sábado, 3 de fevereiro de 2018

Nilson, o Guevara dos quadrinhos

O garoto de doze anos pobre e magrelo esperava na praça da pequena cidade mineira de Raul Soares pelo olhar da menina rica, para quem ele enviara uma desesperada carta de amor alguns dias antes sem saber se ela a havia recebido. A menina passou conversando com as amigas como se ele não existisse. Ele ultrapassou o grupo e se postou diante dela para uma segunda chance de que ela o visse, mas ela não reconheceu o colega de sala na escola da cidade e seguiu adiante. Ele correu em lágrimas de volta para casa e em mudo desespero decidiu acabar com a própria vida. Chupou uma manga, comeu uma goiaba, tomou um copo de leite e entrou no chuveiro. Nada aconteceu. Naquele dia o garoto acumulou dois grandes traumas: ser ignorado pela menina dos seus olhos e perder a confiança nas verdades sagradas que seus pais diziam. Talvez aquele momento tenha sido de revelação das incertezas do mundo, que passaram a fazer parte do excelente humor do cartunista Nilson.

Conhecia os cartuns do Nilson no Pasquim, mas apenas em 1975 o encontrei pessoalmente, quando comecei a publicar cartuns e textos no jornal Estado de Minas e marcamos de nos encontrar durante um plantão que eu cumpria como médico da Unidade de Terapia Intensiva no Hospital Socor. Conversamos uma noite inteira em animada descoberta mútua, nos intervalos dos atendimentos e rotinas hospitalares, e amanhecemos como dois amigos de infância que continuamos a ser até hoje. Nunca brigamos, nunca duvidamos um do outro: eu amo meu amigo Nilson.

Quando eu ainda engatinhava na política, Nilson parecia saber tudo sobre cartuns, quadrinhos, história do Brasil, literatura, cinema, política, Che Guevara, Fidel Castro, tupamaros, motoneros[i], psicanálise, comida mineira e ideologia, além de ser encantado por mulheres bonitas, pelas quais se tornava imediata e fulminantemente apaixonado assim que as acabava de conhecer (ou ver num filme ou na televisão), o que resultava numa bela paixão por semana, pelo menos.

Nilson é uma pessoa fascinante, que transforma sua fragilidade corporal, agravada pela hipocondria, em gigantismo pessoal quando assume um tema ou um desafio intelectual. Ele tem sido capaz de se manter vivo e coerente, trabalhando para sindicatos, associações populares, entidades beneficentes e movimentos políticos de esquerda, sempre resistindo aos apelos da grande imprensa e da publicidade e afastado de qualquer objetivo financeiro por sua convicção cristã de que há virtude na pobreza e na solidariedade.

Desde aquele plantão, passei a encontrar regularmente o Nilson e com ele aprendi muito sobre a arte dos quadrinhos e do cartum, além da mais rigorosa ética do cartunista: jamais criticar aquele que está em desvantagem, a vítima, mas sempre atacar seu opressor, ou seja, o mais forte.

Assim que nos conhecemos, fui acometido por mais uma de minhas crises de coletivite, uma espécie de neurose crônica que resulta na obsessão por formar grupos democráticos destinados a promover o bem da humanidade, o que fez com que conseguíssemos a ampliação da coluna no jornal (que eu escrevia e desenhava com o Procópio, outro médico e humorista mineiro) para uma página semanal, na qual reunimos diversos cartunistas de Minas Gerais, cujo nome se tornou HUMORDAZ.

A página começou a ser publicada em outubro do mesmo ano, e além do Procópio e eu, contava com as colaborações dos vários cartunistas mineiros (Procópio, Afo, Dirceu, Clacchi, Mario Vale, Aroeira) que não haviam ainda migrado para o Rio de Janeiro ou São Paulo em busca de oportunidade de trabalho nos grandes jornais da época. No grupo destacava-se o veterano Nilson, já conhecido como desenhista de charges e quadrinhos, especialmente pelas suas tiras “Negrim” (uma adaptação da lenda “O negrinho do pastoreio”) e “A Caravela” (uma sátira à chegada dos portugueses ao Brasil).




Capa de uma coletânea com as tiras da “A Caravela”

Nas reuniões preparatórias para as páginas do Humordaz, Nilson era sempre combativo, defendendo posições socialistas, manifestando sua admiração por Fidel Castro e Che Guevara, o que dava um tom mais à esquerda ao grupo, apesar de vivermos em plena ditadura militar, ano em que o jornalista Vladimir Herzog seria assassinado numa cela do DOI-CODI de São Paulo.

As dificuldades com a censura interna no jornal Estado de Minas e com a censura da Polícia Federal em Brasília dificultavam enormemente nosso trabalho, agravando nossa inabilidade para a parte comercial de produzir e distribuir o Almanaque do Humordaz, uma publicação mensal que pretendia atingir um público semelhante ao do Pasquim.

Com a ameaça financeira sobre nossos ombros desistimos de continuar publicando a página no jornal e o Almanaque. Em 2015, com outras pessoas (Aragão, Angelo Machado, Rafael Sete, Batista e outros), desta vez sem o Nilson, porque ele não utiliza os meios eletrônicos para seu trabalho, tentamos reviver o Humordaz numa página na internet (ver aqui: http://ohumordaz.blogspot.com.br/ ), mas o déficit de juventude no grupo não garantiu sangue novo o suficiente para evitarmos a fadiga e seguirmos adiante.

Com o fechamento do Almanaque do Humordaz pela censura, Nilson e eu tentamos formar outro grupo de cartunistas, o “Grupo Mineiro de Desenho”, que incluía o Aroeira e outros desenhistas mais novos. O GMD participou de algumas publicações políticas e foi parte do primeiro Curso de Quadrinhos promovido pela Secretaria de Cultura de Minas Gerais (ver cartaz abaixo), realizado em setembro de 1978. A partir do curso, para o qual colaboraram Henfil, Laerte, Eliphas Andreatto, Jô Oliveira, Dagomir Marquezi e Edgar Vasques, reunimos material para novos cursos que Nilson e eu ministramos em Curitiba, Pernambuco e Salvador.




Nossas ideias na época sobre quadrinhos, cartuns e política estão resumidas num livrinho delicioso com textos do Nilson e meus chamado “Qualé a do Batman?” (quem desejar uma cópia mande-me um e-mail que enviarei um pdf).

Enquanto procurávamos divulgar nossas ideias sobre quadrinhos e cartuns, Nilson e eu nos integramos a um grupo ecleticamente político - formado por padres e ateus, socialistas e sindicalistas, operários e intelectuais, jornalistas e líderes de associações de bairro, militantes de organizações de esquerda e estudantes universitários, – todos unidos em torno do objetivo comum pela emancipação dos trabalhadores, formando a Fundação Centro de Estudos do Trabalho, conhecida como CET.

Localizado num escritório alugado no Bairro do Barreiro, para que ficássemos mais próximos da classe operária, os participantes do CET entenderam que suas ações políticas poderiam contar com a ajuda dos cartunistas, os quais poderiam transformar temas complexos da luta de classes em cartilhas de fácil entendimento popular. Além disso, esperavam que a ditadura militar demorasse mais a perceber as intenções revolucionárias se elas estivessem despidas dos jargões comunistas tão conhecidos e fossem embaladas em inocentes desenhos de humor. Estes objetivos foram repassados a mim e ao Nilson, que aceitamos o convite para contribuir para aquela causa, que nos parecia justa e necessária, e realizamos diversos cadernos educativos para os trabalhadores.




Em 29 de abril de 1979 a sede do CET havia sido invadida pela Polícia Federal, que confiscou todas as edições sob a acusação de que eram publicações clandestinas, o que não era verdade. Além disso, a sede foi saqueada e dois companheiros Gilson e Luiz Henrique foram presos por um ou dois dias. Em seguida, alguns dos militantes do CET aderiram ao Partido dos Trabalhadores e os Cadernos do CET encerraram suas publicações em 1982, depois de mais de uma dezena de edições e milhares de exemplares que eram distribuídos de mão em mão entre os trabalhadores de várias partes do Brasil.

Na mesma época desenhei uma história em quadrinhos chamada “Retrato Falado” para a qual Nilson escreveu o prefácio e desenhou uma caricatura nossa, que traduz nosso velho amor.



Desenho do Nilson para o meu livro Retrato Falado

Atendendo a um convite do Henfil, Nilson foi morar com ele em São Paulo, onde dividiram um apartamento durante algum tempo. Apesar da companhia fulgurante do Henfil, a solidão opressiva das multidões paulistanas sufocou Nilson e ele retornou para Belo Horizonte chamuscado pelo insucesso de sua tentativa de conseguir trabalho entre a pauliceia. E, de lambuja, trouxe uma grande mágoa do Angeli, de quem se tornara desafeto por causa de críticas que o Angeli fazia ao seu trabalho engajado nas causas operárias.

Quando Henfil ficou doente, Nilson organizou uma ação coletiva entre os cartunistas mineiros e intelectuais (já comentei AQUI), durante a qual procuramos angariar fundos para o tratamento do Henfil que agonizava por causa da AIDS contraída em transfusões de sangue em decorrência de sua hemofilia. Nilson foi um dos mais fiéis amigos do Henfil.

Nos caminhos da vida perdemos nosso contato amiúde, mas conservamos o calor de nossa grande amizade, que se renova a qualquer pretexto, como durante o movimento que organizamos para apoiar os cartunistas assassinados do Charlie Hebdo (VER AQUI).

Recentemente houve uma homenagem ao Nilson ( VER AQUI) e um grupo de cineastas me pediu para participar de um documentário sobre o Nilson, que será filmado em 2018, então comecei a pensar nele e sobre o que teria a falar sobre seu trabalho e estas memórias foram surgindo. São algumas das muitas histórias que temos juntos.

Enquanto a maioria dos cartunistas reformulou sua pauta diante dos novos tempos da internet e da globalização pós Muro de Berlim, Nilson manteve a sua pena voltada contra os patrões e a favor da classe trabalhadora como cartunista no Sindicato dos Eletricitários de Minas Gerais.





Como seu ídolo Chê Guevara, resistindo com sua guerrilheira mente, Nilson permanece lutando contra a injustiça social, desde os aspectos econômicos da desigualdade até o desprezo da menina rica incapaz de reconhecer um garoto pobre numa praça de Raul Soares.

Em 1980, o jornal Correio Brasiliense publicou uma entrevista comigo a propósito do Salão de Humor Criaturas, promovido pela Funarte, do qual eu participava como um dos expositores. Referindo-se à jornada de cursos e palestras sobre a ideologia dos quadrinhos que Nilson e eu vínhamos fazendo por diversas cidades brasileiras, o jornal denominou-me “guerrilheiro do humor”. Desde sempre, acho que o título pertence, por merecimento, ao meu amigo Nilson.






[i]
Tupamaros eram guerrilheiros de esquerda no Uruguai, grupo ao qual pertencia Jose Mujica, que seria preso e torturado durante anos a fio e depois se tornaria presidente do país. Motoneros eram guerrilheiros semelhantes na Argentina. Ambos foram derrotados pelos militares nas décadas de setenta e oitenta.

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