Nem Trump, nem Maduro: que tal a democracia de verdade?


Qualquer forma do uso da força para impor ideias ou comportamentos é incompatível com a democracia, ou seja, com a igualdade de direitos, com a fraternidade entre todos os povos e com a liberdade política, religiosa e de costumes.

E a democracia por meio do diálogo e cooperação pacífica é a única saída que temos para conter o aquecimento global e sobreviver à catástrofe climática que já está ocorrendo.

No entanto, enquanto os termômetros continuam subindo, a maioria da população está separada entre si pelo ódio político e impedida de dialogar pela manipulação da informação pelas corporações poderosas e pelos algoritmos perversos das redes sociais.

Na impossibilidade de diálogo, aumenta a dominação exercida pelo 1% por meio da força econômica ou militar, que vem acelerando desde que a crise do capitalismo (em 2008) abalou as frágeis estruturas da socialdemocracia e nos lançou na escalada de guerras entre diversos países, no radicalismo digital e político e na nova era do tecnofeudalismo.

Para nos salvarmos, há urgência em reconstruir a democracia por meio do entendimento e respeito mútuo entre as pessoas que compartilham o bem comum e abandonarmos a glorificação do confronto, da radicalização, a ideologia da luta.

Passei boa parte da minha vida acreditando no ideal de luta pelas boas causas e justificando, se preciso, o uso da força. Tenho aprendido com bell hooks que o uso da força como método para alcançar objetivos é parte fundamental do patriarcado, essa estrutura social antiquíssima e opressora à qual todas as pessoas, de todos os gêneros, estamos submetidas. 

O termo lutar significa usar a força disponível (dinheiro, armas, redes sociais etc.) para vencer o outro e não para convencer o outro.

No entanto, se não houver convencimento amplo da sociedade, sem a conquista lenta e progressiva do pensamento da maioria, as ideias derrotadas - pela força ou dinheiro - continuam vivas à espera de novas oportunidades para ressurgirem das sombras, como o nazismo, por exemplo, que sobreviveu à derrota militar na Segunda Guerra Mundial.

Para construir um mundo melhor sem violência, sem patriarcado e sem desigualdades, necessitamos de atitudes opostas à força, que são o diálogo e a cooperação entre todas as pessoas para a construção do bem comum.

Essa busca pelo bem comum, a democracia, só pode ocorrer por meio do diálogo franco, ou seja, entre as pessoas que compartilham o mesmo problema, mas não têm conflito de interesses, ou seja, elas não lucram individualmente com suas ideias. Por exemplo, é possível o diálogo franco entre as pessoas atingidas pelas barragens das mineradoras que romperam, mas não é possível o diálogo franco entre essas pessoas e os donos das mineradoras. Ou pode ocorrer o diálogo franco entre eleitores de um município, mas não entre esses eleitores com o prefeito corrupto que quer se reeleger. Com as mineradoras e com o prefeito corrupto cabe a pressão por meios pacíficos e a aplicação da lei, como faz o MST, por exemplo (* ver abaixo).

Esta postura pacifista questiona inclusive a famosa luta de classes como motor da evolução da sociedade, pois minha impressão é de que cada novo modo de produção na história humana se implantou lentamente, à medida que as pessoas eram convencidas a aderirem a ele. A própria estrutura capitalista surgiu aos poucos, formando duas novas classes, a burguesia e os trabalhadores assalariados, que substituíram progressivamente os senhores feudais e os servos. Ou seja, o capitalismo não surgiu por causa da luta de classes entre a burguesia e a aristocracia, mas o novo modo de produção capitalista - que evoluiu tecnológica e historicamente - é que foi dominando pouco a pouco a economia e a cultura e, como consequência, surgiram as contradições entre a burguesia e a aristocracia, assim como entre os capitalistas e trabalhadores. A evolução do capitalismo, como na genética, se deu a partir de eventos aleatórios que ocorreram sobre uma base histórica, o feudalismo, e o novo modo de produção (o ovo) aconteceu simultaneamente com a contradição entre as classes (a galinha).

Originadas na concepção de que a luta de classes é que transforma o mundo, duas tentativas de derrubar pela força o capitalismo, Rússia e China, - apesar de ganhos sociais, tecnológicos e econômicos enormes em relação aos regimes anteriores, - resultaram em estados autoritários, pois a maneira com a qual se chega ao poder (nesse caso, a violência revolucionária) é a maneira com a qual depois se pode governar. Apesar de tanta luta, de milhões de mortes, o capitalismo continuou vivo e ditatorial nestes estados: ainda mais corrupto, militarizado e autoritário na Rússia e mais disciplinado e totalitário na China.

É minha utopia substituir a postura de lutar pela disposição de cooperar, de dialogar, de convencer e construir consensos entre as pessoas - que compartilham o bem comum - para haver uma sociedade melhor, com igualdade social e econômica entre todas as pessoas, sem fronteiras, livre e não patriarcal, ou seja, verdadeiramente pacífica.

Não a troca de ditadores, Trump, Maduro, Putin ou Xi, mas a democracia é nossa única saída para reduzir a catástrofe climática.

Lor


(*) O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) é um movimento social brasileiro que luta pela reforma agrária e pelos direitos dos trabalhadores rurais. Sua atuação é baseada em princípios de ação direta não violenta, como ocupações de terras consideradas improdutivas, acampamentos, marchas e protestos pacíficos, sempre dentro do marco legal e constitucional que prevê a função social da terra.

O MST não propõe o uso da força violenta como metodologia, mas sim a organização coletiva e a pressão política para alcançar seus objetivos. No entanto, como movimento de massa que ocupa terras, pode haver situações de conflito com proprietários ou autoridades, geralmente envolvendo resistência civil, mas a direção do movimento defende a não violência.

O agronegócio critica o movimento e acusa-o de gerar conflitos, mas o MST reafirma publicamente seu compromisso com a luta pacífica e a transformação social por meio da mobilização popular e do diálogo, quando possível.


 

Comentários

  1. Eduardo Galeano disse “a utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.


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