sexta-feira, 14 de julho de 2017

A quantos anos serei condenado, juiz Moro?

Confesso, meritíssimo: sou cúmplice de Lula, e há muito tempo.

Comecei a seguir sua liderança desde a fundação do partido dos trabalhadores num colégio em São Paulo, aonde comparecemos os mineiros numa caravana de ônibus levando várias ideias descartadas pelos paulistas, mas, tudo bem, acatei o comando daquele metalúrgico que se dizia não ser socialista nem ateu, como eu gostaria.

No mesmo ano de 1980, meritíssimo, aceitei o convite do grupo de Lula para criar e desenhar uma cartilha chamada Documento de São Bernardo, que passo às suas mãos para que inclua nos autos, a qual continha os princípios gerais do movimento político que se reunia em torno da fundação do partido dos trabalhadores. Há neste texto uma defesa explícita de que deveríamos criar um partido de baixo para cima (isso, excelência, página doze, por favor), para evitarmos a corrupção da política pelo poder financeiro e eu acreditava que, para isso, deveríamos construir uma consciência política bairro a bairro, casa a casa, fábrica a fábrica antes de entrarmos em eleições.

Dois anos depois, o partido, já dominado pelo grupo de Lula e José Dirceu, decidiu concorrer nas eleições e eu reclamei contra aquilo que parecia contradizer o princípio fundamental da democracia interna, mas a maioria dos militantes mostrou-me com a indiferença que a porta da rua é a serventia da casa e me desliguei do partido, deixando para trás um painel em sua sede em Belo Horizonte, uma mão negra e de esquerda empunhando as letras PT, pintado por nós artistas militantes com o entusiasmo dos crentes. Isolei-me pelos desencantos, mas, meritíssimo, admito que votei no partido naquelas eleições.

Os anos foram passando e continuei a preferir Lula a outras alternativas que me pareciam obviamente piores como o caçador Collor, que o senhor conhece melhor do que eu, ou outras que apesar de se dizerem social democratas, como o Fernando Henrique, pareciam defender um desmonte radical do estado brasileiro e com isso eu não podia concordar porque, tanto naquela época como hoje, sou um funcionário público, como o senhor meritíssimo, que dedicou a vida inteira a realmente servir o público e acredito que um estado forte seja necessário para conter a ganância do capitalismo. Por isso, apoiei Lula, mesmo quando fazia suas críticas equivocadas ao Plano Real, ao plano de Responsabilidade Fiscal, e à Privatização das Telecomunicações.

Mas minha fidelidade a Lula, ainda que à distância, sofreu um segundo abalo, senhor juiz, quando foi revelado que os principais financiadores de campanha de Lula e de Fernando Henrique eram as mesmas empresas, bancos e algumas empreiteiras que haviam servido à ditadura militar para explorar filões de ouro em benefícios financeiros e em obras superfaturadas. A diferença apenas era a quantidade de dinheiro, mais para o Fernando Henrique, que venceu. E, data velha, meritíssimo, sabemos que manda no eleito quem pagou sua campanha.

Ainda assim, continuei votando no Lula, como milhões de cúmplice que ele tinha na época, especialmente porque ele era contra a reeleição, uma plataforma que eu considerava uma das causas da corrupção, que aliás já se manifestava na própria origem da emenda constitucional que Fernando Henrique fez passar a peso de duzentos mil ouros por deputado comprado. E não é que Lula, eleito, não foi capaz de movimentar sua ampla base parlamentar para revogar a tal reeleição e se depois reelegeu cinicamente?

Minha fidelidade foi diminuindo, meritíssimo, o que não retira minha culpa, reconheço, e comecei a fazer charges contra o Lula assim que ele tomou posse, mas confesso que cada desenho que eu publicava no Diário de São Paulo era uma punhalada em meu próprio peito. No fundo, eu imaginava que um dia ele veria minhas charges e acordaria do feitiço lançado sobre ele pelo José Dirceu e voltaria a ser um metalúrgico e defenderia uma reforma política que retirasse do poder os abutres do congresso brasileiro. Mas, ao contrário disso, Lula se abraçava cada vez mais com eles e trouxe as aves de rapina para dentro do governo, fazendo exatamente aquele tipo de política que criticávamos na fundação do partido, décadas perdidas atrás.

Aí veio a descoberta de que Lula, desculpe meritíssimo, não tenho prova, mas apenas convicção, comprava deputados com mesadas regulares para que aprovassem seu governo. Apesar disso, eu ainda continuei a acreditar que não havia benefício financeiro pessoal para ele ou para seus colegas de governo, e que era apenas um recurso que desaprovo aos meios justificados pelos fins, uma regra do jogo jogado no Brasil há muito tempo.

Para aumentar minha confusão, o país parecia crescer, a miséria parecia se reduzir, 80% da população se tornara cúmplice de Lula e minhas críticas aos métodos petistas eram interpretadas como purismo de pequeno burguês. Como consolo para minha solidão, aderi ao partido dos expulsos do PT que fundaram o PSOL, porque pelo menos meia dúzia de pessoas parecíamos discordar daquele que era “o cara”, segundo um presidente norte-americano.

Apesar de toda minha decepção, Lula tinha na manga uma carta marcada especialmente para atingir o meu coração ao lançar como candidata uma mulher que fora capturada como guerrilheira e torturada na mesma época em que eu era também preso político e estava sendo submetido ao maior julgamento da história do Brasil, desculpe, meritíssimo, julgamento militar, eu quis dizer, pois o presente julgamento de vossa excelência será insuperável para sempre, forever, ever. Como dizia, não havia, para um ex-micro-guerrilheiro urbano como eu, como duvidar da integridade moral e ética de uma pessoa como aquela. Claro! José Dirceu estava a caminho da prisão e por isso Lula se libertara de seu poder hipnotizante e recuperara a coragem de enfrentar os poderosos! Pronto, fui cúmplice de Lula novamente e votei com milhões de brasileiros na Dilma.

Havia outro motivo, aparentemente mais racional: eu ainda acreditava que a administração dos petistas, com exemplos de participação coletiva como na prefeitura de Belo Horizonte, era melhor, menos corrupta e mais eficiente para a população. Fiquei absolutamente indignado quando numa festa um empresário do setor de transportes me disse que sempre pagou propinas, mas que o PT estava indo com muita sede ao pote! Mentira! Respondi com a mesma raiva do amante traído que é alertado por alguém. Mas os ventos da economia começaram a soprar o barco brasileiro para trás e os timoneiros se atrapalhavam nas cordas, mais vela, dizia o comando, já abrimos todas, respondiam os marujos, motor à frente, ordenava a capitã, motim geral, retrucava um pirata chamado Cunha disfarçado de marinheiro. E a água começou a entrar pelos porões, afogando uma parte da segunda classe.

A capitã foi derrubada por um bando de piratas que começaram a lançar ao mar tudo o que eles consideram peso morto, como exemplares jamais utilizados da constituição de 1988, direitos enferrujados dos trabalhadores, reservas indígenas e florestais, proteção ambiental e social. Nosso navio flutua no mar da economia cercado de tubarões do livre mercado, que são alimentados diariamente pelos restos de trabalhadores desempregados.

Não bastasse o barco à deriva, meritíssimo, começaram a vazar também aqueles tubos enferrujados da Petrobrás nas telas da Globo, encanamentos estranhos que faziam ligações entre apartamentos em Guarujá e sítios em Atibaia, e a lama de merda, óleo, cimento e dólares começou a invadir os compartimentos do comando e a atingir todos os bombeiros que supostamente viriam drenar o pântano nos porões da política. Hoje estamos aqui, meritíssimo, nesta situação que eu jamais poderia imaginar e para a qual contribui quando fui a São Paulo para participar da fundação do partido dos trabalhadores.

Confesso minha culpa, senhor juiz, e como estou realizando esta delação voluntária, peço a vossa excelência uma única leniência para com meus crimes: não me coloque na mesma cela que o Lula e nem com Aécio, Temer, Serra, Geddel, Padilha e Moreira Franco, caso um dia eles sejam também condenados.

2 comentários:

  1. Maravilha de texto. Acho que muita gente assinaria embaixo e aqueles que ainda o defendem não perceberam que o porquê dessa defesa é exatamente essa sensação de cumplicidade.

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  2. Obrigado pela solidariedade anônima.

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