quarta-feira, 19 de setembro de 2018

DESENCONTRO MARCADO é nesta quinta!

Renovo meu convite para a conversa sobre humor, medicina, ciência e política que teremos na OAP nesta quinta (20/9) às 16 horas.


terça-feira, 18 de setembro de 2018

A maioria das pessoas que pensa em votar nele...

... está com raiva por causa da corrupção que aconteceu em quase todos os partidos, mas não quer fuzilar os adversários.

... sente que a democracia tem falhado em muitos aspectos, mas não quer torturar presos políticos.

... sofre com a crise econômica que atingiu o mundo desde 2008 e foi agravada pelos últimos governos, mas sabe que não se resolve o desemprego com fuzis.

... é contra as cotas na universidade, apesar de não ter precisado delas, mas não quer enforcar os negros.

... é formada por homens que se sentem inseguros diante do feminismo, mas não quer estuprar as mulheres.

... teme que seus filhos se tornem homossexuais, mas não quer mandar gays e lésbicas para campos de concentração.

... possui valores religiosos e morais que se chocam com as teorias científicas, mas não quer queimar professores nas fogueiras.

... defende o respeito pela pátria e os símbolos nacionais, mas não quer transformar o Brasil num quartel.

... tem medo de sair de casa por causa da violência, mas não quer executar presos com as próprias mãos.

... pensa que possuir armas a tornaria mais protegida, mas não quer que seu filho sofra um acidente com a arma em casa.

... ouviu dizer que a constituição brasileira defende demais as minorias, mas não quer acabar com os direitos dos portadores de deficiência.

... acha que a proteção ambiental atrapalha as empresas e os negócios, mas não quer ingerir alimentos com agrotóxicos.

... desconfia que as urnas eletrônicas podem ser fraudadas, mas não quer anular a eleição se seu candidato vencer.

... acha que um presidente pode mudar a constituição sem consultar a população, mas não quer perder o direito ao SUS, nem os direitos trabalhistas, nem os procuradores públicos que trabalham na Lava Jato, nem a aposentadoria e outros direitos da Constituição de 1988.

... acredita que um presidente pode resolver sozinho todos os grandes problemas do Brasil, mesmo sendo alguém que nunca administrou nada além do próprio salário de deputado, mas se confunde para saber quando um problema é do governo federal, ou do estadual, ou do municipal.


Esta maioria de pessoas que pensa em votar nele é formada por pessoas que se parecem exatamente com a maioria das pessoas que pensam em votar nos outros candidatos.

Mas as minorias gritam em nossos ouvidos seus discursos de ódio e eles nos separam, fazendo com que um se torne o demônio do outro.

Demonizamos a política.

Precisamos parar com isso, porque divididos pelo ódio TODOS PERDEMOS e não há heróis numa guerra entre irmãos.

Continuaremos obrigatoriamente juntos depois das eleições e por isso o Brasil deve ser um projeto construído por todos, sem exceção.



segunda-feira, 17 de setembro de 2018

50: motivos para votar


Primeiro, por Marielle Franco, pois se estivesse viva estaria votando no PSOL nestas eleições. Completamos seis meses sem esclarecimento de quem a matou e quem mandou que a matassem. Meu voto é em apoio aos direitos humanos que ela defendia.

Também em homenagem ao desempenho de parlamentares como Luíza Erundina, Chico Alencar, Jean Wyllys, Ivan Valente, Áurea Carolina e outros do PSOL que têm proposto pautas civilizatórias no Congresso Nacional e nas cidades brasileiras.

Pelo fato do PSOL ser um partido que tem um programa em defesa da cidadania e da liberdade. Desejo uma forma de sociedade democrática em que o esforço político deve ser para a construção progressiva de um estado eficiente para diminuir desigualdades e corrigir injustiças (ver aqui algumas ideias do PSOL na entrevista do candidato Boulos para a CBN: http://g1.globo.com/videos/v/guilherme-boulos-psol-e-entrevistado-pelo-g1-e-pela-cbn/7023057/ )

Sim, sim à liberdade de pensamento, de autonomia para escolhas pessoais em todos os campos, desde que não afetem a liberdade dos outros. Liberdade como bandeira para enfrentarmos o racismo, o medo do estrangeiro e os nacionalismos retrógrados. Liberdade nas fronteiras ao trânsito das pessoas (porque para o capital já não existe qualquer barreira).

Como professor, voto em defesa da educação de qualidade, crítica e construtiva para todos, porque a educação é uma das forças mais importantes para o desenvolvimento humano, especialmente na redução da violência, como mostra o livro do Steve Pinker "Os anjos bons de nossa natureza - por que a violência diminuiu", uma leitura importante e que transformou muitas das minhas ideias científicas e políticas VER AQUI).

Além disso, no primeiro turno votarei em mulheres, pois é preciso que elas sejam representadas na política em igualdade com os homens: Sônia Guajajara (vice-presidente), Dirlene (governadora), Sara (vice-governadora), Duda Salabert (senadora), Aurea Carolina (deputada federal) e Polly do Amaral (deputada estadual).


Votarei também em Dilma para senadora, apesar de não concordar com a maioria das suas ações no governo, como uma espécie de voto de protesto contra os quatro graves erros do PSDB, como disse o seu próprio presidente Tasso Jereissati : 1) ter contestado de forma antidemocrática o resultado das eleições de 2014, 2) ter apoiado as pautas-bomba do Eduardo Cunha no congresso que inviabilizaram o governo Dilma, 3) ter embarcado no governo do corrupto Temer e 4) ter apoiado Aécio Neves 
(Ver aqui as declarações na checagem da Folha de São Paulo).

No segundo turno, votarei contra as ideias Ulstra-passadas de Bolsonaro.


domingo, 16 de setembro de 2018

Meus pecados originais



Fui educado no cristianismo para acreditar que fomos expulsos do Paraíso e porque éramos pecadores deveríamos nos penitenciar para um dia merecermos estar de volta ao reino da felicidade eterna. Ou seja, a natureza humana seria má e a religião nos converteria ao bem.

Para salvar a humanidade parecia-me válido colonizar indígenas e povos pagãos e lutar contra o comunismo supostamente ateu e devorador de criancinhas. Haveria algumas vítimas inocentes, os chamados efeitos colaterais, mas os fins justificariam os meios.

Na juventude fui exposto às ideias de Marx, que me convenceram de que o Paraíso era a vida selvagem onde havia o comunismo primitivo, de onde fomos expulsos pelas sociedades de classes, e deveríamos nos livrar do capitalismo para recuperarmos o reino da paz eterna numa nova sociedade de trabalhadores. Ou seja, a natureza humana seria boa e a luta de classes expulsaria todo o mal.

Então, para salvar a humanidade, no meu humanismo socialista parecia-me válido fazer guerras, revoluções armadas e lutar contra o estado burguês, a família e a propriedade privada. Sim, haveria algumas vítimas inocentes, outros efeitos colaterais, mas os fins justificariam os meios.

Na vida adulta, em função da minha formação científica, convenci-me de que somente a ciência poderia revelar a verdadeira natureza humana. De início, os fatos científicos contestavam fácil e confortavelmente as minhas ideias cristãs primitivas, reforçando minhas convicções ateístas. No entanto, a mesma ciência começou também a questionar meu humanismo socialista, revelando-me, por meio de leituras da história e da antropologia, que nossas comunidades primitivas não habitavam o paraíso de direitos humanos que me haviam sugerido as leituras marxistas.

Além disso, e principalmente, abalou-me profundamente saber que as revoluções iniciadas a partir de ideias socialistas terminaram em regimes comunistas autoritários e violentos (União Soviética, China, Camboja, Coreia do Norte, Cuba), com um saldo de milhões de mortos em expurgos, extermínios, guerras ou planos econômicos fracassados.

Desta forma, plantou-se em mim a dúvida sobre a verdadeira natureza humana: seria má, portanto fadada à violência, às guerras e aos genocídios, ou boa e destinada ao altruísmo, à paz e aos direitos humanos?

Ontem, terminei de ler o livro do cientista canadense Steve Pinker “Os anjos bons de nossa natureza – por que a violência diminuiu” [1], um presente carinhoso de minha filha Ana, e compreendi melhor a visão científica da natureza humana: nem boa, nem má, mas evolutiva[2]. Somos animais que evoluíram dentro das mesmas condições determinadas pela evolução natural das outras espécies e que respondemos às variadas situações do ambiente com comportamentos selecionados ao longo dos tempos, os quais permitiram nossa sobrevivência. Entre estes comportamentos, como consequência da evolução da nossa característica típica de animais sociais, desenvolvemos diferentes formas de culturas que deram origem às civilizações, entre elas a atual.

A partir da compreensão de que nossa natureza humana é evolutiva, Pinker tenta compreender porque vivemos numa época de menor violência em todos os sentidos, incluindo homicídios, guerras, genocídios, estupros, violência contra as mulheres, negros, homossexuais e animais. Por exemplo, ele compara as tribos primitivas do meu Paraíso (cristão ou socialista), nas quais os homicídios aconteciam ou ainda acontecem em taxas acima de 200 mortes por 100 mil habitantes, com a Europa atual que apresenta taxas de cerca de 1 homicídio por 100 mil habitantes. O Brasil mesmo, que nos parece tão violento, registrou neste ano de 2017 cerca de 30 homicídios por 100 mil habitantes. Portanto, menor do que a maioria das tribos e culturas anteriores ao século XV.

Por que aconteceu esta redução da violência nos últimos 500 anos, mesmo incluindo os milhões de mortos nas duas Grandes Guerras, nos expurgos de Stalin, na Revolução Cultural da China e nos genocídios nazistas do Século XX? Pinker nos apresenta várias hipóteses para a tendência desta redução da violência, as quais ele analisa obsessiva e cientificamente: o surgimento dos estados, o livre comércio, a invenção da imprensa, o Iluminismo e a Idade da Razão, a criação da democracia e a revolução dos direitos humanos, entre outros.

Uma de suas informações importantes se refere ao papel das ideologias (religiosas, comunistas e nazistas) nos surtos de violência na humanidade, pois os dados científicos apresentados por Pinker sobre a violência humana demonstram nossa terrível capacidade de cometer atrocidades quando somos convencidos a acreditar em coisas absurdas (como a pureza das raças ou os paraísos cristão e comunista).

Perdi meus Paraísos, mas encontrei uma proposta de sociedade pacífica possível de ser construída cotidianamente, buscando-se o fortalecimento da democracia, a educação para todos (especialmente científica), o autocontrole e o respeito aos direitos humanos.

A propósito, Pinker mostra que uma das causas de violência são os governos que perdem a sua credibilidade, como parece estar acontecendo com os frangalhos de autoridade que restam ao golpista Temer e sua quadrilha.

Aliás, Trump e Bolsonaro precisam ler este livro.






[1] Sim, eu também não acreditei no título.


[2] https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13271