segunda-feira, 16 de julho de 2018

Por que as crianças na caverna nos mobilizaram tanto?


Milhões de nós acompanhamos cilindro a cilindro o resgate do time de futebol infantil que ficou aprisionado por vários dias numa caverna, os Javalis Selvagens. Parecia ser o tema principal na maioria dos sistemas de comunicação, apesar de que, ao mesmo tempo, estivesse acontecendo a Copa do Mundo na Rússia, as enchentes catastróficas causassem centenas de mortes no Japão e milhares de refugiados da África continuassem tentando desesperada e perigosamente atravessar o Mediterrâneo para fugir da fome e das guerras.

Além disso, ali pertinho da caverna dos meninos, do outro lado daquela montanha, no outro lado da fronteira da Tailândia com Myanmar, centenas de milhares de pessoas da etnia Rohingya (VER AQUI ) estavam sendo massacradas pelos soldados budistas e obrigadas a fugir para Bangladesh.

E, sim, junto com a desclassificação do Brasil na copa, completamos quatro meses sem sabermos quem matou e mandou matar Marielle Franco.

Mobilizamos nossos corações pelos pequenos javalis, porque são crianças, dizem-me. É verdade, mas também há crianças entre os náufragos mediterrâneos, ou afogadas nas enxurradas japonesas e muitas, muitíssimas entre os rohingyas fugitivos.

Talvez as crianças na caverna tenham recebido a solidariedade mundial porque reúnem alguns símbolos contemporâneos.

Primeiro, eles eram TURISTAS perdidos numa caverna por um acidente climático, um acontecimento que pode fazer parte dos pacotes de viagens de qualquer um de nós, cujo sonho de consumo se tornou conhecer lugares. Quem não se imaginou preso numa caverna escura sem alimento durante dias e dias no lugar dos meninos? Aliás, canais de TV tentaram reconstituir o “clima” de desespero que nós, turistas compulsivos ou virtuais, podíamos compartilhar com o pequeno time de futebol.

Além disso, salvar aquelas crianças constituía um DESAFIO TECNOLÓGICO, mais uma conquista nesta espécie de guerra contra a natureza que travamos desde que formamos civilizações, fascinados que ficamos pelos superpoderes das máquinas e equipamentos que inventamos. Não foi por acaso que se ofereceu para ajudar na empreitada na Tailândia o tal Elon Musk, o mega ultra plus alfa bilionário que lançou ao espaço o seu carro Tesla e vende lança-chamas de brinquedo pela internet.

E, por fim, mas não menos importante, salvar os meninos na caverna era uma questão APOLÍTICA, ou seja, não estava sujeita a controvérsias, opiniões diferentes, perspectiva história ou conflitos de interesses. Podemos todos concordar em paz que eles deviam ser salvos e ponto final.

Esta unanimidade é justamente o contrário do esforço mental e afetivo que temos que fazer para nos posicionarmos diante de questões mais complexas e POLÍTICAS, como, por exemplo, se os refugiados devem ser recebidos, acolhidos e protegidos pelos países aos quais solicitam asilo, ou se os soldados budistas podem expulsar os rohingyas, ou se a polícia civil é suspeita para investigar a morte da Marielle Franco.

O episódio dos jogadores de futebol na caverna na Tailândia relembra outra caverna, a de Platão, na qual preferimos nos manter à sombra do imaginário aparentemente apolítico e unívoco patrocinado pela Coca-Cola do que encararmos a realidade inevitavelmente política e complexa da nossa vida.

E por falar em times simbólicos de futebol, quase que a supremacia branca e competitiva da Croácia venceu a diversidade genética e cooperativa da seleção francesa.

MacDonald Trump torceu muito, mas não deu.



quinta-feira, 5 de julho de 2018

Ideia do sorteio ganha força! Agora como a forma mais justa de distribuir verbas para pesquisas!



Fico contente de ver que cientistas internacionais estejam aderindo à nossa(*) proposta de SORTEIO como a forma mais democrática de distribuição de recursos financeiros para pesquisas científicas.


Tenho defendido o sorteio para preenchimento de vagas nas escolas e universidades, em empregos públicos, nas vagas de políticos no Congresso Nacional, nas Prefeituras, nas Assembleias Legislativas, nas Câmaras Municipais e na presidência da República, ou seja, em tudo aquilo em que houver necessidade da representação proporcional da média da sociedade.

Veja na Nature (aqui https://www.natureindex.com/news-blog/luck-of-the-draw) o artigo mostrando que o sorteio seria a melhor forma de DESENVOLVIMENTO da ciência, por evitar as distorções causadas pelos julgamentos humanos dos projetos de cientistas que solicitam recursos.

SORTEIO JÁ!

(*) Gregório Duvivier lançou a mesma ideia com algumas horas de diferença (ver aqui https://lorcartunista.blogspot.com/2017/10/gregorio-duvivier-apoia-sorteio-viva.html )

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Afronta



Para Luíza e Marco da Lígia



Da janela vejo o sol se ocultar por trás da favela, onde traficantes exibem as mãos visíveis do mercado.

Seguindo na mesma direção oeste, não terminou o dia em Brasília, mas os seus habitantes já encerraram o expediente e as possibilidades futuras pelos próximos vinte anos.

Nuvens douradas à esquerda deslizam sobre a praça, na qual refugiados venezuelanos disputam migalhas com pombos sujos pela fuligem que emana do tráfego intenso dos automóveis.

À direita, crianças obesas descem pesadamente de uma van escolar e entram entristecidas no prédio pelo playground sempre vazio.

Sobre os tetos dos apartamentos, andorinhas voejam inquietas por não encontrarem as árvores do ano passado.

Na casa ao lado, o casal idoso discute porque ele não quer tomar o remédio que prolonga sua doença e reduz sua aposentadoria.

Na outra esquina, o catador de papel descansa um pouco diante do carrinho de tralhas, que inclui uma bandeira nacional.



Tenho ímpeto de anunciar da janela que tanto o esplendor desta tarde quanto a miséria que surge das suas sombras hão de desaparecer quando o sol completar seu esfriamento.

E nada do que nos alegrou ou nos entristeceu fará qualquer diferença.

Retornaremos à poeira cósmica e a vida terá sido um brevíssimo interlúdio sem sentido no tempo incompreensível das galáxias.



Mas contenho minhas palavras e a ofensa que elas seriam para os habitantes da favela e da praça, os velhos, as crianças, o homem cansado e as andorinhas sem árvore.

São arrogâncias de quem possui uma janela, de onde ainda posso ver o sol.



(*) Foto feita com autorização do Seu Antônio, habitante do bairro Planalto