segunda-feira, 26 de junho de 2017

Cem anos completaria hoje nosso querido Sálvio

Sálvio ao lado de seu retrato pintado por Inimá de Paula.



É possível genro e sogro se tornarem amigos? Pois foi o que aconteceu comigo, com uma pessoa especial chamada Sálvio de Oliveira, pai da Thalma e avô de minhas filhas Ana, Maria Helena e Luíza.

Conheci Sálvio um pouco depois de Thalma e eu nos casarmos em 1975, após cerca de ano e meio de namoro apaixonado em que fomos misturando nossas vidas e nossa arte. Com ela, realizei minha primeira exposição de desenhos, que aconteceu em Florianópolis, sob a organização do Sálvio, que administrava uma galeria de arte depois de retornar de Portugal, decepcionado que estivera com a desordem causada pela Revolução dos Cravos, que devolvera havia pouco a democracia aos portugueses que por décadas viveram sob a ditadura fascista de Antônio Salazar.

Thalma já realizara outras exposições de seus desenhos, sendo inclusive premiada nacionalmente numa delas, mas aquela foi minha primeira oportunidade de mostrar meus desenhos e, seguindo a orientação do Sálvio, procurei fazer algo que fosse menos cartum e mais artes plásticas. Criei uma série de desenhos a partir de uma espiral colocada livremente sobre o papel, a partir da qual desenvolvia o restante da imagem, geralmente mulheres em diferentes poses, para os quais Sálvio inventou títulos divertidos como: “Tias, doces tias, o que quereis ainda? ”.

Somente o grande talento comercial do meu sogro (e com o tempo cada vez mais amigo do que sogro) conseguiu vender alguns de meus desenhos, o que adiou minha conclusão definitiva de que desenhos de humor não servem como quadros na parede, pois é insuportável ver a mesma piada todos os dias.

Além da habilidade de marchand, Sálvio era uma pessoa inteligente, culta e de um humor crítico e afiado, especialmente quando dirigido às vulgaridades provincianas nas quais todos nós incorremos.

Sálvio trazia em sua história pessoal as experiências típicas de sua geração, aquela que viveu o seu auge profissional na década após a Segunda Guerra Mundial, na transição da Era Vargas para as modernidades de Juscelino Kubistchek, de quem foi assessor cultural indireto pelas mãos do Ministro da Cultura e seu amigo Paschoal Carlos Magno.

Sálvio, amante do teatro, dirigiu e produziu peças no Rio de Janeiro (Teatro Duse) e em outras cidades, oportunidades nas quais despontaram alguns dos grandes talentos artísticos dos palcos brasileiros, como Teresa Rachel e Othon Bastos, mas, em especial, a sua ex-mulher Gilda Miranda Sarmento de Oliveira e mãe de seus filhos Perla, Thalma e Jano. Gilda, dotada de talento artístico e humorístico, se tornou uma das atrizes mais famosas de Porto Alegre, principalmente em programas de rádio na década de sessenta, e depois trabalhou em diversas novelas da Rede Globo.

Dezenas de artistas plásticos devem ao Sálvio um apoio inicial e fundamental em suas carreiras, inclusive eu, pois os palpites do Sálvio em meus desenhos ajudaram-me no amadurecimento e na busca do humor original, a arte que contenha emoção, ideias e trabalho técnico. Era um prazer mostrar um cartum para ele, sempre sensível e perspicaz.

Sálvio faleceu há mais de duas décadas, mas lembro-me dele todos os dias, em objetos que nos legou, em livros, fotos e quadros, mas especialmente naqueles traços de inteligência e sagacidade que transmitiu à Thalma e minhas filhas.

Um beijo saudoso, Sálvio.

Lor

Um comentário:

  1. Eu sou neta do Sálvio. Não estava viva na fase das exposições e das galerias. Mas eu conheci o Sálvio meu avô. E que falta ele faz.
    Sinto falta de suas manias exóticas, como sanduíche de empada, tomar sol com tempo contado e sua fascinação irritada por TV Colosso. Lembro muito de suas opiniões ferinas, suas discussões com o Jornal Nacional, onde ele, do lado de cá da TV, chamava de burro o jornalista do lado de lá.
    Sempre me considerei sua preferida, a gente se entendia. Eu tinha um outro avô tradicional, médico, que só falava de trabalho e responsabilidade. Ele era esse ponto de caos na minha vida, sempre inventando, criando, rindo e tendo raiva. Mostrando que a diferença é a raiz da criatividade. Amei muito ele, e sinto muito sua falta. Parabéns, tio.

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