicas no calor. 

Portanto, nestas situações ocupacionais é necessária a avaliação de profissional com conhecimento especializado (medicina do trabalho, medicina esportiva e fisiologia do exercício) capazes de quantificar o esforço realizado e utilizar o instrumento IBUTG. Não há como simplificar esta questão.

Apesar destas leis e tabelas nacionais e internacionais que regulam a intensidade da atividade permitida numa determinada temperatura e umidade, estudos mostram que as exigências dos patrões na agricultura e na construção civil frequentemente excedem os limites legais

Por isso, é fundamental que os sindicatos de trabalhadoras e trabalhadores se organizem para o cumprimento e a melhoria da legislação brasileira de proteção à saúde das pessoas em ambientes quentes, o que será cada vez mais importante nas ondas de calor esperadas com a mudança climática.


Idade e gênero 


À medida que envelhecemos, diminui naturalmente a função cardiovascular e renal, produzimos menos suor, dilatamos menos os vasos da pele no calor, percebemos menos a sede e a temperatura do ambiente e nosso condicionamento físico se reduz. Este conjunto de alterações faz com que uma pessoa idosa, mesmo saudável, tenha menor capacidade para resfriar seu corpo num ambiente quente. Por isso, idosas e idosos apresentam risco aumentado de hipertermia e precisam receber atenção especial durante as ondas de calor.

Além do envelhecimento natural, a idade traz mais doenças cardiovasculares, renais,  neurológicas, diabetes e câncer, que necessitam de medicamentos de uso crônico, que, por sua vez, podem alterar a capacidade de regular o calor corporal (ver Tabela 1).

As crianças e recém nascidos apresentam outra causa de risco: seu tamanho menor faz com que elas troquem calor com o ambiente mais facilmente, ou seja, esfriam mais facilmente num ambiente frio e se aquecem mais rapidamente num ambiente quente. Além disso, podem possuir menos autonomia para se proteger ou se hidratar, o que as torna mais vulneráveis às ondas de calor

Falando em tamanho corporal, as pessoas com excesso de peso apresentam maior gasto de energia para realizar qualquer atividade física e maior dificuldade para dissipar o calor interno. Assim, pessoas com sobrepeso e obesas podem se tornar mais vulneráveis às ondas de calor. 

Homens e mulheres saudáveis, do mesmo tamanho, idade, condicionamento físico e aclimatação apresentam respostas fisiológicas ao calor bastante próximas, mas as mulheres retém um pouco mais de calor já que elas produzem um pouco menos de suor do que os homens. 

Mais uma vez as desigualdades sociais e econômicas afetam profundamente o risco de hipertermia, pois o sobrepeso é mais comum entre as pessoas mais pobres em função de alimentação ultraprocessada mais barata. Além disso, idosos, crianças e mulheres mais pobres recebem menos atenção médica do que as pessoas mais ricas. Por fim, homens mais pobres são mais obesos e mais expostos ao trabalho braçal sob o sol e em condições insalubres.


Doenças e medicamentos

Qualquer doença que afete a capacidade do corpo para dissipar o calor metabólico para o ambiente pode aumentar o risco de hipertermia durante as ondas de calor. Portanto, quaisquer doenças que atrapalhem a circulação de sangue para a pele (cardiovasculares, cutâneas, neurológicas), ou que dificultem a produção de suor (desidratação, cutâneas, neurológicas, renais), podem aumentar o risco de uma pessoa durante uma onda de calor.

As principais doenças crônicas que aumentam o risco de hipertermia são as doenças cardiovasculares, o diabetes mellitus (tipos 1 e 2), doenças neurológicas (Parkinson e Alzheimer) e vários tipos de câncer. Estas doenças geralmente estão associadas com o envelhecimento que é, por si, um fator de risco. Além disso, estas doenças exigem o uso de diversos medicamentos, os quais também interferem na função cardíaca e renal, na circulação de sangue na pele e/ou na produção de suor. A Tabela 1 abaixo apresenta algumas substâncias, cujo uso aumenta o risco de hipertermia.

Tabela 1 – Principais substâncias que podem interferir na capacidade de regulação da temperatura corporal e mecanismos possíveis (muitos deles ainda precisam de mais estudos).

Substância

Como atrapalha a regulação da temperatura 

Álcool

Desidratação e imprudência 

Estimulantes adrenérgicos (anfetaminas, metilfenidato)

Retenção de calor por aumento do metabolismo e vasoconstrição

Anticolinérgicos

Bloqueio da produção de suor pela pele e redução do fluxo de sangue para a pele

Antidepressivos tricíclicos

Casos raros de hipertermia  

Anti-histamínicos 

Mecanismo não especificado

Antiparksonianos

Possível aumento da temperatura interna e disfunção da sudorese

Aspirina

Redução do fluxo de sangue para a pele e do suor  

Betabloqueadores

Redução do ajuste cardiovascular e do suor

Bloq.de canal de cálcio

Redução do ajuste cardiovascular

Clopidogrel

Redução do fluxo de sangue para a pele e do suor

Cocaína e outras drogas, como Ecstasy e NMDA

Retenção de calor por aumento do metabolismo e vasoconstrição, hiperatividade e imprudência

Diuréticos

Desidratação e redução do suor  

Hormônio tireoidiano

Aumento do metabolismo 

Laxantes

Desidratação e alteração da flora 

Insulina

Alteração da sensibilidade do hipotálamo à temperatura com vasoconstrição e aumento do calor metabólico 

Inibidores da renina e angiotensina 

Redução da sede, mas pouco estudados ainda 

Metformina 

Alteração da flora intestinal, diarreia, desidratação

Neurolépticos

Redução da resposta termorreguladora

Nicotina

Mecanismo não especificado 

Fenotiazinas

Mecanismo não especificado

Quimioterapias 

neuropatia periférica com redução do suor e fluxo de sange para a pele, diarreia, desidratação e desregulação do termostato central

Suplementos proteicos

Hiperosmolaridade e redução do suor



Roupas e equipamentos 

Qualquer roupa ou equipamento que dificulte a perda de calor do corpo para o ambiente, aumenta o risco de hipertermia durante uma onda de calor. O risco deve ser avaliado levando-se em conta a segurança (uniformes, capacetes, coletes, botas, luvas), a norma cultural (muito ou pouca roupa, tecidos leves ou pesados, hábitos regionais tradicionais ou estrangeiros), a atividade física a ser realizada e o índice de calor do ambiente. 

Em termos gerais, vestimentas impermeáveis ou encapsuladas são as que mais aumentam o risco de hipertermia, como na Tabela 2 abaixo:

Tabela 2 – Risco de hipertermia e tipo de vestimenta 

Nível de risco 

Tipo de vestimenta

Baixo 

Roupas leves, respiráveis

Moderado

Uniformes grossos, equipamentos de proteção individual

Alto

Vestimentas impermeáveis

Muito alto

Trajes encapsulados, protetores químicos 


Quando se trata de atividades ocupacionais, novamente precisamos do especialista para avaliar o risco de hipertermia, pois ele precisa ajustar a intensidade da atividade física com a temperatura medida no IBUTG de acordo com a vestimenta e equipamento. 



Determinantes sociais da saúde e desigualdades econômicas 


Vimos acima alguns impactos das desigualdades sociais e econômicas sobre o risco de hipertermia durante ondas de calor. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a determinação social da saúde como as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem, incluindo fatores como acesso à moradia, educação, emprego, renda, ambiente físico, contexto social e acesso a serviços de saúde, que influenciam diretamente os riscos, os resultados e a qualidade de vida em saúde. Essas condições são moldadas pela distribuição de dinheiro, poder e recursos em níveis global, nacional e local, e são impactadas por políticas públicas, estruturas institucionais e valores sociais.

Pode-se dizer que quanto mais pobre for uma população, maior será a mortalidade e sequelas por hipertermia durante as ondas de calor em qualquer região do planeta.  Este risco maior de decorre de:

Piores condições gerais de saúde e doenças endêmicas e crônicas

Necessidade de trabalho braçal, inclusive sob o sol

Falta de acesso à água potável e alimentação adequada

Moradias construídas em áreas insalubres formando ilhas de calor

Casas baixas, sem ventilação e sem ar-condicionado 

Baixo nível educacional e tabus ineficientes sobre calor e frio 

Grupos raciais, étnicos, indígenas, migrantes e populações marginalizadas com menor acesso aos serviços de saúde em geral

Falta de acesso a tratamento médico imediato 

Aglomeração populacional 

Muitas crianças e idosos sem cuidados adequados

Diante disso, reduzir o impacto da catástrofe climática sobre a população brasileira significa muito mais do que tomar medidas médicas e sanitárias individuais ou localizadas. É preciso uma transformação radical da sociedade brasileira para acabarmos com as desigualdades sociais.


Como a sociedade pode se prevenir contra as ondas de calor?

No longo prazo, para protegermos a população brasileira (e mundial) da catástrofe climática as soluções são: abandonarmos o uso de combustíveis fósseis, acabarmos com o desmatamento, reduzirmos drasticamente o consumo industrial de carne, diminuirmos o comércio globalizado e impedirmos a poluição ambiental. Ou seja, mudarmos o modo capitalista de produção.

No médio prazo, temos que reduzir as desigualdades sociais e econômicas, ajustar nossas condições de moradia e hábitos de vida e nos prepararmos para as ondas de calor (como o SUS está se propondo a fazer).

Por uma questão lógica, precisamos saber quais são as práticas dos diversos povos indígenas na prevenção e tratamento das pessoas com hipertermia, porque suas culturas possuem sabedoria suficiente para permitir que eles estejam sobrevivendo há milhares de anos nas mais diversas condições climáticas, desde ambientes quentes e úmidos (florestas tropicais) até ambientes quentes e secos (savanas e desertos). 

Infelizmente, encontrei poucos estudos científicos sobre ondas de calor entre povos originários, mas diversas culturas indígenas brasileiras, além da preservação das florestas, apresentam hábitos de vida que são lições de sobrevivência para todo o mundo, se desejarmos sobreviver à catástrofe climática.  

Os povos indígenas enfrentam o calor de maneiras muito diferentes, dependendo da ecologia, cultura e condições locais. Muitas comunidades têm adaptações de longa data que reduzem o estresse térmico, embora as mudanças climáticas estejam empurrando as temperaturas para além dos limites históricos, criando novos riscos. 

 





















Adaptações tradicionais ao calor

Habitação - Em seus projetos de habitação e assentamento muitos grupos indígenas desenvolveram residências que naturalmente reduzem a exposição ao calor, com estruturas abertas e ventiladas, que permitem a circulação de ar, telhados de palha com alto isolamento e resfriamento por evaporação, casas elevadas para evitar o calor do solo e aumentar o fluxo de ar e assentamentos localizados próximos a rios, florestas ou terrenos mais elevados, que moderam a temperatura. Esses projetos frequentemente têm desempenho melhor do que edifícios modernos de concreto em calor extremo. 

Práticas de vestuário e corpo – povos que vivem em ambientes quentes desenvolveram o uso de roupas confeccionadas com fibras naturais leves e respiráveis (algodão, tecido de casca, fibras vegetais), roupas mínimas adaptadas à umidade e exposição solar, pintura corporal com argila ou pigmentos de origem vegetal que refletem a luz solar ou reduzem picadas de insetos e banhos regulares ou imersão em rios para refrescamento

Padrões de atividade diária – Outra adaptação importante é programar o trabalho para horários mais frescos (início da manhã, fim da tarde, noite), com períodos de descanso ao meio-dia e cronogramas flexíveis atrelados a indicadores ambientais em vez de relógios.

Estratégias de alimentação e hidratação – a experiência dos povos tradicionais indica que devemos usar dietas ricas em alimentos que contêm água (frutas, tubérculos), com acesso frequente a fontes naturais de água e o uso de infusões de ervas e bebidas tradicionais que apoiam a hidratação e o equilíbrio de eletrólitos.

Sistemas de conhecimento e consciência ambiental - os povos indígenas frequentemente possuem conhecimento local detalhado que ajuda a antecipar e gerenciar o calor, por meio da observação do comportamento animal, padrões de vento, nuvens e respostas das plantas, além de histórias orais que descrevem secas passadas e eventos de calor extremo, permitindo a tomada de decisão baseada na comunidade para ajustar atividades em condições extremas.

Todo esse conhecimento pode atuar como um sistema de alerta precoce, mas apesar dessas adaptações, muitas comunidades indígenas estão cada vez mais vulneráveis porque a mudança climática supera a experiência histórica, a intensidade térmica e a duração conhecidas pelos antepassados. Agora, elas vão além do que as adaptações tradicionais dos povos originários evoluíram para suportar, por exemplo, com temperaturas noturnas que permanecem altas, impedindo a recuperação fisiológica do sono.

Além disso, o desmatamento reduz a sombra, evapotranspiração e resfriamento local e o acesso restrito a rios e florestas (pelo agronegócio) limita as práticas tradicionais de resfriamento. 

Infelizmente, as comunidades indígenas estão sofrendo marginalização social e política, com acesso limitado à saúde durante doenças relacionadas ao calor, com infraestrutura inadequada (água limpa, centros de resfriamento) e pobreza e a sedentarização forçada que aumentam o risco na exposição ao calor.

As respostas das comunidades indígenas são um exemplo para toda a população brasileira, pois elas estão revitalizando técnicas tradicionais de construção, reflorestando territórios para restaurar a regulação climática local, combinando conhecimento tradicional com previsões meteorológicas e defendendo os direitos à terra como estratégia de saúde pública e adaptação climática.

Em resumo, as mudanças climáticas rápidas causadas pela destruição ambiental e as desigualdades sociais do capitalismo estão desafiando as culturas antigas que funcionaram satisfatoriamente por séculos.


Conclusão

Os conhecimentos acima são necessários para que a população e os profissionais de saúde do SUS sejam capazes de promover adequadamente as medidas recentemente propostas pelo Governo Lula para o enfrentamento das ondas de calor, as quais serão mais frequentes com a crise climática em curso.

Avalie o seu risco de hipertermia

O quadro abaixo apresenta um breve questionário sobre as principais condições que podem afetar seu risco de hipertermia durante uma onda de calor.

Condição

Sim

Mais de 60 anos ou menos de 10 anos


Gênero feminino (dobrar pontuação se for gestante ou na menopausa)


Obesidade (IMC maior que 30)


Reside em região fria ou temperada


Sedentarismo 


Casa sem aparelho de ar-condicionado


Possui doença cardiovascular, neurológica, renal, diabetes ou câncer 


Usa algum medicamento ou droga na Tabela 1 acima 


Trabalha em ambiente quente e úmido ou sob o sol 


Já passou mal no calor (desmaio, náusea, confusão mental, “febre”, desidratação, pressão baixa)


Total



Em termos práticos, quanto maior a pontuação, maior o risco de uma pessoa apresentar hipertermia durante uma onda de calor, portanto, ela deve receber mais cuidados. 


Parte 2 


Medidas propostas pelo SUS 

Diante do avanço da crise climática, o SUS está adaptando sua estrutura e revendo sua capacidade de resposta à crise climática, por meio de novas políticas e ações estratégicas. O Plano de Ação em Saúde apresentado em Belém é o primeiro, em âmbito internacional, dedicado exclusivamente à adaptação climática no setor de saúde.

“As populações mais vulneráveis são as que mais sofrem com as mudanças climáticas. Para protegê-las, precisamos ampliar o acesso a tecnologias, vacinas e medicamentos. A inovação e a capacidade produtiva regional são fundamentais para garantir esse acesso”, afirmou o atual Ministro da Saúde do governo Lula.

Diretrizes da Saúde para adaptação climática

O Ministério da Saúde apresentou cinco eixos estratégicos que orientarão a política nacional de saúde climática:

  • Integração entre vigilância de saúde e dados climáticos, permitindo respostas mais ágeis e eficientes;

  • Modernização da infraestrutura do SUS, com padrões de construção capazes de resistir a eventos extremos;

  • Formação e qualificação profissional, incorporando saúde climática desde a graduação dos profissionais de saúde até a educação permanente;

  • Inovação e produção tecnológica, ampliando autonomia em vacinas, medicamentos e insumos estratégicos;

  • Fomento à pesquisa na Amazônia, com foco na biodiversidade e fortalecimento das instituições científicas locais.

Algumas das medidas práticas são:

  • Equidade e justiça climática 

    • A adaptação do SUS deve reduzir desigualdades em saúde e priorizar as populações mais expostas aos impactos climáticos

  • Governança e participação social 

    • As políticas do SUS precisam ser transparentes e construídas com participação efetiva da sociedade civil, sobretudo dos grupos mais vulneráveis e vulnerabilizados.

  • Monitoramento e vigilância 

    • Reforçar sistemas de monitoramento do SUS que integrem dados de clima e saúde, com alertas rápidos e foco nas populações mais vulneráveis.

  • Políticas e Estratégias Baseadas em Evidências 

    • Ampliar a capacidade de estados e municípios para implementar ações baseadas em evidências, com participação de comunidades e foco na justiça climática.

  • Inovação e saúde digital 

    • Investir em tecnologias e soluções digitais que deixem o SUS mais resiliente, garantindo produção e abastecimento mesmo diante de eventos extremos.

  • Cuidados com a vulnerabilidade de povos tradicionais 

    • Povos originários e comunidades tradicionais estão entre os mais afetados pela crise climática, apesar de serem os mais ativos na proteção dos ecossistemas. O relatório Clima e Saúde na Amazônia Legal aponta que 78,4% da população na Amazônia observou que foi impactada diretamente pelas mudanças climáticas. 

  • Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Poluentes Atmosféricos

    • A iniciativa avalia a qualidade do ar, identificando áreas e períodos de maior risco e orienta medidas de proteção para a população e para os serviços de saúde.

  • Cuidados com a saúde mental 

    • Os impactos psicológicos de desastres climáticos, como perda de moradia, deslocamento forçado, luto, insegurança, têm aumentado a demanda por apoio em saúde mental

Anexo 1 - Diferenças entre febre e hipertermia pelo calor

No aumento do calor corporal por causa do ambiente quente ou de exercício intenso e prolongado, nosso corpo QUER jogar calor para fora e baixar a temperatura, mas NÃO CONSEGUE. 

Ao contrário, na febre, o corpo QUER conservar calor para aumentar a temperatura interna e assim combater a infecção que o está atingindo, possivelmente atrapalhando o crescimento de algumas bactérias.

Então, na febre, o organismo vai fazer ao contrário do que faz no ambiente quente: vai retirar o sangue da pele, para evitar a perda de calor para o ambiente, e por isso ficamos pálidos. Além disso, enquanto a febre estiver subindo, o corpo não vai suar. Se estas duas tentativas não forem suficientes para aumentar a temperatura em 1 ou 2 graus, o indivíduo começa a tremer para produzir calor por meio de contrações musculares involuntárias.

Esta é a primeira fase, na qual a febre está subindo (ver figura acima). Nesta fase as pessoas sentem frio, calafrios e outras manifestações de desconforto, fadiga e desânimo. Esta fase pode durar alguns minutos ou mesmo horas, dependendo da doença que está causando a febre.

Assim que o acúmulo de calor atinge a temperatura corporal que a evolução humana selecionou como sendo a mais adequada para aquela infecção, a palidez melhora, o tremor desaparece e a pessoa se sente mais confortável, apesar de estar com a temperatura interna acima de 38 graus centígrados. Esta é a fase estável de febre (ver figura acima), e pode durar várias horas.

No momento em que o organismo entende que a causa da febre diminuiu (a produção de certas proteínas pelas bactérias ou pelas células que combatem a infecção), começa então a última fase da febre, na qual o corpo tenta eliminar o excesso de calor que acumulou nas fases anteriores. Neste momento começa a vermelhidão da pele, a produção de suor e a sensação de calor que faz com que as pessoas retirem as cobertas e as roupas quentes (ver figura acima).

Tratamentos?

Dependendo do aumento da temperatura corporal causado por ambiente quente e exercício, ele precisa ser combatido com medidas urgentes como interromper a atividade física e retirar a pessoa do calor, dar banhos de água fria e acomodá-la em ambiente com ar condicionado. Algumas vezes estas medidas podem ser de emergência, pois a insolação (ou hipertermia) pode ser fatal ou deixar graves sequelas (ver acima).

Outras formas raras de aumento da temperatura corporal, chamadas hipertermias malignas, que ocorrem por sensibilidade a determinados medicamentos, especialmente anestésicos, devem ser tratadas intensivamente pois podem ser fatais.

Por outro lado, estou convencido cientificamente de que não há necessidade de tratarmos a febre comum, causada por infecções bacterianas e virais, porque ela segue seu curso natural das três fases descritas acima, mesmo nas crianças que apresentaram algum episódio de convulsão febril. A febre em si não causa qualquer dano, pois ela geralmente é autolimitada a menos de 40 graus, ou seja, abaixo dos limites para causar problema cerebral.

Uma exceção que justifica o tratamento da febre alta seria para aquelas pessoas com insuficiência cardíaca grave, pois o aumento do metabolismo causado pelos tremores musculares poderia ser o bastante para descompensar a função cardíaca quando ela já está muito limitada.

Além disso, a primeira fase da febre (ver figura acima) costuma durar menos tempo do que o tempo necessário para um antitérmico por via oral fazer seu efeito (a não ser os injetáveis). Também não faz sentido tratar a febre na sua fase dois, em que ela está estável, já atingiu seu limite natural e a pessoa já está mais confortável. Menos necessário ainda seria o tratamento na terceira fase da febre, na qual ela está espontaneamente desaparecendo.

Parece-me que muitas vezes damos os medicamentos antitérmicos apenas para aliviar os sintomas de desconforto e fadiga causados pela febre. No entanto, estes sintomas são restritos apenas à fase inicial da febre e fazem parte das defesas do organismo para ficarmos mais quietos e protegidos num momento em que nosso corpo está empenhado no combate à infecção.


Comentários

  1. Lor, boa noite. Parabéns por suas pesquisas. Apenas gostaria que pensasse em ampliar sua definição no texto de apresentação qdo diz -
    *O aquecimento global - causado pelo modo de produção baseado no uso de petróleo e carvão -* Eu considero que esse enfoque vindo inicialmente de cientistas dos EEUU e Europa *limita* muito a base diagnóstica da caracterização dos fenômenos climáticos. E o faz sem visão macro, histórica e ecossistêmica incluindo a divisão internacional do trabalho. Assim coloco a *centralidade concorrente* das questões próprias da biosfera citando aqui os impactos geológicos sobre a crosta terrestre pelas atividades da mineração, das indústrias e dos agronegócios - conjunto dos *hidronegócios* exportadores de commodities primárias, mais o desmatamento descobrindo o solo e acabando com a biodiversidade, substituindo-os pelas monoculturas irrigadas por águas subterrâneas que gera a *seca subterrânea* e o consequentente impacto negativo nas condições de realização do *Ciclo Hidrológico* na Biosfera terrestre. A desorganização do Ciclo Hidrológico é algo da maior complexidade ambiental, social, econômica e política. O que por si só demonstra o simplismo da abordagem *anticientífica* ditada pelos condicionamentos políticos e econômicos dessa outra visão de mundo neocolonial que busca soluções *em separado* de questões macro, histórica e ecossistêmicas.
    Abraço
    Apolo Heringer Lisboa

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  2. Caro amigo Apolo
    Concordo com sua ampliação dos mecanismos causadores da catástrofe climática. Não aprofundei no texto para evitar que ficasse muito extenso.
    Abraço grato pela sua leitura.
    Lor

    ResponderExcluir

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