Carlos Bronca, o neto

 


Inspirado em bell hooks

 

Quando a parteira avisou que era um menino, a sala enfumaçada pelos cigarros comemorou com gritos de “é saco roxo!” e os amigos deram palmadas nas costas do pai, que distribuiu mais uma rodada de cachaça e uma caixa de foguetes. O tio Nico brindou ainda bem que é macho, achei que meu irmão ia dar outra fraquejada! Na ressaca do dia seguinte o pai viu o filho na penumbra do quarto, acordou o menino com um beliscão na bochecha e foi ao cartório registrar, escreve aí, Carlos Bronca, como o pai, e acrescenta Neto!

Na semana seguinte, Carlos Bronca, o pai, implicou com a manta rosa que cobria o menino, herança da irmã mais velha, isso é cor de mulherzinha, tira isso, mulher! A mãe resmungou que estava muito frio, mas o pai arrancou a manta dizendo que sentir frio é bom, vai treinando para ser homem sem frescura.

Na igreja, o padre derramou a água benta na cabeça da criança dizendo eu te batizo em nome de Deus Pai todo poderoso, a quem suplico que em nome de Jesus, seu filho, perdoe o pecado original de Carlos Bronca Neto, amém. Carlos Bronca, o pai, chamou o padrinho e amigos e mandou a mulher fazer a macarronada que ele dizia ser receita da sua bisavó italiana, mesmo que todos fingissem não saber que seu pai, o primeiro Carlos Bronca, era filho de um fazendeiro com uma indígena guarani que morrera depois do parto. No final da noite, bêbado, Carlos Bronca, o pai, arrancou o filho do peito da mãe, deixou a criança chorando num quarto ao lado e disse chega de resguardo, tá na hora de você cumprir seu dever de mulher.

Depois, maiorzinho, Carlos queria brincar com a irmã e com os brinquedos dela, mas o pai arrancava de suas mãos as bonecas, panelinhas e bichinhos de pano, enquanto mandava o menino parar de chorar, senão ia apanhar. O menino corria para perto da mãe que nada fazia porque o pai ameaçava: dá corda pra ele para você ver o que te acontece!

Com uns cinco anos Carlos desmentiu o pai numa coisa qualquer e tomou um tapa na boca tão violento que o derrubou ao chão, onde ficou tremendo aterrorizado. A mãe se aproximou e disse meu filho, tem que respeitar a autoridade do seu pai. O menino custou a dormir, a raiva borbulhava no peito e só sossegou quando pegou uma boneca da irmã e a cortou com tesoura em mil pedaços. De manhã, a irmã reclamou com a mãe que disse alguma coisa você fez para provocar seu irmão.

Já na escola, Carlos entregou para a professora seu primeiro dever de casa, feito com todo capricho, e ao voltar para seu lugar ouviu dos garotos mais velhos: seu viadinho, fica fazendo para casa cheio de desenhinho só para ferrar com a gente que não fez nada! Vamos te pegar lá fora! Apavorado, o menino tentou fugir em vão dos colegas maiores, que o cobriram de socos e pontapés. Em casa, com a roupa rasgada e o lábio inchado, tomou um tapa na cabeça e ouviu o pai dizer vai ter que aprender a brigar, se apanhar na rua, apanha em casa de novo.

Enquanto crescia, Carlos foi enturmando com a galera do fundo da sala, não prestava atenção na aula, era mandado para a diretoria por não respeitar a professora e debochava da irmã porque estudar é coisa de mulherzinha. Quando não passou de ano, comemorou com outros colegas repetentes com um cigarro na boca tô nem aí, quero que essa escola vá se fuder! Pegou a cartucheira calibre 32, que ganhara de aniversário do tio Nico, e foi matar passarinho na beira da lagoa e nadar pelado com a turma. Na volta, tomou uma surra de cinto de couro nas pernas enquanto o pai dizia fui lá na escola e tive que usar minha autoridade de vereador para você passar, seu porra, se me der aborrecimento de novo, boto você pra trabalhar na prefeitura! O garoto, com as pernas lanhadas, os dentes trincados, sem uma lágrima, jurou para si que nunca mais leria um livro na vida.

Nessa época, Carlos conheceu uma vizinha que se tornara amiga de sua irmã e de repente ele queria ficar perto dela, sem vontade de ir embora para jogar bola com a turma, o corpo da menina parecia ocupar todo o quarto, o mundo, o universo, mas ela o tratava como o irmãozinho da amiga, uma criança. Um colega do futebol de rua percebeu e disse mulher é tudo sacana, quer dar, mas se faz de gostosa, tem que mostrar pra ela, tem que mandar ver. Então Carlos ficou à espreita no corredor dos fundos e abraçou a menina quando ela passou, mas ela se desvencilhou e saiu correndo e ele gritou sua puta!

Um dia, tio Nico falou para Carlos Bronca, o pai, que o sobrinho estava na hora de conhecer mulher, o pai deu uma risadinha, colocou umas notas no bolso do irmão e o tio levou Carlos, o sobrinho, para uma casa onde havia uns sofás velhos, umas mulheres fumando e bebendo com uns homens, umas músicas sertanejas tocando. Tio Nico chamou uma das mulheres, cochichou algo, ela pegou o rapazote pela mão e o conduziu para um dos quartos. Sentada na cama, ela desabotoou a calça dele, viu que o menino estava assustado, falou: deixa disso... enquanto o massageava com certa rispidez, depois puxou o jovem sobre ela e segundos depois o garoto estremeceu enquanto ejaculava. Ela usou um pedaço de papel áspero para limpar o pênis e a cama e se vestiu. Ele voltou para a sala onde tio Nico colocou um copo de cerveja na sua mão, agora, você é um homem.

O passeio com tio Nico resultou num pus ardido que o jovem suportou por vários dias, gemendo de dor enquanto urinava, até que seu pai o levou ao médico da cidade, que prescreveu um antibiótico e depois se gabou que na minha época eu tinha uma gonorreia a cada três meses! Carlos Bronca, o neto, se juntou às gargalhadas do pai e do médico e se sentiu fazendo parte daquele mundo, dos homens.

Um pouco antes de se alistar no exército, Carlos Bronca, o neto, começou a namorar Rita numa festinha da campanha eleitoral para reeleição do pai vereador. No cinema, no portão da casa dela, em qualquer lugar que fosse possível, Carlos tentava passar a mão aqui e ali, mas ela resistia, deixava um ou outro beijo, mas o resto, só depois de casar. Ele ficava desesperado, com as bolas doendo, ouvira dizer que tesão de homem que não alivia, sobe para a cabeça, enlouquece. Se masturbava várias vezes ao dia, voltou à casa das mulheres no sofá e reclamou com o Hélio, o amigo mais velho do caso da vizinha no corredor, que orientou tem que forçar, tem que insistir até ela dar... se ela der, não presta pra casar, cai fora, mas se ela não der, vale a pena namorar sério. Quando Carlos viajou para o alistamento, já tinha largado a Rita e disse para ela se deu para mim, dá para qualquer um.

Na rodoviária, antes de tomar o ônibus para se apresentar no quartel, enquanto urinava, Carlos se percebeu olhando de relance para o pênis do rapaz negro ao seu lado e quando ele saiu do cubículo esbarrou em Carlos, opa, desculpa, desculpa o caralho, seu viado, gritava Carlos Bronca, o neto, enquanto dava socos e pontapés no rapaz. Outros homens tentaram segurar Carlos que continuava a espancar o moço ensanguentado, um guarda municipal chamado reconheceu Carlos como o filho do Bronca, o vereador mais votado na última eleição, e o guarda levou o negro para a delegacia como suspeito de pederastia.

No exército, o sargento Otávio Rank cismou de imediato com Carlos Bronca, o neto, a quem passou a chamar de soldado Broncha e qualquer coisa e nada eram motivos suficientes para o sargento Rank dar punições, ficar sem café da manhã, permanecer de sentinela por três dias, marchar em torno do pátio por várias horas, fazer 200 abdominais. Apesar disso, Carlos Bronca, o Broncha, sentia um misto de raiva e admiração pelo sargento Rank, que gritava toda manhã seus merdas, aqui só fica homem! Viado e mulherzinha pede para sair! E o soldado Broncha aguentou tudo, desde lavar latrina a passar o uniforme do sargento, até o último dia de serviço, quando, envergonhado por não conter as lágrimas, abraçou longamente o sargento Rank, agradecendo por tudo que aprendera com ele e então revelou que queria continuar a carreira militar.

Apesar de suas dificuldades com português e matemática, Carlos Bronca, o neto, logo foi promovido a cabo, a sargento e depois a tenente, pois havia se destacado no treinamento antiguerrilha, onde manifestara um comportamento agressivo e violento, elogiado como combativo e destemido no seu boletim, além de ódio extremo por aqueles indivíduos que seus superiores o ensinaram a reconhecer como comunistas, gente sem noção de pátria, que não respeita a família e nem a propriedade, temos que exterminar estes vermes, repetia em casa para o pai orgulhoso e sua família nos dias de folga, tem que matar uns trinta mil, só no Brasil!

Engajado na careira militar, o tenente Bronca percebeu que a regra fundamental no batalhão era quem pode, pode, que não pode, se fode. Então, resolveu poder o mais rápido possível e se juntou a um grupo de tenentes que queriam acelerar sua promoção e obter soldos maiores. Acabou liderando o grupo que panejava soltar bombas nos quarteis para pressionar os superiores, mas foram descobertos e ele foi preso e seria expulso do exército, mas Carlos Bronca, o pai, pediu ajuda a um deputado federal ligado ao general presidente em Brasília e Carlos Bronca, o neto, foi reformado como capitão. De volta à sua cidade, sem emprego, resolveu seguir o pai na carreira política.

Carlos Bronca, o neto, logo substituiu Carlos Bronca, o pai, herdando sua popularidade entre os carroceiros que não queriam cumprir as leis contra maus tratos a animais e entre bicheiros, garimpeiros, madeireiros e policiais aposentados que prestavam serviços de segurança para os comerciantes. Sua base eleitoral, temida pela violência contra os adversários, foi ganhando força e Carlos Bronca, o neto, foi reeleito vereador algumas vezes. Nos mandatos, fez de tudo para impedir qualquer controle social sobre as atividades de sua família e de sua base eleitoral, além de odiar quem falasse em creches, direitos das mulheres, educação sexual e vacinas. Mantinha uma equipe de ajudantes que recebiam salários e verbas da prefeitura e repassavam uma parte do dinheiro para a família Bronca. Assim, Carlos Bronca, o neto, foi se tornando rico e resolveu ser prefeito.

O resultado das urnas surpreendeu até mesmo Carlos Bronca, o pai, pois jamais imaginou que seu filho pudesse ser apoiado por tanta gente. Carlos Bronca, o neto, foi eleito e sua primeira medida foi suspender qualquer tipo de fiscalização sobre os carroceiros. Depois, foi acabando com a vigilância sobre desmatamentos, processos sobre violências cometidas pela guarda municipal e investigações sobre atividades criminosas das milícias na cidade. Mesmo com a bagunça que se tornara a prefeitura, a cada dia mais e mais gente aderia à maneira de agir de Carlos Bronca, o neto, usando a força para resolver problemas e mantendo o terror sobre os adversários. Ele teria sido reeleito se não fosse a gripe aviária que tomou conta das granjas, matando pessoas e aves e destruindo a economia da cidade, tudo por causa da falta de fiscalização sanitária, que Carlos suprimira por decreto no começo do seu mandato.

Percebendo que iria perder a reeleição, Carlos juntou uns aliados e resolveram fraudar as urnas, invadindo o cartório eleitoral e alterando documentos, além de armarem uma emboscada para assassinar o adversário. Deu ruim, pois a polícia federal desmontou o esquema e o grupo foi levado a julgamento. Apesar das ameaças violentas e promessas de vingança dos aliados contra o juiz e sua família, Carlos Bronca, o neto, e sua turma foram condenados a muitos anos de prisão.

Data vênia, senhor juiz, penso que devia ser condenado o patriarcado.

 

Lor

 

(*) Agradeço a leitura e sugestões da Thalma.

(**) Este conto dialoga com o documentário abaixo, A máscara em que vivemos" (2015)



 


Comentários

  1. Um sincero gosto amargo, e como coisas "pequenas" tornam-se grandes. Se analisarmos, o Neto não nasceu sendo isso o que era, mas pelos abusos do pai, tornou-se. Teria ele livre agência para escolher mudança? Talvez. Apesar de ser um texto, o quão cotidiano ele realmente é? Sempre cirúrgico, Lor.

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