Fui conhecer um pouco da obra daquele cidadão norte-americano que se diz brasileiro e filósofo, porque não quero ser um idiota, uma das palavras agressivas que o tal escritor usa frequentemente, inclusive no título de um de seus livros. O que vi nos seus textos e vídeos foram críticas à esquerda, à globalização, à liberdade sexual e a outros comportamentos modernos, que o autor denuncia como parte de uma conspiração marxista e comunista orquestrada pela elite global financeira e intelectual. Não é a primeira vez na história que este tipo de fantasia paranoide serve de propaganda populista, como durante o avanço nazista na Segunda Guerra Mundial, e este argumento absurdo já foi várias vezes desmistificado. O próprio escritor confessa não ter nenhuma proposta para ao futuro, nenhum modelo de sociedade, mas que gostaria de retomar os valores de duzentos anos atrás (ver entrevista com Pedro Bial em maio de 2019). É fácil sermos levados a concordar com ele de que há di...
Carlos Starling Dizem que o Rio acorda sempre bonito. No entanto, às vezes o amanhecer vem com gosto de ferrugem na garganta e o sol parece hesitar, como se também tivesse medo de entrar pelos becos onde a vida custa caro demais. Naquela terça-feira de outubro, a cidade despertou não com pássaros, mas com estampidos — uma sinfonia áspera e descompassada que atravessava as janelas e parava o coração das mães antes mesmo do café manhã. Mais uma “operação policial”. Nome técnico, quase limpo, que cabe bem em manchete. Um eufemismo de guerra. Na prática, foi uma rajada curta e grossa na carne da cidade e do país. Cento e vinte e uma vidas, disseram os jornais ao fim do dia — mas os jornais apenas somam, não sentem. O número, redondo e terrível, já supera o do Carandiru, e o espanto se repete: outra vez a morte fez expediente em horário comercial, com conferência de imprensa à tarde e os corpos ainda quentes largados para trás. A Fiocruz — guardiã discreta da saúde e da...
Há muitos anos ouvi o Millôr [1] dizer que “o ser humano é inviável”. Desde então esta frase de um dos meus ídolos intelectuais tem me intrigado, porque nunca tive certeza se ele estava fazendo uma brincadeira despretensiosa ou se sua afirmativa era resultado de longa experiência de vida e cultura, alguma verdade filosófica embalada pelo seu excelente humor. Tentei em vão decifrar se Millôr se referia ao ser humano enquanto espécie animal ou aquele ser idealizado nos sonhos humanistas ou a ambos. Ao mesmo tempo, esta frase do Millôr me desafiava a concordar ou não com ela, obrigando-me a tentar conciliar numa única resposta as minhas múltiplas e antagônicas personalidades: o médico, o ativista político, o cientista e o cartunista. De um lado, como médico, tenho sido otimista por causa do desenvolvimento da ciência no conhecimento da natureza, que pode levar à cura das doenças e à diminuição do sofrimento humano. Também imbuído de esperança tem sido o meu posicionamento político ...
Comentários
Postar um comentário
Deixe aqui seu comentário que será enviado para o LOR.