PLutocracia
Um deputado bolsonarista catarinense diz que os pobres são
pobres porque tomaram decisões erradas em suas vidas, então na hora de votar
eles tomam decisões erradas também, assim, somente os ricos deveriam votar.
Meu primeiro impulso foi concordar que a maioria da população,
que são os mais pobres, anda mesmo fazendo escolhas erradas votando em
milionários como Trump e similares, mas percebi que a intenção do deputado é voltarmos
à época do império do Brasil, quando somente os homens brancos e senhores de
escravos podiam votar, uma situação que há mais de 100 anos a gente vem tentando
mudar e substituir pelo voto universal, aquele que reconhece a igualdade de
direitos entre todas as pessoas, independente do seu poder econômico, classe
social, sexo, gênero, raça, lugar onde nasceu, religião, signo ou time
preferido.
Mas, nobre deputado, quem seria considerado rico o bastante
para votar? Haveria algum critério de riqueza para alguém se tornar eleitor,
por exemplo, no mínimo ser um senador e possuir uma mansão de 6 milhões na
beira do lago de Brasília comprada com dinheiro vivo?
Ou o sarrafo seria mais alto, por exemplo, possuir pelo
menos um banco e ter tanto dinheiro que daria de presente mais de 60 milhões de
dólares para um amigo fazer um filme de ficção sobre a vida do pai dele?
Ou a coisa iria para além das fronteiras nacionais e o pretenso
eleitor precisaria lucrar 2 bilhões de dólares no seu primeiro ano de mandato
como presidente de uma das Américas mexendo com a economia mundial (começa
guerra, para guerra, recomeça guerra, para guerra...) para ele e seus amigos
lucrarem com informações privilegiadas?
Nessa escalada para saber quem é o mais rico, é possível que
os trilionários não aceitassem que os bilionários fossem suficientemente ricos
para votar, pois esses pobretões atrapalhariam os seus interesses de 12
dígitos. Ou seja, será que o cara mais rico do mundo aceitaria o segundo mais
rico como legítimo eleitor?
Para contornar esse problema de meritocracia financeira, vamos
supor que seria definido um limite arbitrário de riqueza, por exemplo, para ser
considerado eleitor o sujeito precisaria possuir, no mínimo, uma rede de jornais
ou televisão. Aí dava para formarem um clube seleto de meia dúzia de magnatas
da comunicação, que sabem manter os pobres votando de acordo com seus
interesses pois conseguem transformar líderes populares em bandidos corruptos
com a rapidez de um carro passando por um desses lava-jatos.
Mas será que os novos ricos sabem votar tão bem quanto as
famílias tradicionais que estão no poder desde os tempos da escravidão? Sabemos
que uma família de sobrenome alemão carrega consigo uma cultura civilizatória
muito diferente do capital social de um sobrenome português, árabe, africano ou
asiático.
Para evitar alpinistas eleitorais, talvez se exija que o eleitor
seja herdeiro de fortunas acumuladas pela sua família há pelo menos algumas gerações,
porque o pedigree familiar deve garantir que o indivíduo, mesmo rico, não
pertença a alguma raça inferior que, por decisões erradas na hora de escolher a
sua cor da pele, tenha se tornado escravizada em tempos remotos.
Outro problema difícil de resolver na proposta do deputado
seriam os limites geográficos para os tais eleitores ricos. Se a eleição for
municipal, os eleitores seriam aqueles mais ricos locais, ou deveríamos aceitar
os ricos estrangeiros, que escolheram melhor o lugar onde nasceram e são donos
de multinacionais instaladas no município?
Se a definição do simples eleitor baseada na fortuna já está
complicada, imagina os critérios para qualificar o nível de riqueza necessário
para alguém se tornar candidato! Talvez, no final da competição entre riquezas,
teríamos apenas o homem mais rico do mundo como o único eleitor dele mesmo.
Sim, deputado... ficou complexo para entender? Ah, o senhor melhorou sua ideia... melhor nem ter eleição. Compreendo.
Lor

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