Impressões sobre Cuba 2016



























Introdução

Em dezembro de 2015 eu e Thalma estivemos em Cuba a convite do cartunista Martirena e demais coordenadores do XV Salón Internacional de Humor Gráfico, realizado em Santa Clara.

Participamos como convidados para a exposição “Aquarela do Brasil” com outros cartunistas brasileiros e fomos jurados, assim como o Santiago, grande cartunista gaúcho e amigo de longa data, curador da nossa exposição de brasileiros.

É evidente que uma pessoa como eu, que participou dos movimentos políticos da década de sessenta e setenta, ao ir a Cuba pela primeira vez fique extremamente tocada emocionalmente pelo desafio que é confrontar um sonho antigo, embora profundamente transformado pelos anos, com a realidade da ilha, também transmutada pelo tempo e pela guerra econômica com os Estados Unidos.

Agradeço imensamente aos cubanos que nos convidaram e a todos aqueles que nos receberam com grande cordialidade. Esta viagem e seu calor humano estarão para sempre diante dos meus olhos.

Escrevi estas impressões com as turbinas ainda quentes do avião que nos trouxe de volta ao Brasil.

Ares cubanos










































Os cartuns acima, criados pelo cartunista Arístides Esteban Hernández Guerrero (ARES, ver http://www.areshumour.com ), foram considerados como o melhor conjunto de trabalhos no XV Salão Internacional de Humor de Melaíto, acontecido na semana passada em Santa Clara, no interior de Cuba e cidade famosa por conter o memorial do Che Guevara. Participei do júri, formado também pelos brasileiros Thalma e Santiago (um dos grandes cartunistas brasileiros – ver http://www.caminhosdosantiago.com.br/ ) e os cartunistas cubanos: Laz, Lacoste, Rolland e Lino.

Esta viagem a Cuba foi uma experiência inimaginável, transformadora e, me parece hoje, será de grande importância por toda a minha vida, comparável à primeira vez que saí do Brasil em 1986, para ir a Paris como parte do Prêmio Globo de Quadrinhos que conquistei com a tira de humor “Telinho”.

Começo o relato das minhas impressões sobre esta viagem com os cartuns do Ares, cartunista e formado em medicina como eu, porque além deles terem sido agraciados com o grande prêmio do Salão de Melaíto, as três ideias trabalhadas por ele parecem-me capturar de forma brilhante a situação de Cuba neste momento.

Primeiro, o WALL-MARX (no Malecón, ponto turístico de Havana) traduz o momento crítico atual de expectativa da suspensão do bloqueio econômico imposto há mais de meio século pelos Estados Unidos, decretado em resposta à revolução cubana liderada por Fidel Castro, o que é considerado pelos cubanos como o mais longo genocídio da história.

Depois do reatamento das relações diplomáticas (o bloqueio econômico continua), não se sabe o que acontecerá com Cuba depois da queda do bloqueio: será uma nova China? Será uma nova Alemanha Oriental? Um novo Vietnam?

Pareceu-me que, apesar de muitas conquistas na educação, na saúde e na dignidade das pessoas, a população encontra-se cansada da guerra econômica, esgotada em sua crônica penúria material e, em especial a juventude que não viveu sob a ditadura mafiosa de Fulgêncio Batista derrubada por Fidel Castro, deixa transparecer nítidas aspirações de se integrar à comunidade internacional sem barreiras de qualquer tipo.

Segundo, a Estátua da Liberdade fazendo um self num dos típicos carros antigos de Cuba, aqueles velhos carros americanos da década de cinquenta, reformados umas dezenas de vezes por fora e adaptados a motores diesel russos extremamente poluentes, é outro quase reconhecimento da vitória do modelo norte-americano sobre os ideais de resistência dos cubanos mais velhos. A Liberdade fazendo turismo em Cuba, num taxi dirigido por alguém com um quepe militar e roupa civil é uma cena muito parecida com o que vimos na velha Habana, onde milhares de turistas de toda parte, inclusive Estados Unidos, pagam 40 euros para uma volta de uma hora pela cidade naqueles carros transformados em atração turística.

Terceiro, o Tio Sam espiando por trás da bandeira Cubana, como se fosse a cortina de um teatro, pronto para entrar em cena, num momento que parece em suspenso pelo estado de saúde de Fidel Castro, o líder carismático onipresente desde a vitória do movimento armado que tomou do mesmo Tio Sam a ilha de Cuba, que era uma espécie de colônia norte-americana, onde a máfia podia circular e viver livremente nos melhores hotéis e os donos dos canaviais eram senhores sobre a vida e a morte dos trabalhadores mantidos na miséria.



Totens e tabus




















O desenho acima é do cartunista francês Bernie, que foi considerado pelo júri (foto abaixo) como o melhor no tema erótico (o Salão de Melaíto tem duas categorias: humor geral e humor erótico).










Jurados do Salão de Melaíto de 2015 – os cubanos Laz (presidente), Lacoste, Linares e Rolland e os brasileiros Lor, Thalma e Santiago.

A premiação de um cartum cujo tema envolve pedofilia e igreja católica é um fato a ser comentado no contexto político de Cuba, pois a partir de algumas conversas com os cartunistas fiqeui com a impressão de que pelos menos três temas são tabus nas publicações humorísticas (todas elas sob controle ou fortemente influenciadas pelo Partido Comunista Cubano): religião, homossexualidade e Fidel Castro.

Para conferir esta impressão, revi os temas abordados em 217 cartuns publicados por diversos cartunistas cubanos nos jornais de humor MELAITO e LA PICÚA nos últimos meses. Os resultados estão na tabela abaixo.



Tema
Percentual
Internet
15%
Mulher
11%
Sexo
8%
Política
0,01%
Religião
0,1%
Homossexualidade
0,1%
Fidel Castro
Nenhum
Outros
Cerca de 60% %



O tema mais frequente é a internet (talvez isto não seja diferente em outros países neste momento – a conferir). A segunda ocorrência é sobre a mulher e os cartuns geralmente são conservadores, reafirmando alguns preconceitos contra as mulheres. Apenas 8 cartuns (0,3%), - todos eles do cartunista Ramsés, - eram contra as violências cometidas contra as mulheres. No mesmo rumo, as piadas sobre sexo (8%) ridicularizam os idosos e a impotência masculina ou apresentam as relações entre casais (7%) de forma conservadora dentro dos tradicionais papeis masculino e feminino.

Chama a atenção a ausência completa de referências a Fidel (ou ao regime político em Cuba) e os baixíssimos índices de cartuns sobre política, religião e homossexualidade. No caso da religião, vi apenas um cartum sem texto sobre uma mulher islâmica, com a burca e seu celular também parcialmente oculto. Sobre homossexuais, apenas dois cartuns com trocadilhos ingênuos com as palavras hetero e homo. Este resultado obtido com uma amostra aleatória vasculhada em várias edições das publicações humorísticas que recolhi em Cuba, sugere a existência de tabus, em especial em relação aos totens sagrados da revolução cubana, o que fica mais intrigante considerando do grande nível de alfabetização e educação da população.

Parece-me também que nos cartuns classificados como OUTROS há grande presença de recursos indiretos de expressão, como metáforas usando reis, rainhas, super-heróis, bobos da corte, carrascos medievais e outros deslocamentos de época, muito parecidos com os subterfúgios que usávamos durante a ditadura militar, para contornar a censura no Brasil.

Portanto, a premiação de um cartum sobre padres e pedofilia no tema “cartum erótico” constituiu um marco importante do Salão de Melaito deste ano, pois enfrenta dois tabus (religião e pedofilia), ampliando o sentido do erótico para suas consequências sociais e culturais.

Neste mesmo contexto, foi muito construtiva a polêmica que os jurados travaram (democraticamente mediada pelo nosso presidente, o cavalheiro Laz) sobre o cartum abaixo.


















Alguns queriam premiar o cartum por entenderem que ele representava uma crítica ao duplo significado do erótico, criticando o assédio sexual sobre as mulheres trabalhadoras e a dominação masculina que demite aquelas que resistem às mãos dos patrões. Outros jurados entenderam que seria um cartum político e não erótico propriamente dito. A votação acabou por definir por uma menção honrosa para este cartum.


Muros, murais e fronteiras

























As imagens acima são a página 2 do jornal Vanguardia e a foto colorida dos cartunistas que criaram um mural no centro da cidade de Santa Clara, uma atividade tradicional em todos os salões de Humor do Melaíto. A proposta deste ano fora que cada um de nós escolhesse entre os temas PAZ ou TERRORISMO.

Esbocei um cartum que traduzisse minha hipótese de que a paz entre as pessoas somente ocorrerá quando não houver mais fronteiras, de quaisquer tipos: geopolíticas, étnicas, econômicas ou culturais. Por isso pintei com a ajuda da Thalma o desenho abaixo, enquanto me divertia com o genial Santiago entre um gole e outro de rum.


























É importante lembrar que a frase “PÁTRIA OU MORTE” está presente nos poucos outdoors existentes em Cuba, um lema proposto por Fidel Castro diante dos ataques militares, sabotagens e intimidações por parte dos Estados Unidos no início da década de sessenta. O nacionalismo tem sido inseparável de muitas revoltas contra sistemas colonialistas, sejam eles capitalistas ou não. Assim, minha impressão é de que a revolução cubana contra o regime de Fulgêncio Batista (considerado um ditador que sustentava uma extensão do imperialismo norte-americano) tinha forte conteúdo nacionalista em seus primórdios.

Hoje, penso que qualquer nacionalismo (patriotismo) é uma das faces do etnocentrismo, da xenofobia, da discriminação e do racismo. É muito fácil para nossa natureza humana usar as mínimas diferenças do outro para construirmos barreiras intransponíveis entre nós e os outros, a “outrofobia” (como disse alguém), que considera a todos os que não pertencem a um determinado grupo como sub-humanos, inferiores, desprezíveis e desprovidos de direitos humanos. Como diz Caetano Veloso e Elza Soares, não quero pátria, quero mátria, quero fratria.

Mas compreendo que há uma longa história por trás da frase Pátria ou Morte em Cuba. Obrigados a se defender contra a máfia e os interesses capitalistas em Cuba, os revolucionários cubanos na década de sessenta aproximaram-se cada vez mais da União Soviética e puderam contar com seu apoio militar e econômico até que Guerra Fria terminou com a derrocada econômica da Rússia, que levou à queda do muro de Berlim e à modificação do regime estalinista. Cuba ficou a ver navios... (ver abaixo o desenho do excelente cartunista cubano Linares).





















Assim, espremidos entre a miséria econômica e a ameaça de guerra por parte dos Estados Unidos (que reatou lações diplomáticos e libertou os famosos cinco cubanos presos por espionagem, mas ainda não suspendeu o bloqueio econômico), o lema “Pátria ou Morte” ainda faz sentido para os cubanos, que são obrigados a se manter num estado de alerta semelhante aos tempos da Guerra Fria.

De qualquer forma, quis deixar minha esperança gravada nos muros de uma rua de Cuba naquele painel coletivo: quem sabe um dia poderemos viver sem pátrias e sem fronteiras?

Participar do mural em Santa Clara lembrou-me do final dos anos 70, quando eu e Thalma íamos pintar murais nos bairros populares ao redor da Cidade Industrial, como parte da luta contra a ditadura militar, pela anistia aos presos políticos e punição aos torturadores e a favor da criação de um partido que defendesse a causa dos trabalhadores.

Naquela época imaginávamos uma sociedade mais justa, universal, sem fronteiras de qualquer tipo, baseada na igualdade de direitos entre homens e mulheres a qual, enfim, traria a paz. A estrela vermelha solitária que coloquei no no olho da pomba da paz continua sendo para mim o símbolo deste sonho.

E como diz a música de Milton Nascimento (*), os sonhos não envelhecem.
















(*). Meu querido amigo Cid Velloso corrigiu posteriormente meu engano: a música é da autoria do Márcio Borges, letrista do Milton Nascimento. Se eu me enganei em uma coisa relativamente simples, que isto sirva de alerta para meus prováveis enganos em outras coisas muito mais complexas.


O companheiro de Che Guevara
















A fotografia acima, que retrata Che Guevara em sua mula predileta, é muito famosa em Cuba, pois foi realizada durante a guerrilha que derrubou Fulgêncio Batista, um instantâneo colhido por um dos guerrilheiros e também fotógrafo chamado Perfecto Romero. Esta e outras fotos realizadas por ele foram utilizadas no Memorial para o Chê Guevara em Santa Clara (foto abaixo) e estão presentes em várias publicações históricas e nas salas do Museu da Revolução, que visitamos em Havana.

















Conheci Perfecto na caravana promovida pela União Nacional dos Escritores e Artistas Cubanos, numa viagem de ônibus até Santa Clara, onde participamos de diversas atividades, entre elas o Salão de Melaíto, o mural na cidade, visitas a exposições e centros culturais e a amostra especial de cartunistas brasileiros denominada “Aquarela do Brasil”.

Depois de acomodados num pequeno hotel reservado pelo Comitê Provincial para nosso grupo, desci para passear pelo jardim enquanto Thalma tomava banho e fazíamos hora para o jantar. Sentado num velho banco de madeira, encontrei Perfecto sozinho e me aproximei puxando assunto, numa conversa que durou cerca de uma hora.

Depois de trocarmos algumas informações e nos conhecermos um pouco, Perfecto disse-me que estava preocupado com a situação de Dilma e de Lula, pois achava que os grupos de direita no Brasil queriam derrubar os dois. Contou-me que estivera pessoalmente com Dilma e Lula numa exposição de suas fotos realizadas em Belém do Pará, durante o Fórum Social Mundial de 2009, e que gostava muito de ambos. Perguntou-me o que achava da situação brasileira, em especial da Dilma e do Lula.

Confesso que a princípio hesitei em responder o que realmente penso, pois sabia que estava diante de um artista cubano aparentemente engajado em ideias ortodoxas a respeito da política latino-americana. Perfecto acabara de me contar que nascera em 1936 numa família de camponeses extremamente pobres, os quais foram despejados das terras onde trabalhavam depois que o fazendeiro as vendeu para uma grande empresa americana. Vagaram anos trabalhando como boias frias, passando fome de uma cidade para outra e ele começou a trabalhar numa fábrica de charutos com 16 anos de idade. Ali, tomou conhecimento de ideias proletárias pelas leituras que eram feitas em voz alta por um dos trabalhadores enquanto os demais enrolavam silenciosamente os charutos. Muito cedo fora obrigado a entrar para a resistência contra a ditadura de Fulgêncio Batista e dali acabou se voluntariando para participar da guerrilha, sendo acolhido pelo próprio Che Guevara, que o aconselhara a usar a câmera fotográfica como sua principal arma.

Fotografando tudo o que acontecia na guerra, sob o estímulo de Che que intuíra o alcance daquelas lutas em Sierra Maestra, participou de muitas ações militares, especialmente de sabotagem, e depois do triunfo da revolução de Fidel Castro pode criar e participar de um jornal para as forças armadas, onde se aposentara como major. Continua hoje aos quase 80 anos a sua atividade como fotógrafo, imensamente reconhecido em Cuba.

Afinal, decidi dizer a ele o que realmente penso sobre Dilma e Lula, por sentir que seria desonesto de minha parte sair pela tangente, ainda que minha resposta pudesse contrariá-lo. Comecei explicando que, apesar de eu ter sido um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores em 1980, me desligara da militância já em 1982 por causa do centralismo antidemocrático do grupo de José Dirceu e Lula. Apesar disso, continuaria a me posicionar politicamente de acordo com as ideias do PT até que, em 2004, ficara sabendo que as fontes financiadoras da campanha de Lula à presidência eram as mesmas de Fernando Henrique Cardoso, bancos e empreiteiras, apenas em quantias diferentes.

Mesmo atuando de forma mais independente politicamente, eu ainda manteria a esperança de que o PT seguiria um caminho diferente dos demais partidos, recusando o fisiologismo e a corrupção, mas os episódios do chamado “Mensalão” e do escândalo da Petrobrás haviam sepultado de vez esta minha ingenuidade.

Lembrei ao velho militante do partido comunista cubano que é inegável que houve uma melhora sensível no nível de vida da população brasileira mais pobre nos últimos anos, mas estas conquistas se devem a muitas ações compartilhadas com governos anteriores, entre as quais a estabilização da moeda e o fim da inflação, o programa de bolsas para os mais pobres e a um período de situação favorável do Brasil nas suas relações comerciais com a China. No entanto, apesar de aumento no poder aquisitivo dos mais pobres, não ocorrera a sonhada redistribuição da riqueza, pelo contrário, a concentração de renda aumentara durante o petismo e os bancos nunca haviam sido tão lucrativos sob as gestões Lula e Dilma.

Para piorar, - tentei explicar ao fotógrafo cubano, - ao meu ver, as gestões petistas haviam feito, entre outras, diversas políticas equivocadas: 1) adotaram as mesmas soluções monetaristas dos governos liberais; 2) reduziram os recursos e paralisaram o desenvolvimento do Sistema Único de Saúde (especialmente o Programa de Saúde da Família); 3) destinaram dinheiro dos trabalhadores (BNDES) para empresas particulares sem os mínimos critérios adequados (pressionando a dívida pública e consequentemente a inflação); 4) permitiram ambiguidades na legislação e fiscalização, pressionadas pelo agronegócio, que resultaram em menor controle do desmatamento da Amazônia e maior destruição da floresta; e 5) para sair da crise econômica mundial de 2008, optaram pela renúncia fiscal em larga escala (quase meio trilhão de dólares) para a indústria automobilística, reduzindo os recursos públicos sob autonomia do estado para o investimento na infraestrutura.

Percebendo que eu me estendia demasiadamente num assunto espinhoso, finalizei dizendo que estas seriam algumas das ações dos governos Lula e Dilma que me causaram decepção e tristeza, às quais podemos acrescentar a falta de uma reforma política (quando ela era possível durante a grande popularidade de Lula), o populismo decorrente do centralismo autoritário do PT, o culto à personalidade (do Lula – nada estranho em Cuba, é claro) e a pouca habilidade política (da Dilma), especialmente em seu segundo mandato. Tudo isso me levara para a oposição ao petismo, aliás, - disse ao Romero Perfecto que me escutava em silêncio - sou eleitor militante do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) desde sua criação.

Não sei o quanto exatamente Perfecto Romero compreendeu de tudo o que eu disse naquele jardim do hotel ao crepúsculo em Santa Clara, no meu sofrível portunhol. De qualquer forma, ele me pareceu entre acabrunhado e entristecido, mas não retrucou qualquer dos meus argumentos. Olhou para o relógio e lembrou-me que estava na hora do jantar e nos dirigimos ao refeitório, onde sentamos juntos e mudamos de assunto.
















Diante do hotel, da esquerda para direita: Zardoya, Thalma, Pablo, Odete, Ivete, Perfecto, Lor, Ares e Olga.

Nos três dias seguintes estivemos por perto em todas as ocasiões das atividades programadas pelo Salão de Melaíto. Ele foi gentil, amistoso, mas de poucas palavras, sempre fotografando. Sinto por ele um grande afeto, na forma de respeito pela sua história de vida e grande integridade pessoal, embora eu nem possa dizer exatamente o quanto eu concordo ou não com suas ideias.

Durante nossa viagem de regresso a Havana, Thalma fotografou Perfecto Romero que estava no banco do ônibus à nossa frente. Esta bela foto traduz meu sentimento por ele.
















Gerardo, um deles



















No Nateu de 2012 (isso mesmo, o nosso Natal de ateus), recebi de presente da minha filha Ana o livro do Fernando Morais “Os últimos soldados da Guerra Fria” com a carinhosa dedicatória: “Para meu pai querido, último soldado de várias guerras, contra a injustiça, a pobreza (de espírito principalmente) e a falta de poesia no mundo”.

Mergulhei nos dias seguintes na leitura do livro, uma história emocionante descrita de forma magistral pelo Fernando Morais, sobre a rede de agentes secretos que Cuba infiltrara entre os militantes anticastristas de Miami e que fora descoberta pelo FBI, com a consequente prisão dos cubanos, entre eles Gerardo Hernández, um diplomata convertido em agente da inteligência. O livro conta como foi que um pouco mais de uma dezena de cubanos e cubanas se infiltraram entre os anticastristas na Flórida para tentar parar os constantes atentados cometidos contra Cuba pelos militantes de extrema direita. Os agentes cubanos foram julgados e condenados à prisão nos Estados Unidos, mas depois de diversas intervenções políticas (entre elas do Papa Francisco, pelo que entendi), eles foram libertados e estão de volta a Cuba, recebidos como heróis e celebrados em outdoors (ver abaixo).















Quando li a história descrita pelo Fernando Morais não imaginava que um dia conheceria pessoalmente um deles, o Gerardo Hernández, que além de herói nacional gosta de desenhar charges e por isso mantém relações de amizade com diversos cartunistas cubanos, o que o levou à abertura do Salão de Melaíto, para a entrega dos prêmios (foto abaixo).

















Momento da entrega dos prêmios, com o herói cubano Gerardo Hernández no centro das atenções, de camisa preta com a inscrição 50 Anos em azul.

Antes da premiação, Gerardo visitou a exposição “Aquarela do Brasil”, com 32 desenhos de cartunistas brasileiros reunidos sob a curadoria do mestre Santiago. Como o Santiago se atrasara, coube a mim a tarefa de ciceronear o Gerardo durante a visita à exposição dos cartunistas brasileiros, comentando com ele o sentido de alguns desenhos no contexto da política brasileira.














Adán (cartunista do Juventud Rebelde), Lor, Gerardo e Ares de costas e o brasileiro Rafael Correa (premiado com menção honrosa no Salão de Melaíto deste ano) ao lado de uma bela caricatura do Ziraldo feita pelo mineiro Cahu Gomez.

Gerardo foi a única pessoa que percebi ser tratada como celebridade em Cuba, com status de herói nacional, com direito a atentos acompanhantes munidos de ualquitóquis e deferências sociais, inclusive por parte dos velhos combatentes como o fotógrafo de Sierra Maestra Perfecto Romero. Como venho comentando, a Guerra Fria ainda é uma realidade inevitável entre os cubanos.

Meus votos para eles, hoje, no último dia de 2015, é que em breve eles possam respirar mais aliviados, sem a ameaça do bloqueio econômico norte-americano, sem as restrições democráticas impostas por um estado de guerra permanente contra a extrema direita sediada em Miami, e que seus futuros heróis possam ser cada vez mais os civis que trabalham pela construção de uma sociedade humana mais justa e igualitária.




Os heróis civis
































Este desenho é uma adaptação da piada que ouvi de um dos cartunistas cubanos, que retrata a situação de baixa remuneração dos médicos cubanos, comparando-os aos trabalhadores que estão próximos aos turistas, dos quais podem receber gorjetas em pesos turistas (equivalentes a 1 dólar) que significam quantias substanciais em pesos cubanos (25 vezes menos). De fato, apesar do seu acesso garantido aos serviços públicos, como moradia, transporte, saúde e educação (básicos e no limite da pobreza), meus colegas cubanos recebem cerca de 50 dólares por mês de salário, o que representa um pouco mais que o salário mínimo de cerca de 36 dólares, uma pequena diferença com os demais trabalhadores, comparada aos exorbitantes salários médicos em outras partes do mundo.

A dureza da vida cotidiana e o número de médicos formados por Cuba anualmente (apenas 2 mil a menos do que o Brasil) faz com que cerca de 15 mil profissionais de saúde sejam enviados para diversos países que precisam deles por diversas razões, entre elas pela sua ausência onde os médicos nativos não querem trabalhar (como no Brasil). Estes trabalhadores da saúde ao redor do mundo enviam boa parte do que recebem no exterior para Cuba e assim constituem a primeira fonte de divisas internacionais da ilha, sendo o turismo a segunda.

Formados com uma visão preventiva e de atendimento à saúde básica (ao contrário do nosso caríssimo modelo norte-americano focado no tratamento hospitalar das doenças), a maior escola de medicina de Cuba recebe estudantes de diversos países para voltarem à sua região e trabalharem para os mais pobres. Ao contrário daqui, onde a seleção dos estudantes é feita pela competição (leia-se renda familiar suficiente para pagar colégios caros ou mensalidades milionárias), em Cuba os futuros médicos são selecionados pela sua carência na região de onde provém.

Posicionei-me com algumas charges no Jornal da Associação Médica de Minas Gerais (ver abaixo) de forma contrária ao Programa Mais Médicos porque acredito que se nossa lei manda revalidar o diploma de todo médico estrangeiro que pretenda trabalhar no Brasil, isto deve valer também para os cubanos. Outro aspecto é que seus contratos devem ser semelhantes aos dos demais trabalhadores brasileiros, em termos de garantias e previdência. Ou as leis valem para todos, ou regredimos na difícil construção da democracia.


































Não é apenas de médicos que se fazem os heróis civis de Cuba: há outros profissionais que se dedicam a desenvolver tecnologias para diminuir a pobreza e os danos ecológicos. Entre eles, tive o prazer de conhecer José Fernando Martirena Hernández, engenheiro e professor universitários, durante a abertura de uma exposição dos cartuns do seu irmão, um dos melhores cartunistas cubanos, o Martirena.












José Fernando, Dania, Niury e Thalma, durante a exposição de cartuns do Martirena num centro cultural em Santa Clara

José Fernando e sua equipe da Universidade Central “Martha Abreu” de Las Villas desenvolveram uma nova tecnologia para materiais de construção que diminui em 30% a poluição. Suas descobertas estão sendo aplicadas em várias partes do mundo, inclusive na fabricação de cimento no Brasil pela Votorantim. Por estas descobertas, eles receberam em 2011 um prêmio da United Nations Human Settlements Programme, assim como outros reconhecimentos, em especial do presidente Cárdenas no México.

O cartum abaixo mostra que os irmãos Martirena estão do mesmo lado na luta por um mundo melhor.





















O desconforto de um “classe média”



























Sou brasileiro, branco, homem, formado em medicina e professor universitário aposentado, portanto sou pertencente à classe média, no sentido econômico e ideológico do termo. Meu olhar sobre Cuba, ainda que submetido a uma tentativa de controle consciente em decorrência de minhas posições políticas, certamente é perpassado pelos valores da classe à qual pertenço, ou seja, o conforto cotidiano, os valores da educação formal, as expectativas civilizatórias ocidentais e a liberdade de opinião e a democracia eleitoral. Consequentemente, nos sete dias que passei em Cuba percebi algumas coisas que me incomodaram e para as quais busco um significado real além do colorido ideológico de minhas retinas.

A primeira delas é que é um país submetido a uma guerra econômica, como já comentei, gerando pobreza, escassez de recursos essenciais e clima de restrição democrática de opinião. No entanto, apesar da pobreza geral, há uma altivez no olhar dos cubanos, como se dissessem: Sou pobre, mas isso nada tem a ver com minha dignidade.

Mas há contradições. Andando pelas ruas de Havana, Santa Clara e Remédios, notei grande quantidade de grades (novas e antigas) por toda parte, casas residenciais e outros imóveis. Aliás, num dos restaurantes que fomos com a comitiva do Salão de Melaíto, havia um portão de ferro que literalmente era trancado para impedir que alguém entrasse sem a permissão de um dos garçons quando não havia vagas nas mesas. Em todos os imóveis há um excesso de gradeamento, enquanto várias vezes ouvimos dos cubanos que não há violência em Cuba, que podemos andar tranquilos à noite, etc. Perguntei a mais de um deles se não havia alguma contradição entre as grades e a suposta ausência de violência, pelo menos quanto a roubos. Não obtive resposta, aliás, pareceram-me surpresos com minha observação.

Por outro lado, de fato, o primeiro carro de polícia que vi em Havana foi somente depois de 24 horas de estadia na cidade. Indaguei sobre isso para um dos ciclistas que nos transportam em triciclos adaptados e ele respondeu ironicamente que não há policiais nas ruas pois em Cuba todos são policiais. Deu uma gargalhada de deboche e corrigiu: - Todos, não, apenas duas em cada três pessoas. Riu novamente.

O trânsito chama a atenção pelo desprezo pelos pedestres, que são advertidos agressivamente por buzinas estridentes para que saiam da frente. O predomínio dos carros fumacentos (carcaças norte-americanas com motores russos a diesel) sobre os direitos dos pedestres é tão evidente que fotografei uma placa de trânsito, que supostamente seria para advertir os motoristas sobre a presença de escolares, na qual as crianças estão correndo e cuja legenda mais adequada seria “Cuidado, crianças, FUJAM! ”.




















Além disso, os cintos de segurança são supostamente exigidos apenas nos carros mais novos, assim como os capacetes de segurança, que parecem mais capacetes de operários da construção civil do que aqueles apropriados para minimizar os traumas cranianos. Muitas pessoas são transportadas sem quaisquer medidas de segurança (ver foto abaixo) e Cuba apresenta os acidentes de trânsito como a quinta causa de morte.

















Antes de nos unirmos à comitiva do Salão de Melaíto, quando então passamos a conviver diretamente com os demais cartunistas, Thalma e eu passamos três dias em Havana como turistas comuns.

Quando éramos identificados como brasileiros a primeira coisa que nos diziam é o quanto gostavam das novelas brasileiras. O gosto popular pelas novelas da Rede Globo... a presença frequente por toda parte de músicas do tipo “Ai se eu te pego...” todo mundo de olho nos celulares em qualquer lugar onde houvesse um sinal de internet... as crianças brincando com “transformers” e armas de brinquedo fabricadas em Miami... o assédio de um cubano me presenteando com uma nota de três pesos, para depois me tomar 3 pesos turista... Fiquei olhando para aquela nota e pensei, acabrunhado no meu gosto de classe média, se o Che Guevara teria feito a revolução se soubesse que ia dar nisso tudo...












Entretanto, gostei (um gostar muito acima da média de todos os museus que conheço em algumas partes do mundo) do museu de arte cubana, especialmente as obras reunidas a partir da revolução, pois elas têm um caráter muito próximo dos cartuns, com ideias criticamente filosóficas, explícitas e bem construídas esteticamente. Depois, vêm as obras contemporâneas, nas quais o desencanto generalizado já se tornou a expressão dos tempos de nulidades utópicas encontrados em qualquer museu do mundo.

Na saída do Museu da Revolução, um cubano comentou comigo que aquele prédio fora residência de Batista e ao mesmo tempo sede do governo e que ali, naquela época, quem tinha dinheiro podia usufruir de farras e privilégios, inclusive utilizando-se de prostitutas de luxo. Acreditando que estava diante de um legítimo defensor da igualdade entre os homens, eu disse: No capitalismo é assim: poucos têm muito e muitos não têm nada. Para minha surpresa, o homem respondeu: - No socialismo também. E se afastou rapidamente. Foi a única vez que ouvi a palavra socialismo em Cuba, fora dos poucos outdoors oficiais e do conteúdo do próprio Museu da Revolução, o qual parece inverter um pouco a lógica histórica, descrevendo um evento excepcional (a revolução cubana) como se fora destino inevitável e resultante da força de vontade dos heróis nela envolvidos.

Por falar em socialismos, na chegada em Havana, compartilhamos nossa van até o hotel com um cambojano em férias, depois que ele reuniu dinheiro durante o ano trabalhando para uma fábrica de camisetas para a Nike e Disney. Ele estava eufórico com a viagem, uma a mais no seu roteiro anual de visitar todo o mundo. Cuba era apenas mais um na lista do Caribe. Eu não conseguia esquecer que aquela pessoa alegre vinha de um país onde o ditador assassino Pol Pot exterminara mais de um milhão de pessoas, há menos de 50 anos, durante seu regime intitulado pelos genocidas como sendo comunista.

Ao lado do hotel onde Ernest Hemingway tomava seus porres, perdi três ilusões: o hotel não merece a fama, há camelôs assediando os turistas como em qualquer parte do mundo e encontrei um jovem bêbado, desnutrido, fedendo a fezes e urina, abandonado no chão feito um cão, tremendo, em abstinência de álcool. As pessoas passavam por ele como se não existisse e jamais pensei que veria este comportamento num país “socialista”.

E apesar do socialismo, pelas ruas das cidades que visitamos vi várias mulheres de branco em iniciações religiosas como as baianas brasileiras, vi sinais de rituais afro-americanos pelas praias, esquinas e encruzilhadas e vi igrejas católicas lotadas de fieis com padres distribuindo água benta exatamente como nos mais conservadores redutos católicos de Ouro Preto. Não tive escolha, e em homenagem ao meu irmão Ernesto, fiz um trocadilho: Religião é um mal deusnecessário!


A última noite em Havana




























Desenho do Adán, excelente cartunista do Juventud Rebeld.

Uma mudança nos planos do grupo brasileiro fez com que retornássemos de Santa Clara no domingo e esta casualidade resultou numa sequência de acontecimentos que deram o derradeiro colorido emocional à nossa viagem a Cuba.

Como eu e Thalma não tínhamos reserva em hotéis para a última noite em Havana, todos lotados nos últimos doze meses com o aumento do turismo, Martirena e sua esposa Niury gentilmente conseguiram para nós uma hospedagem na casa de Ilia, no bairro Vedado em Havana, antigo reduto da aristocracia antes da revolução de Fidel Castro, ao preço de 30 pesos turista, cerca de 120 reais.

Chegamos à casa de Ilia à noite, completamente encharcados pela forte chuva que nos atingiu depois de deixarmos o ônibus da comitiva e demorarmos para conseguir um taxi. Fomos recebidos com muita gentileza por Ilia e uma espanhola que também estava ali hospedada, assim como havia um casal de alemães noutro quarto, que viríamos a conhecer na manhã seguinte.

Foi um grande alívio tomar um banho quente para retirar o suor da viagem de quatro horas num ônibus de fabricação russa, cujo motorista (aparentemente o comandante incontestável do veículo) desconsiderou todos os pedidos de diversas pessoas da comitiva para que ele abaixasse o volume do som, obrigando-nos a ouvir as piores músicas que já pude ser forçado a escutar, mesmo com os protetores antirruído enfiado nas orelhas. As nacionalidades das músicas variavam, mas como reclamou o cartunista Zardoya, “merda é a mesma em qualquer parte do mundo”.

Na manhã seguinte, tomamos o melhor café da manhã de todos nossos dias em Cuba, no qual os pedaços de fruta eram suficientes, o café forte o bastante e o pão saboroso, e saímos para conhecer o bairro a pé e o monumento em homenagem a José Martí. O bairro Vedado, originalmente casas da burguesia cubana, tem aspecto melhor do que a Habana Vieja, pois o centro histórico parece uma tentativa de reconstrução depois de bombardeios sistemáticos numa guerra crônica.















Vistas do centro histórico de Havana.

Passamos pelo imenso cemitério Colón e nos dirigimos ao monumento a José Martí, de cuja parte central dianteira Fidel Castro fazia seus longos discursos para centenas de milhares de pessoas, tendo ao fundo as imagens de Che Guevara e Camilo Cienfuegos. O clima de culto àquelas personalidades é inescapável e formatado no estilo arquitetônico influenciado pela arte realista russa do início do século vinte, o que não me parece o melhor caminho para o socialismo democrático, que deveria atribuir a todos a condução da história e não a alguns heróis iluminados. Novamente em minha mente o conflito fundamental: pátria ou socialismo?



















Monumento a José Martí, endeusamento dos heróis e culto à personalidade.

Aquelas últimas horas em Havana consolidaram em mim certa tristeza que vinha se acumulando diante do sofrimento que percebia naquela população maltratada pelo bloqueio econômico norte-americano, o genocídio mais longo da história, como está escrito num dos outdoors oficiais. Contribuiu para este sentimento saber que Ilia, a dona da casa na qual nos hospedamos, vem a ser a filha de um médico, Doutor Orlando, que estava naquele momento internado num hospital por problemas crônicos de saúde. Na sala da casa há uma fotografia emoldurada com Orlando e Che Guevara e ao observar a foto fui informado pela Ilia que Orlando, seu pai, era quem cuidava da saúde de Che enquanto ele viveu em Cuba.





















Foto do Dr. Orlando, de pé e de óculos escuros, atrás de Che Guevara.

O fato de que aquele velho médico, provavelmente bem relacionado entre a elite dirigente cubana, seja obrigado a alugar quartos para manter um padrão de vida minimamente decente, faz-me supor que embora haja pobreza geral, não há privilégios, nem mesmo para aqueles revolucionários de primeira hora, como Dr. Orlando e o fotógrafo Perfecto Romero. Ou seja, pareceu-me que todos estão sofrendo juntos as restrições econômicas, ao contrário do que sugeriu aquele cubano na porta do Museu da Revolução.

Por outro lado, este sofrimento geral leva inevitavelmente à pergunta: valeu a pena a revolução cubana? Teria o sonho se tornado um pesadelo? Sei que não há alternativa histórica para ser comparada, por exemplo com a eventual inexistência do bloqueio econômico norte-americano, o que permitiria o socialismo supostamente desabrochar em felicidades na ilha, para sabermos se poderia ter sido diferente.

Com o fim tão esperado do bloqueio norte-americano, contando com uma população altamente instruída formalmente, quanta novas medicinas sem fronteira, quantos novos engenheiros criativos reduzindo a poluição, quantos Buena Vista Social Clubes poderão surgir para ajudar o mundo a ser melhor?

Enquanto nosso avião decolava do aeroporto José Martí, olhei pela última vez aquelas terras tropicais, tão parecidas com muitas partes do nosso Brasil e perguntei mais uma vez se, apesar de toda a resistência dos cubanos, o capitalismo venceria mais esta batalha.

Qualquer que seja o olhar ideológico de quem puder visitar Cuba, as lições históricas são desproporcionalmente grandes para o tamanho da ilha e sua altiva população. Há muito por acontecer e a história humana ainda não acabou. Assim penso eu, aqui em Minas Gerais.
















Belo Horizonte, 6 de janeiro de 2016
Agradecimentos

Algumas pessoas agraciaram-me com lembranças especiais, que registro a seguir.

Os amigos Santiago e Olga, com quem eu e Thalma renovamos os laços de amizade e parentesco, pois corre em nossas veias o mesmo nanquim, que nos convidaram e orientaram na viagem, pois estiveram em Cuba em 1994, durante a grande crise econômica, na qual presenciaram a situação de pobreza extrema em que viviam os cubanos.

O Santiago é humor, curiosidade e perplexidade criativa misturados numa só pessoa, que faz do cartum sua arte maior de viver. Na foto abaixo, numa cave em Caibarién, Santiago, Ares, Olga e Thalma demonstram o efeito saudável de uma boa dose de rum e o estado de espírito predominante de nossa viagem.

















O brilhante cartunista RAMSES fez este belo cartum depois de me observar empilhando pedras no mar de CAIBARIÉN, uma compulsão que adquiri com um japonês numa praia de São Francisco, na Califórnia.

















O Rafael Correa e sua querida Carol de Góes, que brindou nossa viagem com seu bom humor e vontade de viver.



















O gentil LAZ, que além de nos acolher com sua solidariedade e amizade, permaneceu conosco até o último momento da viagem, garantindo que chegássemos seguros à pousada para nossa última noite em Havana.

A Ramiro Zardoya, Odete e seu afetuoso filho Pablo, companhias alegres durante todo o evento.

O Martirena e à Niury, que se desdobraram em cuidados para que estivéssemos confortáveis e tranquilos. O José Fernando e a Dania, exemplos de cidadania que esperamos reencontrar em breve.

Ao Ares e à Ivete, que nos receberam em Havana e nos fizeram sentir em casa.

Muito obrigado. Nossa casa também é sua.



Comentários do CID Velloso sobre Cuba



Transcrevo abaixo, com sua autorização, os comentários do amigo Cid Velloso, médico e Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, tendo sido seu Diretor e Reitor da Universidade, e é uma pessoa que possui vasta experiência em viagens, inclusive duas a Cuba em missões técnicas sobre programas de saúde (tanto em governos do PSDB quanto do PT). Cid tem a qualidade da franqueza e das opiniões firmes, mas nunca abre mão da delicadeza e do espírito democrático.
Obrigado Cid. Sinto-me honrado com sua leitura dos meus textos.



LOR,
Seu relato de viagem, com impressões e análises políticas é excelente, valorizado pelos seus ótimos cartuns e de seus colegas cartunistas encontrados na viagem a Cuba.

Vou comentar alguns itens do relatório, mas resumo no seguinte: a sua impressão final global da questão e da história de Cuba é muito parecida com a minha: sempre fui um entusiasta da revolução cubana que foi vitoriosa em 1959, com aquelas figuras heroicas e bonitas dos comandantes (especialmente Fidel e Che Guevara, que se tornaram ícones mundiais), com apoio popular e rural amplo e comprometido; ao longo do tempo, não diminuiu minha fascinação pelos políticos e por Cuba, mas fiquei cada vez mais entristecido com o insucesso do socialismo real, no contexto capitalista global (e tendo os EE.UU. muito próximo de Cuba).

A triste conclusão que chego é que a concepção política do socialismo é perfeita, mas a execução criou em Cuba (como também em outros países que tentaram o socialismo: União Soviética, leste da Ásia, Nicarágua, Coréia do Norte, China, etc.) um regime ditatorial: não há partidos políticos atuantes oficiais, não há liberdade de imprensa e de opinião, não há liberdade de ir e vir dos habitantes, não há rodízio de governantes, há os preconceitos contra homossexuais, há presos políticos, etc.

O sistema de governo conseguiu muitos resultados positivos para a população: sistema de saúde funcionando bem, com universalização e integração do atendimento (você sabe que a mortalidade infantil lá é menor do que nos EE.UU?), pesquisas médicas bem avançadas, educação de boa qualidade em todos níveis, nivelação socioeconômica bastante avançada, entre outros aspectos. É óbvio que é um país pobre, mas há um nível digno de vida: os médicos ganham pouco mas, como toda a população, têm sistema de saúde e de educação, têm racionamento de produtos alimentares, mas não passam fome; não se vê (não sei atualmente, mas quando visitei Cuba era assim) mendigos pedindo esmolas, moradores de rua, crianças perdidas nas ruas, "descamisados", etc.; há contrabandistas (de rum, charutos, produtos contra o colesterol pesquisado em Cuba), prostitutas nas ruas (como em todo o mundo) e as casas estão em mal estado de conservação, mas todos têm onde morar - é um país pobre, com poucos itens de produção/comercialização (açúcar, charutos, rum, medicina, turismo).

Aí entra a reflexão que devemos fazer (reflito muito e não consigo concluir) sobre o desenvolvimento civilizatório de um país sob o capitalismo e a dificuldade do país socialista de ter o mesmo desenvolvimento. O capitalismo desenvolve a indústria, o comércio, a pesquisa, os postos de emprego, moderniza-se, mas isso cria a exclusão social, como temos no Brasil e mesmo nos EE.UU. O capital domina a política, os governantes, as universidades, as pesquisas, mesmo a cultura e cria uma ditadura do capital. Cuba é um país pobre, mas também tem poucos recursos naturais (a não ser a beleza das cidades e das praias) e não consegue crescer economicamente - não sei a solução (será que há?). É lógico que a pobreza cubana tem também outros fatores, como o embargo norte-americano, refletindo com outros países subservientes aos EE.UU. a queda do regime soviético que subsidiava o regime cubano, mas não é apenas isso; há fatores internos da política cubana responsáveis pelo fato.

Visitei Cuba duas vezes: em 1995, coordenei a implantação do Programa de Saúde da Família em Minas Gerais, convidado pelo Secretário de Estado da Saúde, Rafael Guerra Pinto Coelho e fui oficialmente a Cuba conhecer o Programa de lá, que era um modelo excelente - trouxe muitas ideias boas para o Programa em Minas. Depois fui em 2004, nomeado pelo Ministério da Saúde e junto com um professor da Universidade Estadual de Londrina, para conhecer e avaliar as escolas de medicina de Cuba - havia já a ideia de trazer médicos cubanos (assim foi avaliado na época, pois os médicos cubanos eram formandos com predominante foco na atenção básica, o que falta no Brasil e em quase todos países), pois os médicos brasileiros recusavam ou não tinham formação para essa atenção (foi o germe do Mais Médicos).

Nas duas visitas, fiquei fascinado com o país: bonitas cidades, embora casas malconservadas, povo hospitaleiro, alegre, musical e sem denotar sofrimento ou revolta com o regime socialista (apesar dos aspectos ditatoriais que citei acima), com admiração pelos líderes revolucionários (conversava com motoristas de taxi, funcionários do hotel, comerciantes, pessoal da área da saúde e mesmo com a população, na visita que fazíamos ao PSF).

Lógico que havia oposição e muitos intelectuais escreveram bons livros denunciando a ditadura (até um livro que comprei para ler de um cubano: Padura, que se chama "O homem que gostava de cachorros"). Um aspecto que fica claro é a falta das benesses do capitalismo que fica a 150 km. da ilha, em Miami: os lindos shoppings centers, o comércio de consumo (aí entra o trocadilho do cartum: Wal Mart x Wal Marx), a boa vida capitalista - obviamente um sonho que também milhões de brasileiros não acessam, apesar de existirem no Brasil para as classes A e B (até a C tem avançado nesse aspecto, atualmente). Quando ouço a detestável frase "por que você não vai morar em Cuba?" Afirmo com segurança: as classes A e B brasileiras (cerca de 8% da população) teriam sua vida piorada em Cuba, mas a massa da população das outras classes teria uma melhora da qualidade de vida: saúde, educação, moradia, alimentação (racionada, mas existente).

Alguns comentários sobre seu relato:

· Impressionante a quantidade de carros antigos funcionando bem; creio que em Cuba temos os melhores mecânicos de carro do mundo, para conseguirem manter esses carros.

· A "ditadura" cubana atual é indefensável, mas o regime anterior de Batista era muito pior para a população como um todo, além do domínio norte-americano, que usava como quintal de prostituição, jogatina, máfia, além de perda de identidade e de dignidade da população.

· Ótima a foto dos jurados da Exposição, com você e a Thalma.

· O cartum do Linares é ótimo e reflete o que ocorreu no filme TITANIC, com o Leonardo di Caprio e a Beth Winslet.

· A frase "sonhos não envelhecem" não é do Milton Nascimento, mas de seu letrista Márcio Borges, que inclusive escreveu um livro com essa frase (ótimo livro, seu você não leu, posso emprestar).

· Discordo que os governos petistas (apesar de toda lama que eles chafurdaram, igualando-se aos outros partidos, pois a camarilha política brasileira nunca esteve tão ruim e corrupta, em geral, de todos partidos - talvez exceção do seu PSOL) aumentaram a concentração de renda: a Bolsa Família e o reajuste do salário mínimo desde o governo Lula (o S.M. era 80 dólares no governo FHC e hoje é cerca de 250 dólares) diminuíram acentuadamente a desigualdade econômica, tanto que as classes C e D compram muito mais, viajam mais, divertem mais, os bares estão mais cheios, etc.

· Você fez cartuns criticando o Programa Mais Médicos, mas sempre fui a favor, pois levou médicos a rincões (e bairros distantes em grandes cidades) por todo o país, trazendo médicos ideais para o tipo de atendimento, que é a atenção primária - como você sabe, uma boa atenção primária resolve totalmente 85% dos problemas de saúde da população, sem especialistas e com poucos ou nenhum exame complementar. Como os brasileiros não quiseram participar na época do lançamento (houve chamada pelo Ministério da Saúde, mas não apareceu quase ninguém), chamaram os cubanos, que são formados e têm experiência no assunto. Lógico que o Programa tem muitos problemas: falta de uma lei que cria a carreira de médico (como têm os advogados), o salário irrisório que o Governo cubano paga aos médicos (embora melhor do que ganham em Cuba), pois o Governo fica com a maior parte. O problema da revalidação dos diplomas é controvertido: o Ministério da Saúde na época argumentou um fato bem claro: o Programa funciona com um contrato de prazo limitado para os médicos cubanos trabalharem apenas naquelas localidades, sob supervisão de médicos brasileiros; se revalidarem o diploma, poderão logo mudar para as grandes cidades, deixar o Programa e até competir com os brasileiros; hoje eles estão proibidos de fazer isso.

· A questão da falta de cintos de segurança nos carros não é exclusiva de Cuba. Viajo muito e vi que muitos países da Europa e Ásia não dão a mínima bola para o cinto, embora existe nos carros e alguns usam. O Brasil pelo menos nisso está mais civilizado.

· Gostei de sua nova mania de empilhar pedras: a foto ficou muito boa.

LOR: desculpe o longo texto, mas é também um desabafo pelas opiniões equivocadas que tenho ouvido muito no Brasil, pela posição terrível da classe média (e também médica) brasileira, pela publicidade permanente e mundial do capitalismo e suas "maravilhas". Obviamente, tudo que eu disse é polêmico e sujeito a contradições.

Parabéns pelo seu ótimo texto e pelos cartuns.
Um abraço para você a para a Thalma.
Cid


Outras visões sobre Cuba (18/01/2016)






Estive de férias por uma semana em Lambari, sob a chuva constante que acabou por transbordar os rios ao redor, causando grande enchente que nos fez levantar acampamento e voltar para Belo Horizonte.

Entre uma pancada de chuva e outra, encontrei por acaso na biblioteca de meu pai o livro “Cuba de Fidel – Viagem à ilha proibida” do Ignácio Loyola Brandão, escrito em 1978 (ainda época da ditadura militar brasileira e da Guerra Fria em todo o mundo), logo após sua viagem a Cuba, realizada na companhia de Chico Buarque, Marieta Severo, Antônio Callado e outros brasileiros, para serem jurados no Prêmio de Literatura Casa das Américas daquele ano.

Além da semelhança entre as situações, um grupo de brasileiros participando de um júri cultural pelo interior de Cuba, as quais descrevi recentemente envolvendo Santiago, Olga, Rafael Correa, Carol, Thalma e eu, descobri no livro outras informações importantes que o nosso grande autor de Zero foi capaz de reunir e nos apresentar de forma divertida.

Um dos melhores momentos do livro é sua descrição do culto à personalidade de Fidel Castro, de como se forma a lenda em torno do seu nome e, já naquela época, era impossível se saber o que era verdade ou não sobre o líder cubano.

Ignácio Loyola também mostra que havia uma Constituição em vigor, discutida e votada por praticamente todos os cubanos, com direitos (respeito à mulher, por exemplo) que somente seriam propostos no Brasil dez anos depois, na Constituição brasileira de 1988.

A Revolução Cubana era ainda uma jovem de dezenove anos, apoiada pela economia da União Soviética, o que permitia que ela resistisse um pouco melhor ao bloqueio norte-americano, mantendo a alegria e a esperança. Meus olhos encontraram uma senhora de 56 anos, altiva, porém, cansada pela guerra crônica.

Vale a pena conferir

https://www.traca.com.br/livro/694162/cuba-fidel/



24 de Fevereiro de 2016
Veja texto muito interessante do escritor Alex Castro em:
https://www.facebook.com/AlexCastroEscritor 
Creio que compreendo melhor certas questões, depois de ler seus comentários sobre CUBA











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