domingo, 17 de junho de 2018

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Sacrifícios humanos



Existir injustiça

Não justifica

Sua existência 



Hay Kay #2018



Vejo a descoberta de um sítio arqueológico no Peru com mais de uma centena de corpos de crianças que tiveram seu coração arrancado num sacrifício religioso para aplacar a ira dos deuses para que assim eles interrompessem as enchentes devastadoras (VER AQUI).

Quando se sabe que as chuvas torrenciais naquela região são causadas periodicamente pelo fenômeno El Niño (VER AQUI), aumenta o sentimento de absurdo e tristeza pelo sofrimento daquelas crianças e daqueles pais que assassinaram filhas e filhos, convictos de que estavam fazendo a coisa certa.

Hoje pode parecer uma atitude estúpida, mas reproduzimos outras condutas tão irracionais quanto diante de nossas tempestades atuais: o aquecimento global, a desigualdade econômica, o racismo, o consumismo e a ideologia da competição e do Mercado.

O argumento que ouço para que continuemos a viver nesta sociedade de classes, desigual, racista, injusta e competitiva é de que “sempre foi assim”, fazer o quê?

De fato, se durante séculos oferecemos crianças em sacrifício aos deuses nas mais variadas culturas (por exemplo, Abraão na Bíblia, VER AQUI) talvez pareça natural para muitos que continuemos a sacrificar a vida de milhares de crianças, retirando verbas para sua saúde, educação, nutrição, lazer e segurança, para aplacar a ira do deus Mercado e melhorar a crise econômica.

A mim esta solução parece tão injusta, cruel e estúpida quanto aceitar que 1% das pessoas possua mais da metade da riqueza de toda a humanidade, que o capitalismo promova a sexta extinção em massa e que sejamos mantidos dopados e dependentes de smartfones e jogos competitivos.

Quando compreenderemos o fenômeno El Niño?



terça-feira, 12 de junho de 2018

A vida é um algoritmo imperativo?



Leio que o Facebook (para quem não conhece é uma grande empresa que explora as redes sociais) criou uma comissão de especialistas para verificarem se uma notícia é falsa ou não. Como os conservadores norte-americanos reclamaram que a comissão descobria mais fakenews nos sites de direita, o Facebook demitiu os especialistas e os substituiu por um algoritmo (sic The Guardian). Isso foi antes da eleição do Trump, o que nos diz um pouco sobre a eficiência do algoritmo para detectar mentiras naquela rede social.

Mas o que vem a ser um algoritmo? Como um dispositivo destes seria capaz de detectar mentiras? Ouso compreender a primeira dúvida; a segunda, deixo para o Juliano Viana e seus colegas do aprendizado de máquinas.

Descubro (nos algoritmos de busca do Google) que algoritmo é um conjunto das regras e procedimentos lógicos que levam à solução de um problema num determinado número de etapas para serem executadas mecânica, eletronicamente ou por um ser humano. Lá também encontro que a palavra não tem uma etimologia bem definida, o que me faz escorregar para a fantasia de que “algo” tem a ver com “algia”, ou seja, “dor” em termos médicos, e concluo que algoritmo poderia ser o ritmo da dor, uma palavra que descreveria perfeitamente o fluxo de sofrimento dos seres humanos submetidos a este experimento sem sentido chamado vida.

E é com este significado que me pergunto se a vida seria um algoritmo imperativo, ou seja, um desenrolar de regras e procedimentos lógicos no qual nada me resta senão seguir o fluxograma de opções, sobre as quais talvez não tenha realmente escolha, como o jovem negro no cartum?

Em outras palavras, tenho livre arbítrio? Ver outro post sobre esta dúvida AQUI.

Se não tenho escolhas e cada passo meu está condicionado pelos acontecimentos anteriores, desligo este computador e vou tomar uma cerveja, cuidar do meu prazer e esperar a morte chegar, reconhecendo que não passo de um desimportante ser humano qualquer, o que pode ser um alívio, afinal de contas. Irresponsabilidade com o futuro seria o resultado, uma vez que ele não está mesmo em minhas mãos.

Mas se posso escolher em alguma medida o meu caminho, então o ato de pensar e decidir assume importância enorme no sentido geral da própria vida e, por extensão, da sociedade da qual faço parte. O futuro passa a fazer parte do presente, sobre o qual assumo algum grau de controle. Isto me tornaria responsável pelos meus atos e inclusive constitui a premissa de todo o nosso sistema jurídico.


Robert Sapolsky nos coloca diante deste dilema em seu fantástico livro “Behave” (ver aqui seu TED muito interessante) e apesar de demonstrar durante quase todas as setecentas páginas que nosso comportamento é resultado de fatores condicionantes múltiplos e complexos, conclui que é possível haver mudanças no algoritmo, mudanças estas que fazem a diferença no caminho da humanidade. 

No entanto, seus exemplos de pessoas que decidiram mudar o seu destino e assim mudaram a história, como Nelson Mandela, são tão excepcionais que fico em dúvida se o cidadão comum e mediano como eu seria capaz de saltar fora do algoritmo da vida e agir de forma descondicionada.

Pela via do pensamento, não consigo descobrir como poderia agir de forma diferente dos meus determinantes históricos (geológicos, evolutivos, 
genéticos, biológicos, econômicos, sociais, culturais,  educacionais) sem ser considerado psiquiatricamente desajustado.

No entanto, no cotidiano, não consigo viver de outra forma que não seja assumindo responsabilidade pelas escolhas, como se eu estivesse realmente no controle da minha vida e tivesse livre arbítrio.

Acho que fui condicionado a pensar que sou livre. 









segunda-feira, 11 de junho de 2018

Os pesadelos não envelhecem?

Quando menino passei a acordar aterrorizado no meio da madrugada por hordas de nazistas que invadiam minha pequena cidade de Lambari, depois que tive permissão para ver os filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. 

Na juventude, passei a viver sob a ditadura militar brasileira, cujo clima de medo e delação permeava o cotidiano das pessoas que se mantinham distantes das botas e não se aproveitavam dos privilégios que a onda autoritária espalhava entre seus cúmplices. Meus pesadelos incorporaram os agentes da repressão aos nazistas em invasões noturnas em que minha família era aprisionada e éramos torturados.

Estes sonhos de aflição, que estiveram esparsos nos últimos anos, voltaram a ser frequentes desde a mudança social que se desenrola no país a partir das manifestações de junho de 2013, quando o surto de redemocratização iniciada na década de oitenta se desmanchou na ruptura dos laços frágeis entre a população e sua representação política. A insatisfação geral acumulada pela decepção, desigualdade e falta de caminhos alternativos acredita cada vez menos nos canais institucionais de expressão e o ódio domina as faixas nas ruas e nos aplicativos celulares.

Agora, meus invasores noturnos exibem mandados de prisão emitidos em massa pelo presidente militar, que teria sido eleito nas próximas eleições por uma pequena diferença de votos em meio a uma grande indiferença da população, a qual usou seu voto nulo como protesto contra a política em geral. 

Na angústia onírica que me assalta às noites, os novos inquisidores vêm prender minha filha que defende os direitos humanos, o feminismo, a descriminalização das drogas, a saúde pública, a juventude pobre e os sem teto. Inimiga pública das bandeiras e hinos nacionais, declaram os policiais.

Tento lutar contra eles, mas estou velho, perdi as forças e meus braços são quebrados como se fossem taquaras secas pelo cassetete de um dos homens musculosos, todos eles treinados em academias, arrogantemente disciplinados em uniforme de campanha, que pisam duro com seus coturnos pretos e parecem falar alemão. Eles são jovens, brutos e brancos, explicitamente violentos, que encontram prazer em matar. Eles não envelheceram desde a Segunda Guerra Mundial.

Não há mais tempo, acordo encharcado de suor, não há mais tempo! - grito na solidão de meu quarto, para evitar que o pesadelo de um velho se transforme em realidade.





domingo, 27 de maio de 2018

Conto do FR4NC1SC0 S3TT3





Bolinha Bicanivorus e Pintolinha Minhoquivorus


Bolinha Bicanivorus e Pintolinha Minhoquivorus são animais agitados e meio malucos. Pintolinha Minhoquivorus é mais agitado que Bolinha Bicanivorus. Isso torna difícil para Pintolinha Minhoquivorus se cuidar (já que não tem calmantes no reino animal de Bolus). 

Nossa história começa com um animal que foi convertido pela Boláquina (uma máquina capaz de transformar qualquer animal em praticamente uma bola viva) e o primeiro animal mostrado desta saga de historias é Bolinha Bicanivorus com seu bebê Pintolinha Minhoquivorus. 

A mãe coloca cinco ovinhos em cima de uma montanha e quando nascem olham para baixo e se escondem na casca do ovo novamente. A mãe que está em cima da montanha, chuta os filhinhos (não é por mal, é que esta espécie é muito louca). A mãe vê que os derrubou e vai atrás deles. No final do morro, os filhos estão agitadíssimos por causa da descida e frustrados por causa da mãe os ter empurrado, mas a mãe, sem maldade alguma, coloca-os embaixo de sua cama de penas, que preparou enquanto estava à espera dos filhos. 

Depois de um tempo, a mãe e os cinco filhos fazem uma viagem de caminhão e ela os coloca em um avião para o outro lado do mundo.
Durante a viagem, eles lutam para não serem jogados do avião pelo comissário de bordo, e todos sabem que nem galinha nem pintinho voam, NÉ? (o que inclui o Bolinha Bicanivorus e o Pintolinha Minhoquivorus porque são a adaptação da galinha e do pintinho). 

Depois da longa viagem em um ônibus até uma fazenda, Pintolinha Minhoquivorus vira Bolinha Bicanivorus, que acaba, depois de 10 anos sendo engordada (claro que no meio da viagem de ônibus e de avião Pintolinha Minhoquivorus come as migalhas de pão, biscoito, etc.), dobra de tamanho e fica muito gorda feito uma bola e morre sendo ceia de natal para a gente. 

(Este  pequeno texto e o desenho foram completamente criados pela cabeça de Francisco).


          Fim da primeira história da saga.

sábado, 26 de maio de 2018

O medo de uma caricatura de político


Recebi hoje a edição de maio de 2018 do jornal MARCO produzido por estudantes de jornalismo da PUC Minas. Fiquei muito bem impressionado com a qualidade e seriedade das matérias. 

Em meio a uma pauta repleta de temas importantes e polêmicos, nesta edição do MARCO há uma reportagem sobre como alguns cartunistas mineiros veem a internet e Duke, Carlos Panhoca e eu fomos os entrevistados.

Bruna Bentes, João Pedro Junqueira e Clara Mariz, estudantes de jornalismo, vieram ao meu estúdio há algumas semanas e conversamos sobre diversos assuntos, entre os quais os entrevistadores selecionaram algumas falas e cartuns que foram reproduzidos no seu jornal.

Houve um momento em que eu explicava as diferenças entre charge e cartum: a primeira é relacionada a um fato do momento, por exemplo, neste momento seria um comentário sobre a greve dos caminhoneiros, como na charge acima.

Já um cartum trata de temas mais duradouros, onde as referências do leitor estão presentes por mais tempo numa determinada cultura. Como o exemplo abaixo, que Bruna, João e Clara reproduziram no MARCO. 







Para exemplificar a diferença entre charge e cartum mostrei aos estudantes uma charge que publiquei no Diário Popular (SP) em 1993. 


E perguntei aos estudantes: Quem é este personagem? 
Eles não reconheceram de imediato. 
Depois que lembrei seu nome, disseram: - Ah, aquele que foi Presidente da República! 

Imagino duas principais causas para esta dificuldade em reconhecer Itamar Franco que podem ser, primeiro, a minha incapacidade de fazer uma boa caricatura e, segundo, a idade dos estudantes, que não ainda não haviam nascido quando a charge foi publicada. 

A primeira causa pode ser analisada com a foto do Itamar ao lado e me parece que a caricatura não esteja tão longe assim do retratado. De qualquer forma, esta incompetência do caricaturista não pode ser descartada.

A outra hipótese, então, como causa da perda de sentido daquela charge do Itamar para os jovens atuais, seria o seu distanciamento histórico em relação aos acontecimentos políticos de 1993. 

Preocupa-me imaginar que sua incompreensão possa ser ainda maior sobre tempos mais passados, como o período da Ditadura Militar. Por isso é fundamental ver o Greg News desta semana sobre o Regime Militar. 


Espero que nas próximas eleições os jovens sejam mais capazes de reconhecer uma caricatura de político e não embarquem na ilusão fascista da solução pela força e pelas armas.