terça-feira, 3 de abril de 2018

Por que não publicar este cartum?

Estou impressionado com a barreira de silêncio imposta pelas autoridades em torno das investigações sobre o assassinato de Marielle Franco. Posso estar enganado, mas não me recordo de outra investigação criminal de grande repercussão na mídia sem que nada tenha sido vazado durante cerca de três semanas.

Então, o jornal O Globo mostrou o medo implícito nas declarações de duas testemunhas oculares que ainda não haviam sido interrogadas pela polícia (VER AQUI ) Chamou atenção especialmente o seu relato de que os policiais que compareceram ao local do crime, e identificaram a vereadora assassinada, sugeriram às pessoas que estavam por perto que voltassem para suas casas: “Vocês não têm nada a fazer em casa?”, teriam dito, segundo as testemunhas entrevistadas. Como se desejassem poucas testemunhas do ocorrido.

Minha reação imediata foi fazer o cartum acima. Na verdade, é uma variante de uma tira que publiquei na década de oitenta na Now Sem Rumo, na qual um personagem é condenado a cinco anos por estar diante de um cartaz de protesto contra a ditadura do General Bunker. – Mas eu só li o que havia no cartaz! - reclama o prisioneiro. – Mais cinco anos por participação intelectual! - grita o general.

No entanto, desde ontem um desconforto me impedia de postar o cartum neste blog.

Uma das razões é que parecia estar cometendo alguma injustiça ao atribuir ao interventor militar a responsabilidade direta pelo inquérito policial, que na verdade está sob a responsabilidade da Polícia Civil, apesar de, em última instância, a responsabilidade geral pela segurança no Rio de Janeiro ser do general designado por Temer.

Além disso, o cartum sugere que o general teria interesse em ocultar os assassinos, o que não me parece verdadeiro. Pelo contrário, desde o fim da ditadura, creio que a maioria dos militares tem adotado uma atitude de respeito àquilo que é mais sagrado em sua missão: defender a democracia (ver entrevista do general Villas Bôas na revista Piauí AQUI), ainda que minha visão de democracia possa ser diferente da deles. 

E se o assassinato de Marielle se constitui numa ameaça à democracia, tenho certeza de que os militares compreendem a necessidade de esclarecermos quem a matou, quem mandou matar e porquê.

Então, por que não publicar este cartum?

Talvez porque ele contenha humor (injusto com a maioria dos militares, como disse acima) e o humor alivia a tensão, afasta a angústia, ameniza a dor do sofrimento pela perda de Marielle Franco e o significado político desta morte para nosso país.

Há momentos em que o humor pode contribuir para a banalização do mal.

Portanto, ainda não sou capaz de publicar este cartum, por isto escrevo esta declaração para desconstruir o seu humor.

Revogue-se o cartum.

Desimprima-se. 



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